domingo, 11 de outubro de 2020




O vento chegou e com ele os momentos todos que tínhamos atirado pela janela, estreita muito estreita, da nossa vida. Eram momentos doces, inoportunos. Momentos de silêncio e de tagarelice. Alguns,  eram mesmo momentos felizes. Acontecimentos sem nenhuma importância que se enrolaram uns aos outros e se deixaram, muito simplesmente, levar.
O vento embrulha-me quase tudo o que perdi, quase tudo o que me esqueci, dizes-me baixo com medo de acordares alguma  inevitabilidade. E eu, eu apenas te seguro levemente pelos ombros e deixo escorregar uma lágrima de encontro à palma da tua mão porque percebeste finalmente que sem esses momentos, não há agora nenhum passado que tenha realmente valido a pena.

Imagem: "Wind from the sea" de Andrew Wyeth

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Água


Encontrei-te parado. O olhar à espreita e as lágrimas que te rompiam horizontes pelo queixo abaixo. -O que se passa? - Não te sei dizer. Foi uma emoção que chegou assim e se aconchegou ao meu olhar transformando tudo em água. Penso agora apenas rios e efectivo maresia em tudo o que faço. O tempo é para mim um lago de água calada e o meu lugar um espaço de ribeiro, tão breve. Se te disser que em ti vejo uma pequena baía acreditas? - Claro que sim. As baías são lugares onde desagua tudo. O mar, as lágrimas, os caminhos e os horizontes. Sem baías o mundo ficaria seco. Definitivamente, seco. Pintura : "Impressão, nascer do sol" de Claude Monet

domingo, 6 de setembro de 2020

O Talento - RSTP Programa Poesia e Musica em Harmonia


Foi com muito gosto que participei no programa onde se falou de  talento e dos talentos de cada um e de todos. Com partilha e música.  
É no talento de cada um que se cumpre  muito da vida e da felicidade. 


sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Amanhã

 



Amanhã vais acontecer e os traços que se fizerem teus serão quase eternos, dizem-te.  
Amanhã, não te esqueças.
O tempo que flui por debaixo dos teus anseios, por agora, nem sequer é teu. É apenas um esgar, um abafo, um suspiro que se desalinha numa qualquer paisagem.
Amanhã, apenas e só amanhã, será tu mesmo com uma força que nunca ninguém te viu.  
Hoje limita-te a nem sequer entender porque é que tudo o que sonhaste escorre célere, por debaixo do silêncio amarrotado do guardanapo, pousado a um lado.
Conta depressa quantas vezes quase aconteceste nos últimos minutos que se passaram.   
Vais perceber o que nunca entendeste e, que muito provavelmente,  o teu amanhã já nem sequer existe. 


Imagem: "Objecto não identificado" Nikias Skapinakis  


domingo, 23 de agosto de 2020

Noite

 





Ontem esperei que a noite me sobrevoasse.
Sem pressa, sem destino.
A noite sobrevoou-me.
Chegou de mansinho e instalou-se. Primeiro na curva dos meus ombros adormecidos. Depois, num suspiro estrelado aninhou-se ao côncavo da minha mão.
O que me disse, eu não me lembro mas os  sonhos, esse, navegaram inteiros. 

Imagem: "le rêve" Pablo Picasso 

 

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Abraço






Acordámos assim,  os braços submersos debaixo de um suspiro longo e cremoso.
A noite,  deslizada que fora em calda de açúcar, cobrira-nos as almas outrora vestidas de verde. Todas as almas, outrora vestidas de verde. E os olhares, já matizados pelos primeiros rigores do Outono num tom amarelado, pálido e indiferente.
Não havia agora nenhuma sombra de dúvida, que restaríamos neste abraço.  Os sonhos, amortalhados lado a lado, até ao raiar da Primavera…


Imagem: Quadro  de João Timane




quinta-feira, 23 de julho de 2020

Recta Absoluta



Devagarinho, acomodou-se ao nicho. As pernas de encontro ao queixo, no único lugar que lhe permitiria permanecer, até que a luz o invadisse de novo.
Toda a noite as badaladas ecoaram um sibilante: tzim tzum, tzim tzum, tzim tzum sem que uma única fresta lhe traçasse caminho.
Seria qualquer um, menos a o da escuridão… Tizm tzum, tzim tzum, tzimtzum
Adormeceu algures entre a terra, o seu coração e a eternidade, embalado pela branda presença do som que lhe lembrava um outro amanhecer .
Quando acordou,  reparou que a única porta fechada lhe estendia por uma pequena fresta uma recta absoluta. Com os olhos semiabertos, decidiu então começar a caminhar.


Imagem: Sunrise on old Montauk  Highway de Grant Haffner

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Muana




-Posso fotografar Muana?
-Pode, mas vê se não acidenta no fundo dos meus olhos. O fundo dos meus olhos tem precipício de lonjura. De um lado, a lonjura da terra, de toda esta imensa terra. Do outro, a lonjura do mar. Deste e, da água que nem cabe aqui. Fica para além do barco, das estrelas, do sussurro da gaivota e dos homens que acham que nunca, mas nunca, se vão perder.
No meio dos meus olhos, cabem todas as histórias que ainda não me ouviram contar. Não conto histórias ainda…só as carrego comigo, assim embaladas, no fundo do meu olhar.
-Olha aqui muana…
-E tu? Ensinas-me a olhar?


Fotografia: Marques Valentim

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Poema Translúcido


Havia festa e um poema que se pousava devagarinho no meu ombro, translúcido.
Todas as palavras tinham cor e gosto e riso e um vestido novo pespontado a gargalhadas.
Havia festa, uma festa breve que se fazia por entre todos, numa roda, num tempo, num  compasso de dança e um poema,  a pousar devagarinho no meu ombro, translúcido como todos os poemas.
São diáfanas e transparentes as palavras que transportam beleza.
São de memória e de lucidez todas as festas, todos os lugares de dança, todos os compassos de vida.



Imagem: A chave dos sonhos" de René Magritte