sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Recta Absoluta




Devagarinho, acomodou-se ao nicho. As pernas de encontro ao queixo, no único lugar que lhe permitiria permanecer, até que a luz o invadisse de novo.
Toda a noite as badaladas ecoaram um sibilante: tzim tzum, tzim tzum, tzim tzum sem que uma única fresta lhe traçasse  um caminho.
Seria qualquer um, esse caminho, menos  o da escuridão… Tizm tzum, tzim tzum, tzimtzum
Adormeceu algures entre a terra, o seu coração e a eternidade, embalado pela branda presença do som que lhe lembrava um outro amanhecer.Quando acordou,  reparou que a única porta fechada lhe estendia uma recta absoluta. Com os olhos semiabertos, decidiu-se então começar a caminhar.

Imagem: Quadro de nadir Afonso

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Naufragio


Comecei a navegar pelas bordas da tua urgência, devagarinho e com terra à vista. Depois, fui percebendo que é sem pé que se alcança a ternura e que o fundo do mar e o fundo da terra são um e o mesmo lugar.

Parti porque havia vento e havia uma saudade imensa de horizonte. 
Parti porque me esqueci de tudo o que nunca aconteceu e ontem, me parece agora, apenas  um lugar amanhecido no fundo de um frasco de vidro baço.
Parti porque o sol me desdenhou sempre e de todas as vezes que se encostou à curva da  minha lonjura.

 Desde ontem que navego e não vejo senão horizonte. Um mar que me serpenteia entre os  anseios e ninguém.  Um mar que me serpentei entre as  recordações e ninguém.  E o espanto atravessado na crista de cada uma das ondas que procuram um lugar.
Desde ontem que navego e não sei  se algum dia aportarei.  


Imagem: "La radeau de la meduse" de Theodore Gericault

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Debruço me sobre a tua ausência e tenho medo


Paro de repente e percebo que não estas.
Ninguém pode parar assim, de repente porque tempo urge, a felicidade reinventa-se todos os dias e com ela os nossos passos e os nossos anseios. Mas é assim, eu paro agora, de repente, e percebo que não estas. 
Não sei se já estiveste ontem. Ontem é demasiado longe para eu perceber. Demasiado irrelevante para eu me preocupar. Não sei sequer se é bom lembrar-me de ontem. O passado é apenas e só o passado.
  Olho e não te vejo.
A vida é feita de exigências momentâneas. Exigências enormes que abarcam quase tudo o que fazemos, quase tudo o que pensamos. Exigências que se estendem a tudo o que comemos, a tudo o que compramos e a tudo o que sonhamos. Quem exige, eu não sei. Não me pergunto. Ninguém se pergunta. As perguntas apenas consomem sem nada produzir.  
Não estas aqui. Sei que não estás. O meu olhar não te encontra, os meus braços não te tocam,  e  há um silêncio que devagarinho se vai acomodando.
Ninguém precisa de silêncio. A vida é para se cumprir em cada um dos instantes que se agarram às mãos cheias. São instantes que se transformam rapidamente em sucesso visível, para que a existência seja toda ela, um êxito.  
Continuo parada. Não posso estar parada. Preciso de continuar. Mas é o medo sabes. Um medo aquoso e frio que me atravessa todo este dia
É a tua ausência. Debruço-me sobre ela e tenho muito medo!


Pintura  liquida de Pery Burg


sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Absoluto




Despedi-me do mundo, das coisas, dos acenos e das respostas e entrei.
A casa pareceu-me o absoluto.
Se felicidade houvesse, ela estaria toda ali, entre as linhas paralelas das portas abertas e as perpendiculares desenhadas na janela curta  ao fundo da cozinha.
Lá em baixo o saguão transpirava.
Ouvia-se a transpiração do saguão e um arfar contínuo das paredes que se comprimiam em redo  do espaço cerrado.
Era de facto, o absoluto. Ou então, o mais parecido com o absoluto.
 Um mar de respostas adormecia em cada um espaços, côncavos, deste lugar.
 Nenhuma abertura e nenhuma paisagem.
Sentei-me de costas e comecei então a perguntar-me…


Fotografia de Ben Goossens



quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Flôr de jasmim


Adormeci por debaixo da tua ousadia.
O espanto acobertou-me os olhos, as angústias e o lugar.
Debruçado na sombra de um infinito que desconheço, imagino apenas que amanhã farei um castelo de espuma na beira do teu sorriso
E depois, levá-lo-ei  embrulhado numa flor de jasmim ao lugar de um  céu.


