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segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Passos



Digo-te passos
Enquanto palavras rolam no chão.
Digo-te movimentos
Sopros do impossível.
Passo,
Tu passas
Nos nós silenciosos
(escuro dos olhos)
Há os teus medos inoportunos
A galgarem as manhãs.

Filipa Vera Jardim in "II Antologia de Poesia Contemporânea"  coordenada por Luís Filipe Soares, Lisboa, 1985

(fotografia retirada da internet)

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Absoltuto


Quantas vezes posicionarão eles o infinito, para que o meu luar, seja realmente eterno?
Sentou-se de pernas cruzadas e desenhou um x, no lugar onde o mundo, sendo uno, se vestia agora de lua nova e percebeu que ninguém poderia ser excluído. Absolutamente ninguém. Nem a sua própria identidade, fosse como fosse.
Para isso, bastaria apenas que cada um dos deuses, se e absolutamente se… pronunciasse.

(a fotografia foi tirada da internet)

terça-feira, 20 de outubro de 2015

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Limite


Viverei no único lugar que não tenha raízes, nem terra, nem braços de árvores sibilantes, nem colinas desvairadas à procura de um caminho.
Viverei no único lugar que não tenha caminho. Somente permanência,… Feita de ondas temperadas, em cadência firme, de vento de abraço e de sopro de mar.



(´Fotografia de André Boto)

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Se um dia me perder



Se um dia me perder,
Remetam-me em viagem,
A mim, que ainda não me sei.
Se um dia me perder,
Porque a seu tempo…...
Eu me acharei.

Filipa Vera Jardim.

(na fotografia, algumas das 5500 crianças austríacas, refugiadas de guerra, acolhidas em Portugal entre 1947 e 1952 ao abrigo do programa da Cáritas)

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Álvaro Lesma


Álvaro Lesma

O Sr. Álvaro Lesma
Morador num rés de chão,
Da rua da Consolação,
Ataviado em desgraça,
De sorriso miudinho,
Atreveu-se dizer a medo
Muito a medo e devagarinho,
Ao vizinho,
Político de profissão:
Olhe que mais… também não!

Não? Mas é dia de eleição!
Rosna o político convicto,
Do alto do patamar:
Marche Lesma, que por hora
Só lhe prometo desventura.
Um dia, quem sabe,
Dou-lhe o troco,
Da minha bica lambida,
E do meu pastel de feijão.

Verga-se o Lesma, choroso
Com o lencinho dobrado,
Os números todos decorados,
O fiscal,
O de pobrezinho,
O da fila dos remédios,
O de senha de contenção
O do dia da eleição…
Olhe que mais…também não!

Não?
Ai Lesma que me desgraça…
Não seja por sua graça,
Como me remedeio eu?
Ande lá com o papelinho,
Prometo-lhe eu, um tachinho,
Uma panela que seja, 
O anel da sua Engrácia,
Quem sabe…
Uma devolução!

E o Lesma todo curvado,
O sorriso miudinho,
Em artes de gingão,
Diz-lhe de lá muito ufano:
Votar eu voto...
Mas só com uma condição:
Trocamos já de morada
Desce o vizinho, subo eu,
Até à próxima eleição!

Filipa Vera Jardim

(Ilustração de Raphael Bordalo Pinheiro)



sábado, 19 de setembro de 2015

Uma metade de infinito




Encostou-se devagarinho ao muro de pedra.
Do lado de lá uma metade de infinito, escorregava devagarinho pelo horizonte.
Do lado de cá, nunca o quisera admitir, mas uma mesmíssima metade de infinito escorregava devagarinho, pelo horizonte.
Encostou-se ao muro, a contar as brisas, que inevitavelmente o transformariam em pó.
Ficaria por pelo menos cinco mil anos…O tempo de se esquecer dos infinitos e dos horizontes.
O tempo de nunca mais se recordar que ali, tinha havido um muro.
O tempo de erguer um outro muro e, ter a certeza absoluta,  que do lado de lá, haveria pelo menos uma metade de infinito a escorregar pelo horizonte…

(na fotografia a escultura KRIPTOS de Jim Sanborn)

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Terra entornada




Que De vez em quando a minha casa era a terra,
De quando em vez a minha terra era a lua.
Umas vezes a minha casa foi minha,
Das outras, era só uma linha,
De chegada por ser tão minha,
De partida, por ser a tua.
O chão que habitámos já não existe,
Só um cenário oblíquo de ar.
Janelas cerradas à paisagem,
Da minha terra,
Que se entornou no mar.


