segunda-feira, 20 de julho de 2020
Muana
-Posso fotografar Muana?
-Pode, mas vê se não acidenta no fundo dos meus olhos. O fundo dos meus olhos tem precipício de lonjura. De um lado, a lonjura da terra, de toda esta imensa terra. Do outro, a lonjura do mar. Deste e, da água que nem cabe aqui. Fica para além do barco, das estrelas, do sussurro da gaivota e dos homens que acham que nunca, mas nunca, se vão perder.
No meio dos meus olhos, cabem todas as histórias que ainda não me ouviram contar. Não conto histórias ainda…só as carrego comigo, assim embaladas, no fundo do meu olhar.
-Olha aqui muana…
-E tu? Ensinas-me a olhar?
Fotografia: Marques Valentim
segunda-feira, 13 de julho de 2020
Poema Translúcido
Havia festa e um poema que se pousava devagarinho no meu ombro, translúcido.
Todas as palavras tinham cor e gosto e riso e um vestido novo pespontado a gargalhadas.
Havia festa, uma festa breve que se fazia por entre todos, numa roda, num tempo, num compasso de dança e um poema, a pousar devagarinho no meu ombro, translúcido como todos os poemas.
São diáfanas e transparentes as palavras que transportam beleza.
São de memória e de lucidez todas as festas, todos os lugares de dança, todos os compassos de vida.
Imagem: A chave dos sonhos" de René Magritte
domingo, 5 de julho de 2020
Vazio com cheiro salgado de horizonte
Aquele vazio era frio, húmido e tinha um cheiro salgado de horizonte.
Ao fundo do vazio uma janela entreaberta lembrava-me que haveria ainda, algures, espaço para uma existência.
Empurrei a única cadeira para o meio do espaço, sentei-me de mansinho, as pernas juntas, os braços pendentes, o ouvido parado e desatei a recordar.
O tempo que me habitou era outro e não tinha amarras. Cada lembrança que chegava fazia-o em cambalhota ou salto mortal e aconchegava-se feliz, no meu colo.
As gargalhadas fluíam num tempo qualquer como se nada do que não se passasse ali, naquele lugar, me pudesse verdadeiramente afectar.
Imagem: "A cadeira de Gaugin" de Van Gogh 1888
segunda-feira, 22 de junho de 2020
Caminho numa recta absoluta
Devagarinho,
acomodou-se no nicho. As pernas de encontro ao queixo, no único lugar que lhe
permitiria permanecer, até que a luz o invadisse de novo.
Toda a noite as badaladas ecoaram um sibilante: tzim tzum, tzim tzum, tzim tzum sem que uma única fresta lhe traçasse um caminho.
Seria qualquer um, esse caminho, menos a o da escuridão… Tizm tzum, tzim tzum, tzimtzum
Adormeceu algures, entre a terra, o seu coração e a eternidade, embalado pela branda presença do som que lhe lembrava um outro amanhecer .
Quando acordou reparou que a única porta fechada lhe estendia uma recta absoluta. Com os olhos semiabertos, decidiu-se então começar a caminhar.
Toda a noite as badaladas ecoaram um sibilante: tzim tzum, tzim tzum, tzim tzum sem que uma única fresta lhe traçasse um caminho.
Seria qualquer um, esse caminho, menos a o da escuridão… Tizm tzum, tzim tzum, tzimtzum
Adormeceu algures, entre a terra, o seu coração e a eternidade, embalado pela branda presença do som que lhe lembrava um outro amanhecer .
Quando acordou reparou que a única porta fechada lhe estendia uma recta absoluta. Com os olhos semiabertos, decidiu-se então começar a caminhar.
Imagem: " Mandola" Georges Braque 1910
quarta-feira, 17 de junho de 2020
No raiar da Primavera
Acordámos assim, os braços submersos debaixo de um suspiro longo e cremoso.
