sábado, 23 de abril de 2022

Asas

 


Asas  tem um peso certo, uma inclinação correcta.
Debruçam- se por cima do vento à procura do horizonte.
Asas são feitas da matéria da alma misturada  com a dos sonhos e  moldada na bigorna da vontade.
 Asas são assim, uma espécie de espelho, complemento da existência de todos aqueles que nasceram para voar.


Imagem:" The Threatened Swan "Jan  Asselijn 1650


terça-feira, 15 de março de 2022

O dia em que a minha janela se emocionou



 

 Antes de ontem o tempo era diferente. Sabia a terra, a sal da terra e tinha gente. Antes de ontem, as horas passavam céleres pela curva perfeita do relógio, sem olharem para trás. Os cabelos das horas voavam a cada minuto, os sorrisos das horas sucediam-se numa cadência ritmada...Antes de ontem. 

Ontem suspendeu-se tudo. Um repente de suspensão dos passos, das necessidades, da urgência de ir e de voltar, do pensamento, ate

é. E o mundo, o mundo reduziu se instantaneamente ao tamanho de um espaço vazio e de um silêncio. Quem olhasse o relógio, ontem, encontrá lo-ia pasmado. Como se nada se passasse, nada acontecesse. E isso foi ontem. 

Depois disso não houve mais tempo, mais espaço, mais gente e eu fiquei aqui. (...)


in " Os dias da Peste" Organização de Teresa Martins Marques e Rosa Maria Fina , PEN Clube Português, Gradiva, Julho de 2021

Imagem: "O triunfo da Morte " Pieter Bruegel 



 

 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

A selva

 

Era de piso assimétrico o terreiro grande da selva.
Por dentro, o espaço cingia-se a um orvalho matizado de negritude entre-cruzado no lajedo irregular. Ninguém percorria o lugar. Como se a quietude os mantivesse suspensos da sua própria respiração. Quietos, calados, absortos, sentados, encostados a essa paragem.

Uma pequena louva- a- deus pousou brevemente nos olhos que se deslizavam por ali, de uma mulher. Contemplar passou a ser então a sua única tarefa, feita em batimentos leves e ondulados de duas asas semitransparente.

Em volta,  os que ficavam, nem sequer se aperceberam. Como se nada tivesse acontecido que valesse a pena. E afinal, tratava se de uma eventualidade única na selva: o bater de asas de um louva- a -deus nos olhos de uma mulher.  
Nunca, nenhum pássaro se tinha aventurado sequer naquelas paragens. Uma selva de cimentos e aço, de negritude e lajedo não era lugar onde uma ave pousasse.

A selva não tinha constância nenhuma. Hoje podia amanhecer negra e amanhã sem cor. Raras vezes o amarelo se passeou por ali e de azul não havia um único traço. Apesar disso, as asas semitransparente do  louva- a- deus conseguiram, no aquoso da íris dos olhos da mulher, pincelar uma esperança. Uma pequena e minúscula esperança.
 A mulher chorou então uma espécie de rio que correu por ali abaixo e lavou. Lavou os passos quietos dos que permaneciam, sentados, absortos e sem reparar. Lavou as lajes negras da selva e revelou-lhes a brancura original. Lavou os traços ténues da imaginação que jazia  colada ao chão e, elevou-a  ao azul a espreitar no ar.


Imagem: "El hombre controlador del universo" Diego Rivera 1934


quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

A torre de Pisa vai cair

 


A torre de Pisa vai cair. 
Num dia qualquer e tombar devagar. 
O tempo da paisagem respira-se agora, antes da queda. 
 Anuncia-se a urgência em cada degrau.
A torre de Pisa vai cair com estrondo e espalhar-se pelo chão, inundar o lugar de pedras e rostos e passos. Todos os abraços e as gentes decalcadas de outras gentes. De tantas gentes permanentemente descalças e nuas e frias a deambular neste lugar.  
A torre de Pisa vai cair 

Imagem: "A torre de Pisa vai cair" de Mario Cesariny, 1978 

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Os dias da Peste - O dia em que a minha janela se emocionou

 


Antes de ontem o tempo era diferente. Sabia a terra, a sal da terra e tinha gente. Antes de ontem, as horas passavam céleres pela curva perfeita do relógio,  sem olharem para trás. os cabelos das horas voavam a cada minuto, os sorrisos das horas sucediam-se a uma cadência ritmada...Antes de ontem. 
Ontem suspendeu-se tudo. Um repente de suspensão dos passos, das necessidades, da urgência de ir ede voltar, do pensamento, até. (...)

Começa assim o meu pequeno contributo para uma obra maior: Os dias da Peste, que assinalam o centenário do PEN CLUBE PORTUGUÊS. Com organização de Teresa Martins Marques e Rosa Maria Fina. 
Uma obra que ficará certamente para a História deste tempo estranho que vivemos. 

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Literatura e cultura em tempos de pandemia - O bicho

 


" Chegou de repente o Bicho e invadiu tudo. 
Um bicho redondo, sem arestas definidas nem olhos para ver. Sem orelhas para ouvir nem pernas para correr, sem asas, sem braços, sem quase existência. 
(...) O bicho que chegou e invadiu tudo com a vontade firme de permanecer

Foi com muito gosto que participei com este conto no repto lançado pela UCCLA. Em tempos de pandemia. 

segunda-feira, 29 de março de 2021

Album de fotografias

 



A única ordem possível nas páginas era a de chegada à vida.
Um a um, cada qual na sua vez, tomávamos o lugar que nos calhava no enorme álbum de fotografias da sala de jantar.
Era à mesa que desfolhávamos as páginas, acrescentávamos os que acabavam de chegar e com pena, passávamos as mãos carinhosamente pelos que tinham acabado de partir. O álbum era pois uma espécie de repositório de uma parte das nossas almas, precisamente aquela parte que só existe, depois de devidamente assinalada, devidamente partilhada e com assento no lugar da memória. 
Por cada um que chegava e por cada um que partia, o álbum abria-se para deixar instalar mais um pedaço de tempo, um lugar, um sorriso.
Ninguém sabia quem o tinha começado. Uma menina de caracóis sem nome, sorria-nos do alto da primeira página, com o olhar escorregado já na sépia amarelecida. Sorria-nos de longe, desse lugar do tempo que só nos pertence porque  existem recordações.

Na imagem: "Auto retrato em grupo" de José de Almada Negreiros 

segunda-feira, 8 de março de 2021

Para além de nós

 




Dobrei muito bem o lençol por alturas do queixo. De fora, apenas a minha razão e as tuas dúvidas. Abraçámos -nos como se a noite fosse eterna. Como se o aconchego que nos invadiu fosse capaz de nos fazer esquecer os demónios. Todos eles. Os que chegam de madrugada e sobem pela nespereira do jardim e os outros, os que vivem sempre dentro de nós.

O lençol, por alturas do queixo, lembra agora um mar enrolado ao corpo. Um mar alto de transpiração e sono. Um mar de alento, à espera de uma manhã que nem sequer sabemos se virá.
 Não fossem as minhas pernas sargaços e os teus olhos faróis de um qualquer navio e dizia te que podíamos partir. Agora, sem destino nenhum e com uma direcção: para além de nós.
Muito para além de nós…  


Imagem: "Night and Sleep" de Evelyn de Morgan 1878