sábado, 18 de novembro de 2017

Saia de mulher



De repente o céu ardeu.
Ardeu de fumo, sem fogo
De fogo, sem pó.
E a minha saia rodada,
Que se rodava ao vento,
A minha saia rodada,
descompassada do tempo,
Pendurada,
Morta,
Só.

sábado, 14 de outubro de 2017

Setembro



Setembro fazia-se sempre a tempo.
Sobretudo no vento que rodopiava cá em baixo. E obrigava a dançar o areal, em ritmo acelerado de nortada. O mar subia agora ao pico do equinócio, deslizando entre a saudade de quem se vai,quase por completo, para logo voltar, senhor de todos os espaços. Na praia, restavam apenas algumas barracas. Em cima, na serra, despontavam as amoras. E o gosto de se lhe beber da seiva e de se lhes juntar o mel da urze e da giesta. Amoras douradas, com sabor a vento, essas. Nascidas do olhar arregalado do mar.

Filipa Vera Jardim in " São Martinho do Porto - Momentos"

O quadro: Outono de José Malhoa

sábado, 30 de setembro de 2017

وليد علا الدين و أنطونيو خيديانWalled Alaa Eldin e António Gedeão


A língua transporta com ela a cultura, o sentimento e o saber dos povos. Através das línguas, chegamos lá, aos corações mais improváveis.
As traduções literárias são, também elas,  literatura.
O texto na imagem,  em árabe, é sobre António Gedeão. O texto em Português, sobre o escritor/poeta  egípcio  Walled Alaa Eldin. Uma tradução de  Faysal Rouchdi





Waleed  Alaa Dine poeta de pátria árabe
Waleed  Alaa Dine nasceu no Cairo, em 1973, cidade onde estudou Jornalismo e Comunicação e, actualmente, é um poeta de considerável importância na literatura árabe. Escreveu poemas onde fala sobretudo da sua pátria, o Egipto.
Mais tarde, viajou para os Emirados Árabes Unidos, onde trabalhou no jornal Alkhalij, revelando-se um bom jornalista e um excelente poeta. A sua primeira obra, intitulada Minha Língua responde- me foi publicada em 2004.
Além disso, sem deixar o seu trabalho no jornal Alkhalij, trabalhou na televisão do Dubai economia, concretizando um sonho que tinha. Escreveu vários géneros literários, tais como o narrativo (contos), o dramático(peças de teatro) e literatura de viagens, como o relato da sua viagem à Argélia.
Escreveu um bom poema sobre a pátria, intitulado. Como diz Waleed:
“Até mesmo o amante é a pátria"
Amigos Surpreendem-nos
com as suas palavras
Sobre as colheitas
Surpreendem-nos
Com linguagem de desejo
Com verdadeiros amantes”
A queles algo luar nunca desvanece
Quem se atreve no primeiro
A Amar sozinho
Nunca espiral؛
Até amar apaixonando..
Que se atreve !!”
Este poema trata do amor, dum amor com  duas faces. A primeira face é a sua namorada e a segunda a sua pátria.  O poeta usa o pronome “eles”, significando os amigos da sua pátria. Waledd Ala Dine pretende dizer que o amor não tem definição, é uma coisa abstracta.
Existe uma estudo comparativo entre o poeta Waleed Alaa Dine e o poeta brasileiro Gonçalves Dias. O estudo debruça-se sobre os dois poemas, o de Waleed, intitulado” Até a minha namorada é a pátria” e o  poema de Gonçalves Dias, ”Canção de exílio”.
Por fim, podemos dizer que Waleed Alaa Dine tem um grande amor pela sua pátria árabe . O seu amor por ela, é comparável ao do poeta português Fernando Pessoa, quando este diz" a minha pátria é a língua portuguesa”.
 Waleed recebeu vários prémios, entre eles, o prémio Literatura de Guerra, em 1996; Aharkaa, em 2006 e o prémio de Sawires, em 2016, com “72 horas de perdão”.
                                                                                                FAYSAL ROUCHDI