Quadro de Rafal Olbinski

domingo, 14 de julho de 2019

Pudesse eu ser mulher




Deram-me o espaço e o tempo. E,  as portas abertas para lugar nenhum.
Deram-me janelas, completamente desertas.
Depois, deram-me as horas, todas as horas que eu quisesse, para poder pensar e  um rosto pálido, descolorido, de tanta ausência.

A espaços, cederam -me  bocadinhos de vida. Creio que de alguém…Nem eu sei.  
Eram retalhos coloridos que  encaixava, meticulosamente, entre os minutos de todas essas horas. A segundos, por vezes, das recordações.
Como se eu pudesse ter recordações…
Alegrias limitadas e consentidas por ora e,  permanentemente vigiadas.

Alguma vez, se assim fosse, eu começaria lentamente  a construir-me de coisa alguma.
 De sabor, de calor, de barro, de cor, de acontecimentos… Ah, nesse dia, eu saberia: seria então, mulher!
As minhas janelas teriam vista de horizonte. Seriam  janelas abertas para prados  de mar e lagos de erva-doce.
As minhas portas cheias de gente.
Um dia…pudesse eu ser mulher!

imagem: mural de rua na cidade de São Paulo, Brasil,  da autoria de Nina Pandolfo

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Decidira-se a permanecer

 




Sentara-se naquele lugar havia tanto tempo…
Ninguém lhe tinha dito que havia um momento próprio para sair,  um tempo correcto de abandonar.
O lugar parecera-lhe imenso, com espaço para o resto de quase tudo o que já sonhara,  o resto de quase tudo o que ainda não vivera.
Sentado, as mãos caídas no colo, o olhar absorto, o mundo algures e esse único lugar…Quem sabe, uma pequena conquista ao infinito.
Não passara por ali ninguém. Nem o tempo, nem nenhum outro espaço, nem sequer a sombra de um silêncio ou de um  murmúrio…as mãos caídas no colo, o olhar vazio.
Sentara-se  por uma única razão: decidira-se  a permanecer

Quadro:  "Cadeira com cachimbo" de Van Gogh

sábado, 6 de julho de 2019

Unicornio Azul






Quantos unicórnios azuis com asas
Que dão as mãos ao infinito
E aconchegam em  abraço a dor de alguém?

Quantos unicórnios azuis
que lavam  as penas e sacodem  o vento
E inventam o riso 

Socalco de um  meio de dia que não acaba…
Nunca  mais acaba esse meio de dia.

Quantos unicórnios azuis encostados devagar à tua cara de anjo?

E o meu segredo
de te saber assim,
outra vez,
tão perto de Deus

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Vazio



Vazio

Encostei devagar a minha urgência ao vazio.  Acomodando o rosto, o resto e essa  parte de mim de que mal me lembrava.
O vazio, apesar de tudo, tinha esquinas inundadas de grandes e pequenos espaços.  De grandes e pequenos ângulos feitos de intensas oscilações acústicas que nasceram num momento qualquer, num dado instante ou, quem sabe, de um não lugar situado muito para lá da minha imaginação.
À roda do vazio, naturalmente, não havia mais do que apenas eu.
Eu e os meus  pequenos ombros, a minha cabeça finita, o corpo que se aquietava quase sem sentido.
O desamparo  era visível e a existência  quase nula.
Deixei-me ficar pelo  tempo todo que se passou. Um conjunto de horas imprecisas, de minutos apressados. Senti, por isso mesmo,  o desamparo de que é feito o vazio. O silêncio que o completa , a imensa desventura  e o tédio que o acompanham.
Não sei sequer se  foi por  um único acaso que eu  me encostei assim…
Do vazio  não retive nenhum produto, nenhuma lembrança,  absolutamente nada.


sábado, 1 de junho de 2019

Horizonte


Pedem-me que alcance o horizonte. Por cima de todos os cinco mares.
Como se o horizonte não estivesse no fundo, rotativo, do infinito.
Como se os cinco mare não se dessem as mãos, em toda a sua lonjura. E,  a água, não soubesse voar...


Quadro: Horizonte Onírico de Guillermo Serrano de Entrambasaguas