Pesquisar no Blogue

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Páscoa - Sabia que os tinha morto a todos, aos milhares




Sabia que os tinha morto a todos, aos milhares.
De desesperança, de tristeza, de angústia, em dias pares ou dias ímpares, indiferente…
Sabia que os tinha morto mas nem por isso lhes guardava qualquer imagem. Tão-somente uma amálgama de lágrimas que se desfaziam em poças pequenas e fundas  e que a perseguiam fosse para onde fosse... era tudo,  o que deles lhes restava.
Sempre que saía do carro, lá estava a água salgada, debruada de alcatrão ou lama, no caso de também ter chovido, a desbotar-lhe os sapatos de pele, a manchar-lhe a gabardine de griffe, a atrasar-lhe o passo…
O passo, era a única coisa que realmente a preocupava nessa questão de água de lágrimas e de poças de gente, que lhe torneavam o caminho… E o passo tinha que ser mantido rigoroso, absoluto e cadenciado, em direcção ao alto, fosse qual fosse o lugar ou,  a circunstância.
O passo firme e sem desnorte a que se habituara cedo, muito cedo, ainda por alturas do início dos sonhos.
Agora, já não se lembrava sequer que existiam sonhos. Só passos.  

Sabia que os tinha morto a todos, aos milhares.
Apesar disso e, quem sabe se por causa disso,  nesse domingo de Páscoa, tirou do bolso os ovos de Páscoa que tinha ido buscar e começou a pintá-los.
Pintou-os em traços largos, de azul e esperança. Coisas que nunca tinham feito parte do seu quotidiano, o azul e a esperança, mas dizia-se… salvavam.
Não tinha a absoluta certeza de alguma vez vir a precisar de ser salva, no entanto, pintou-os metodicamente em traços largos de azul e  de esperança.
Nesse domingo de Páscoa, em que sabia, que os tinha morto a todos, aos milhares.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Paisagem




Atravessou toda sua a paisagem, em passos miudinhos, do início até ao fim.
Para trás, tinha deixado o seu próprio disfarce, escrito ainda em traços indecisos e, um pequeno raio de sol.
As nuvens baixas, não lhe tocaram sequer os dedos. E a música, essa, soletrava-se de memória de cada vez que o vento o empurrava para a frente.
Em baixo, sempre o soubera, não haveria nem distância, nem imagem, nem sequer um único lugar.
 Só a velocidade turva da vida, em permanente desequilíbrio…




na imagem: o mapa matemático de Nikola Tesla para a multiplicação

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Convite


Um convite do Delmar Maia Gonçalves para um projecto em que tenho o gosto de participar.
Com prefácio do Mário Máximo.
Apareçam!


quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Marulhar D'alma




Desconhecia que te despirias de horizonte.
Já te tinha visto a dançar, por dentro de quase todos os sois da minha memória, mas desconhecia que te despirias de horizonte.
Pediste-me silêncio e ali fiquei, numa lonjura desmedida, entre os teus passos . Quase esquecida, num absoluto marulhar de alma.


Imagem: quadro de  Lev Russov

domingo, 18 de dezembro de 2016

Bichos-mais-que-medonhos





Não me importava de fazer nascer os bichos-medonhos- pela- noite -fora.
Os bichos- medonhos, os bichos- mais - que -medonhos, todos os bichos, pela noite fora.
Não me importava.
A porta dos bichos permanecia entreaberta toda a noite e, todas as noites. Era pela porta aberta que nasceriam. Uma porta sem dobradiças nem ferrolho.
Para fazer nascer os bichos, começava-se por fechar também todas as janelas. E, deixar que os humores do dia e misturassem com o breu para fazer nascer pensamentos.
Todos os pensamentos eram alma dos bichos. 
Para os medonhos era necessário pensamentos de um dia em revolta, de um dia de mar alto e angústia. E sem nenhuma emoção.
Bastava que uma única emoção, entrasse pela porta dos bichos, ao fundo de mim, que já não  seria possível fazê-los nascer.
Nos dias de raiva, em que as mentiras tinham andado à solta a gargalhar ao sol, era muito mais fácil fazer bichos medonhos.
Nos outros, às vezes, saíam só os bichos de faz-de-conta…redondinhos e pasmados. Sem vontade de naufragar pelo sonho adentro…



(escultura de Rosa Ramalho)

 

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Pietra


(Escultura de José Castro López)

 Escutou-me primeiro o silêncio como se a adivinhar as extremidades.
Depois, num voo suave, com os dedos alados presos por um fio de lágrima à palma, levantou o escopro.
Decidira que me partiria durante o tempo necessário. Nem mais um instante, nem menos numa nuvem de pó e quase nada. Apenas o bastante para me descompassar, me insistir, me fazer resvalar por todas as extremidade de encontro ao cerne.
A pedra cederia por fim o âmago. Sabia disso. Sabíamos disso.
Mais tarde ou mais cedo, as pedras cedem…Podem demorar o tempo dos pássaros que voam em círculos, dos objectos latentes que se movem por um único instante, dos membros que se desenham e redesenham incessantemente balouçados.
E se tocam e se balançam.
E se enchem de veias insuspeitas.
E se misturam de carmim, de verde, de cinza…
Um rio de mármore escorrido por mim abaixo e, o escopro a lamber-me as extremidades ainda toscas.
A força do martelo que se levantava à distância precisa de todos os meus receios.
Não havia ali nenhuma urgência de me partir.
Mesmo assim, sucumbiria a cada instante...

domingo, 4 de setembro de 2016

O último poema



( Gravura de M.C. Escher)
 
 
O último poema


Haveria apenas palavras bastantes para um último poema curto em forma de beco sem nenhuma outra saída além de meia dúzia de palavras que restavam aterrorizadas todas as outras tinham sido levadas ou pelo medo ou pela inoperância ficaram apenas essas que agora se amontoavam quase sem respiração e seguramente sem nenhuma pontuação o tempo de pontuar tinha passado o destas parcas palavras só tinha presente uma vez que nem sequer se atreviam a inventar um futuro tal o medo de igual destino a estrofe curta e atarracada logo no início do papel parecia-lhes o único porto seguro abraçaram-se as últimas palavras havia um porém e um sempre uma verdade e dois falsos um cume e um absoluto nenhuma interjeição
fosse como fosse era melhor ser-se rápido pensou o poeta não fosse a estrofe não aguentar
Porém falso absoluto
Sempre verdade
No falso cume.

O cume resvalava não obstante o falso que lhe estendia a mão perigosamente pela estrofe abaixo ameaçando perder-se foi preciso mudá-lo rapidamente

Porém Falso absoluto
Sempre no falso cume
Verdade

Mas o certo é que a verdade não se aguentou sem nexo assim no final de tudo dependurada com um V á beirinha da estrofe O que haveria de verdade Perguntar-se-ia antes que a palavra se perguntasse e com isso se fosse o poeta tratou de a recolher

Porém absoluto 
Falso cume
Verdade ? Falso!

sábado, 2 de julho de 2016