terça-feira, 5 de setembro de 2017

"Exílios" de António Patrício Pereira



Chegou assim, em envelope de laço e capa de luz e sombras atiradas por ali acima, por uma escada. Uma escada com início e sem fim à vista, que é sem nenhuma dúvida, a escada da nossa própria existência.  
Do poeta, sabemos que subirá. Hoje, amanhã, nem ele sabe bem quando, mas subirá.
A subida é agreste e tem “breves fronteiras” porque somos pedra, pele e corpo imperfeito. Mas o poeta subirá e, continuará a subir… nós subiremos com ele, de mãos dadas ao azul, aos dias, ao universo, que pode ser “perfeito princípio”  e ás palavras que nos agasalham os passos. Há fronteiras e há cansaço, mas há caminho.
 Somos imperfeição e existimos, brevemente, na justa medida da procura do nosso inteiro lugar. Lá, onde a palavra “se moverá, junto com a terra e em repetidas madrugadas”.
Pelo caminho que se prevê longo, ficam os silêncios, a vida e o pó. O vento e as searas que atravessamos, ao sabor e ao saber dos dias.
A acompanhar-nos, o cavalgar incerto mas nem por isso menos incisivo do tempo, sempre presente. Um tempo que nos atrasa o passo, que nos condiciona a vida, que nos lembra a cada momento, da finitude e, que simultaneamente, nos permite a busca, nos acelera o passo, nos impulsiona a imaginação. Um tempo de permanência e de resistência. Um tempo mesclado de luz, sombra e azul.
Lá, no aconchegar do último degrau, restará o espaço em forma de lugar. Esse lugar de justeza, de perfeição, de cântico, de água e de pedra onde o poeta se torna…gente.
Obrigada António Patrício Pereira por este “Exílios”. Um lugar de viagem. Bonita e incontida viagem. E por todo o tempo. E por esse lugar. Gostei muito.

Filipa Vera Jardim

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Raízes





Era o céu azul de tudo e o ar transparente, a revelar a intimidade de quem passava.
era a vida que se sussurrava em flores e sorrisos e, se fazia esvoaçar nos vestidos coloridos das mulheres, em passos de dança.
Era o imaginário que descia de um lugar ausente, envolto em brisa, para lhe povoar o sorriso de rodopios.
Nessa manhã, era sobretudo o amanhecer e a promessa segura de um ocaso, quase a roçar o absoluto, que lhe envolvia os pensamentos.
estancou, quieto, no meio da praça.
Seria um dia imenso e inteiro, disso tinha a absoluta certeza.
O ar volteava mansamente, à volta de um carrossel de gente e acontecimentos que se sucediam. E, sucedia-se tudo, numa aparente desordem, nessa atmosfera primaveril que lhe amornava os braços e a alma e lhe brindava o coração com uma mistura cálida de açúcar, o perfeito néctar, vindo não se sabe muito bem de onde, ou talvez dos lugares dos afectos que ficam sempre na distância correcta entre as gentes e os corações.

 escultura em madeira  de Bruno Torfs

segunda-feira, 5 de junho de 2017

A minha terra que se entornou no mar



De vez em quando a minha casa era a terra.
De quendo em vez a minha terra era a lua.
Umas vezes a  minha casa foi minha,
Das outras, só uma linha,
De chegada, por ser tão minha,
De partida, por ser a tua.
O chão que habitámos já não existe,
Só um cenário oblíquo de ar.
janelas cerradas á paisagem,
Da minha terra,
Que se entornou no mar.


Filipa Vera Jardim in "Escrever Alcobaça", 2016
Fotografia da net.

sábado, 27 de maio de 2017

VI Encontro de Escritores Lusófonos na Bienal de Culturas Lusófonas


Decorreu o VI Encontro de Escritores Lusófonos da Bienal de Culturas Lusófonas de Odivelas onde tive a honra de estar presente.
Um espaço de partilha de escrita, de afectos, de sabores e de amizades.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Páscoa - Sabia que os tinha morto a todos, aos milhares




Sabia que os tinha morto a todos, aos milhares.
De desesperança, de tristeza, de angústia, em dias pares ou dias ímpares, indiferente…
Sabia que os tinha morto mas nem por isso lhes guardava qualquer imagem. Tão-somente uma amálgama de lágrimas que se desfaziam em poças pequenas e fundas  e que a perseguiam fosse para onde fosse... era tudo,  o que deles lhes restava.
Sempre que saía do carro, lá estava a água salgada, debruada de alcatrão ou lama, no caso de também ter chovido, a desbotar-lhe os sapatos de pele, a manchar-lhe a gabardine de griffe, a atrasar-lhe o passo…
O passo, era a única coisa que realmente a preocupava nessa questão de água de lágrimas e de poças de gente, que lhe torneavam o caminho… E o passo tinha que ser mantido rigoroso, absoluto e cadenciado, em direcção ao alto, fosse qual fosse o lugar ou,  a circunstância.
O passo firme e sem desnorte a que se habituara cedo, muito cedo, ainda por alturas do início dos sonhos.
Agora, já não se lembrava sequer que existiam sonhos. Só passos.  

Sabia que os tinha morto a todos, aos milhares.
Apesar disso e, quem sabe se por causa disso,  nesse domingo de Páscoa, tirou do bolso os ovos de Páscoa que tinha ido buscar e começou a pintá-los.
Pintou-os em traços largos, de azul e esperança. Coisas que nunca tinham feito parte do seu quotidiano, o azul e a esperança, mas dizia-se… salvavam.
Não tinha a absoluta certeza de alguma vez vir a precisar de ser salva, no entanto, pintou-os metodicamente em traços largos de azul e  de esperança.
Nesse domingo de Páscoa, em que sabia, que os tinha morto a todos, aos milhares.