quarta-feira, 1 de maio de 2019

A porta do teu lugar




A porta do teu lugar abriu-se com estrondo. Lá dentro, um rasgo e um grito. Um mar de sombras pasmado e um segredo.
Entrei de rompante, segurei   as  abas prenhes do  teu pensamento  e, por causa de quase nada, deixei-me então ficar.
O balanço e a quietude do lugar, desse   teu lugar, aqueceu-me  o meu silêncio  e destemperou-me o passo. A ponto de nunca mais ter franqueado a porta. Pareceu-me inútil o pormenor de saída. 


Quadro- "Masters Musical Beginnings" de FREDO - Fernando de Jesus Oliveira

sábado, 27 de abril de 2019

O olhar




Espanta-me que não consigas ver sequer o meu olhar…
Um olhar desmesuradamente manso e sem infinito. Como se o lugar se espremesse todo para dentro e arrasta-se com ele as ideias, as lembranças, as possibilidades e o rasto do horizonte.
Lá longe, muito para lá da iris que  certamente também não vislumbras,  acomodado está todo o meu silêncio.
Não vês o olhar, não vês a iris, nem sequer a mácula que transporto  imutável desde o dia em que nasci. 
Sei que por isso, nunca mais me amanhecerei e isso basta-me.
Sei  ainda que tu nunca irás entardecer e isso conforta-me.

sábado, 13 de abril de 2019

Quiosque amarelo



Desceu a par e passo até ao largo, inundado de luz e pespontado a quiosque amarelo.
Comprou o jornal dessa manha e embrulhou meticulosamente com ele, o olhar. Depois, dirigiu-se às margens que lhe sulcavam devagarinho o espanto. E só aí, se desaguou em foz.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Templo de Palavras



Encostei-me outra noite ao teu umbral a ver como separavas devagarinho as sílabas e as embalavas no colo. Depois, quando as sentias completamente reconfortadas, arrumava-las em caixinhas coloridas. Uma caixa para as sílabas tónicas, outra caixa para os monossílabos.  Duas caixas, de maior dimensão, para os polissílabos. Uma passa as mais leves e outra para as mais pesadas.
as tuas sílabas eram, na sua maioria, sílabas muito breves. Com um corpo pequeno e uma existência curta. Não queriam dizer, por si mesmas, quase nada. Limitavam-se por isso a existir, assim desalinhadas, tombadas, de braços abertos no teu colo enquanto tu, meticulosamente as separavas. (...)
Flor foi a sílaba que escolheste para me oferecer na primeira noite que passei encostado ao teu umbral (...)
Amanhã, quando madrugar, abrirás a porta.
Eu serei muito mais eu
E tu, tu serás uma vez mais o templo de palavras.

 Epilogo In "Templo de palavras"  Editorial Minerva Março de 2019

sexta-feira, 29 de março de 2019

Exposição de Pintura de Pedro Charters D´Azevedo


Aceitei o desafio de apresentar a exposição do Pedro Charters D`Azevedo. Os quadros são magníficos.
Estão todos convidados.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Amanhã, será para sempre




Espera. Não me entres de supetão. Não me entres…
A porta, tu sabes, está sempre semicerrada, não vá teres que vir, devagarinho, a fazeres de conta que não é nada… Só um instante, uma hora, um espaço pequenino por entre os ponteiros do teu relógio…
O tempo, tu és o tempo eu sei. És todo o tempo, por inteiro. Trazes contigo uma máquina infernal que me tritura os passos, me absorve a lonjura, me desagrega.
Quero urgência por vezes, eu sei disso, mas apenas de porta fechada.
Não te deixo passar. Não forces… Não implores. Eu não te deixo passar
Aqui não tens lugar.
Livra-te de me atravessares a existência nem em passinhos miudinhos.
Detrás do sofá da sala há um relógio de cuco sem asas, sem voz, sem mecanismo.
Tudo para que não te chegues a mim.
Quero acreditar que amanhã, amanhã, será para sempre…




sexta-feira, 12 de outubro de 2018

II Bienal de artes plásticas e literatura CPLP/ Galiza

Foi com muito gosto que aceitei o convite para estar presente amanhã, dia 13 de Outubro na II Bienal de artes plásticas e Literatura CPLP/ Galiza.

A todos quantos me honram com a sua passagem por este espaço, convido desde já a estarem presentes.
Iremos debater a literatura, a sua diversidade e as possibilidades múltiplas de partilha no espaço lusófono. Dar palavra aos poetas, chamar ao palco o acto criativo, no espaço privilegiado do Mosteiro da Batalha.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Colisão




Acordei a pensar que o mundo era finito, hoje. Tudo acabaria, num passe de mágica , ao nascer, ou ao romper da aurora.
Restaria depois disso, o lugar vazio e mais nenhum tempo.
E espaço outrora ocupado por coisas inertes e mais nenhum sonho.
Estiquei -me para fora da janela a ver passar quem ainda passava e, a pensar que daqui a nada ou daqui a tanto,  é indiferente, seria só o fumo dos corpos  e o espaço dos passos a desabitar este lugar.
Como se a vida se tivesse desnorteado de repente e não soubesse muito bem para onde ir.
Estiquei-me mais para fora da janela, os braços nus pendurados no abismo e os olhos  a dançar ao compasso do vento.
 Daqui a nada ou, daqui a tanto, não seria preciso esticar-me para fora da janela.  Haveria nessa altura  um enorme fora, efectivamente. No entanto, nenhum dentro.
Um a um, contei os transeuntes que restavam na rua a passearem como formigas num carreiro e gritei-lhes e lancei-lhes uma corda…


Fotografia : LHC - the large Hadron Collider

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Umbral


Encostei-me ao teu umbral. Mesmo sem saber se a tua existência era agora ampla ou, se a porta da tua vida permanecia como sempre, aberta.
Lembrei-me só, de que havia uma largueza quando se chegava. Uma largueza de escadas, de hall de entrada a cheirar a fruta da época.  Uma largueza da cor da fruta da época, tombada em matizes de maturação nesse teu lugar.
Nunca me imaginei assim, acredita, encostada ao teu umbral.
Ergui os olhos e percebi,  que não havia  chuva nem sangue, nem a cor pálida do teu silêncio. Só um naufrágio amendoado de corpos que ficam, que se deixam ficar e  que não permite tudo.
O travesseiro atravessava-me o pescoço e prendia-me a respiração. Do lado de lá, vi que permanecias.  Permanecias no teu lugar exíguo, com vista inteira para o saguão... (...)