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quinta-feira, 13 de abril de 2017

Páscoa - Sabia que os tinha morto a todos, aos milhares




Sabia que os tinha morto a todos, aos milhares.
De desesperança, de tristeza, de angústia, em dias pares ou dias ímpares, indiferente…
Sabia que os tinha morto mas nem por isso lhes guardava qualquer imagem. Tão-somente uma amálgama de lágrimas que se desfaziam em poças pequenas e fundas  e que a perseguiam fosse para onde fosse... era tudo,  o que deles lhes restava.
Sempre que saía do carro, lá estava a água salgada, debruada de alcatrão ou lama, no caso de também ter chovido, a desbotar-lhe os sapatos de pele, a manchar-lhe a gabardine de griffe, a atrasar-lhe o passo…
O passo, era a única coisa que realmente a preocupava nessa questão de água de lágrimas e de poças de gente, que lhe torneavam o caminho… E o passo tinha que ser mantido rigoroso, absoluto e cadenciado, em direcção ao alto, fosse qual fosse o lugar ou,  a circunstância.
O passo firme e sem desnorte a que se habituara cedo, muito cedo, ainda por alturas do início dos sonhos.
Agora, já não se lembrava sequer que existiam sonhos. Só passos.  

Sabia que os tinha morto a todos, aos milhares.
Apesar disso e, quem sabe se por causa disso,  nesse domingo de Páscoa, tirou do bolso os ovos de Páscoa que tinha ido buscar e começou a pintá-los.
Pintou-os em traços largos, de azul e esperança. Coisas que nunca tinham feito parte do seu quotidiano, o azul e a esperança, mas dizia-se… salvavam.
Não tinha a absoluta certeza de alguma vez vir a precisar de ser salva, no entanto, pintou-os metodicamente em traços largos de azul e  de esperança.
Nesse domingo de Páscoa, em que sabia, que os tinha morto a todos, aos milhares.