Pesquisar no Blogue

domingo, 27 de novembro de 2011

Sombras em Movimento




Tinha exactamente três anos quando  me apercebi que as sombras voavam. Galgavam as escadas da casa da minha avó, através da luz da clarabóia, sempre um passo à minha frente.
Comecei por as tentar agarrar, enormes, nas esquinas. Dobrada numa imensa  e constante correria.
E foi assim, que Lisboa ficou pequena e  me  fugiu dos pés...
Da estrela à Madragoa. Do Rato às Avenidas Novas. Do Rossio ao Castelo...as imagens passavam céleres. Iguaizinhas aos slides do verão.
-Vou ali num instante a casa dos avós e já venho...
 Lançava-me da estrela à Visconde de Valmor, num contra relógio, que precisava sempre de ser confirmado ao regresso...
- Vou outra vez pode ser?
E partia, mais depressa que a resposta.

Mais devagar. Mais devagar - esta miúda não sabe andar- os apelos inúteis da minha mãe, que já só tinham por eco o fundo da calçada vazia, deram lugar às voltas, aos saltos, ao deslizar das mãos nas paralelas. Esfoladas, apesar das estafas.

Foram anos infindáveis onde o sofrimento físico se misturava com a vontade férrea de voar. Muito para lá de todas as sombras...
E elas, cada vez mais exigentes, sempre coladas ao mais infímo dos movimentos.
Sombras que só cediam perante o sono, de um dia cheio, enroscado na frieza de mais uma cefaleia de tensão. De outra tendinite de esforço.
E os sais que não tinham tempo de ser repostos...e o peso que não subia...
O veredicto foi claro:
- Neste nível de competição o organismo ressente-se. Os custos são elevados...há que fazer escolhas.
A sombra a agigantar-se. A engolir-me logo ali, todas as lágrimas que eu ainda tinha . E a correr veloz à minha frente...
Até hoje.
Hoje, Lisboa, voltou a ser pequena outra vez.



(este texto é dedicado aquelas que foram durante anos e anos as minhas segundas casas: ACM; Lisboa Ginásio; Ginásio Clube Português e Sporting Clube de Portugal)







6 comentários:

  1. Que texto fantástico!
    Imagino como deve ter sido difícil deixar a sombra ir velozmente a sua frente.
    A dor e o sabor de voar muito bem colocados.
    Beijinho

    Lucia

    ResponderEliminar
  2. Foi muito difícil Lucia. Sobretudo desistir. Se bem que uma ginasta nunca desiste totalmente. Há coisas que ficam para a vida
    Bj e obrigada

    ResponderEliminar
  3. muito bonito texto e sobretudo o tratamento de uma coisa sem graça como seja a ginástica...eheehh...uma chatice, mas necessária, num esvoaçar das sombras. Excelente:-)

    ResponderEliminar
  4. VMM de Souza,

    Aqui tenho que discordar. A ginástica para mim foi muito mais do que uma coisa necessária e nunca uma chatice. Foi uma opção de voar sobre os limites.
    Obrigada

    ResponderEliminar
  5. Uma das coisas mais difíceis da vida é abrir mão de um sonho. Concordo! Mas, pior do que isso é nunca tê-lo vivido.

    Vivenciar e depois perder, alimenta o nosso espírito de uma delicadeza capaz de atravessar anos e fazer um texto como esse, onde a emoção e a sensibilidade dão o tom. Obrigada, pela partilha.

    ResponderEliminar
  6. Tento que seja assim Julieta, mesmo que às vezes seja tão duro, ter que abdicar dos sonhos. Parece que estavam mesmo ali...
    Obrigada

    ResponderEliminar