A noite deslizada que fora, em calda de açúcar, cobrira-nos as almas outrora vestidas de verde. Todas as almas, outrora vestidas de verde. E as outras, já matizadas pelos primeiros rigores do Outono num tom amarelado, pálido e indiferente. Não havia agora, nenhuma sombra de dúvida neste abraço. Os sonhos, amortalhados, lado a lado, até ao raiar da Primavera…
Imagem: "Amor" também conhecido por " O vampiro" de Edvard Munch 1902
segunda-feira, 8 de junho de 2020
Passos
Digo-te passos
Enquanto palavras rolam no chão.
Digo-te movimentos
Sopros do impossível.
Passo.
Tu passas.
Nos nós silenciosos
E escuros dos olhos,
Há os teus medos inoportunos
A galgarem as manhãs.
In "II Antologia de Poesia Contemporânea" Coordenação de Luís Filipe Soares Lisboa 1985
Imagem: "Viajante sobre o mar de névoa" de Caspar David Friedrich 1817
sábado, 16 de maio de 2020
Infinito
Não sei se quero tempo,
Se quero alma.
Se o meu passado me passa a cada dia,
se o meu dia se passa com pouca calma.
Não sei se quero tempo e trovas de tempo,
E o momento amedrontado às costas.
No ventre, o lastro desmedido e perdido dos dias,
E o que resta do nada
E de mim.
Se morrer serei infinito,
E o infinito não é senão
O nunca mais eu ter fim
Imagem: "Teseo e o Minotauro" Maestro Dei Cassoni Camparo 1510 (Avignon, Petit Palais)
sexta-feira, 17 de abril de 2020
أحنحة
هنا أناس وطريق طويل
في حقل الذرة
الطائر القديم
قالي على العالم الضائع
أسمعه بصمت
داخل الصدري زهورالدم
غدا أستيقظ مع الأحنحة
Asas
Aqui há gente e um caminho longo
Num campo de milho
O Pássaro velho
Conta-me sobre o mundo perdido
Oiço silenciosamente
Dentro do meu peito há flores de sangue
Amanha, levanto-me com asas.
Imagem: "An Experiment on a bird in the air pump" Joseph Wright of derby 1768
terça-feira, 14 de abril de 2020
Longitude
Ontem, ao dobrar de um cabo da minha vida, encostaste-me sem que eu desse sequer por isso uma longitude que desconheço.
A estrada está agora totalmente vazia e porei, doravante, os pés exactamente aonde eu mereço.
A minha longitude será um vazio ou um qualquer promontório. Um ponto a roçar o desmembramento dos dias, eu sei lá…
Neste reinício, desde ontem, uma recta sombreada perpassa-me a urgência e o medo.
Atrevo-me a dizer que por esta longitude, atravessarei corajosamente todas e cada um das paisagens, todas e cada uma das consequências, todos e cada um dos lugares.
Dir-me-ás tu, que me encostaste esta longitude, no final, lá bem no final, se eu sequer vivi. Se eu sequer existi. Se os caminhos que me impus ou que tu me impuseste foram estreitos, arqueados, coloridos, nefastos, irrisórios ou apenas calados.
E então, amanhecerei assim, amarrada ao meu infinito de ponto cardeal.
Pintura: Joseph Wright of Derby
domingo, 29 de março de 2020
אני ואתה נשנה את העולם
אני ואתה נשנה את העולם
Eu e tu mudaremos o mundo
אני ואתה אז יבואו כבר כלם
Eu e tu, então todos virão
אמרו את זה קודמ לפניי
Disseram isso antes, no passado
לא משנה
Não importa
אני ואתה נשנה את העולם
Eu e tu mudaremos o mundo
אני ואתה ננסה מהתחלה
Eu e tu tentaremos do início
היה לנו רע
Será mau (para nos/ será duro para nós)
אין דבר זה לא נורה
Nada é terrível
אמרו את זה קודם לפניי
Disseram isso no passado
לא משנה
Não importa
אני ואתה נשנה את העולם
Eu e tu mudaremos o mundo
Musica: Arik Einstein
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