Na imagem, passaporte da United Nations Relief and Rehabilitation Administration UNRRA, de 1909)

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Loucos

(imagem do filme "Voando sobre um ninho de cucos" )


Loucos vimos ao mundo,
E loucos nos deixamos estar.
Mundo que roda sem nexo
E nada o pode parar.
Num eixo vê-se a inconstância,
A avareza e a luxúria,
Penduradas pela anca,
Ao manso corcel de um lampejo,
De quem não tem a certeza,
Nem nunca sabe de cor,
De quem não se passa por si,
Nem pesponta nada, de amor.
De quem numa bandeja se lava,
Em restos de razão maior,
E se vende à beira da estrada,
A quem lhe paga melhor.

Loucos vimos ao mundo,
E loucos, nos deixamos estar.
Sentados sem beira de nada,
Nem eira que nos faça vibrar.
Agarrados às bordas da vida,
Entornados num alguidar,
O que nos cabe afinal…
Dos donos do que resta aqui,
E que por serem reis deste mundo
E de tudo o que mais se avistar,
Só têm uma certeza:
Que nos mandam naufragar!

Loucos vimos ao mundo,
Tão loucos que de sermos tantos,
Fingimos ser sempre ser tão poucos,
Os mesmos…
Sempre os mesmos,
Loucos!

Filipa Vera Jardim


segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Por onde me naufragar




Esperei que o rio me lavasse os sonhos.
O rio lavou-me todos os sonhos.
Lavou-me até o tempo, que eu esperei, para que o rio me lavasse os sonhos.
Lavou-me de cima abaixo o tempo, os sonhos, e o resto o rio deixou muito bem ensaboado.
Não fosse o rio, numa gargalhada a escorrer quase até ao final, tal a lonjura do mar… E eu não saberia sequer, por onde me naufragar.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Zalala 2015



A honra de participar em mais uma publicação do Círculo de escritores Moçambicanos na Diáspora - Zalala 2015.




(Zalala fica na  região da Zambézia, em Moçambique. Conhecida pela sua praia de grande beleza)

sábado, 18 de julho de 2015

Senti-me gota



Nasci em rio e riso. A correr de margem em margem.
Sorviam-se os olhos aquosos,  à passagem célere.
Sabia-me tanto a fresco.
Debrucei-me...e vi-me enroscada no caudal. Aconchegante.
A viagem, espiralou-se, até  onde me parecia que  infinito podia esconder-se todo, num único copo transparente.
Sem querer, escorreguei pela canto de uma boca...e senti-me gota.

sábado, 11 de julho de 2015

Maratona Poética - S. Tomé e Príncipe


Com todo o gosto aceitei o desafio - Maratona poética dedicada a São Tomé e Príncipe, amanhã na Casa Internacional de São Tomé e Príncipe.

São Martinho do Porto. Momentos...



«São Martinho do Porto - Momentos...», de Filipa Vera Jardim e Pedro Soares de Mello
«De vez em quando, o apelo do mar era mais forte. Do mar a sério, de cabelo...s ondulados e voz cheia. Não desta mansidão, embalada em concha. Subíamos as dunas ou corríamos até ao fundo do túnel… e era ali que o horizonte se entrecortava por uma ou outra embarcação, dessas que saíam num bordo mais largo, para logo voltarem ao ventre. Ou das outras, que mais longe rumavam a porto incerto. De cada um dos lados, um altar de pedras. À direita, António, padroeiro, exangue. Peito aberto a todas as marés, sem excepção, que lhe roubavam o já ínfimo espaço. À esquerda, Romeu, o viajante, a atravessar-nos os dias de marés que ora rolavam por cima dos seixos, ora se nos enrolavam nas pernas com limos grossos. Do tamanho de árvores, dizia-se, presas num fundo de jardim sem nome. Do padroeiro, António, com altar definido, sabia-se quase tudo. Primeiro, mais acima, na capelinha caiada; depois, ali, onde outrora houvera um outro areal. Desse Romeu, de Julieta errante, pouco se saberia…»

quinta-feira, 18 de junho de 2015

São Martinho do Porto, momentos...



"Há lugares de onde nunca se regressa, apenas se permanece. Sempre que se volta, o tempo volta connosco (...) "

Uma homenagem de afectos a S. Martinho do Porto, terra do meu coração.
Em parceria com o fotógrafo Pedro Soares de Mello.
Já à venda (FNAC, Bertrand...)

Para quem conhece esta terra, de mar fechado em concha, será um reencontro. Mais um reencontro. S. Martinho do Porto é feita de muitos reencontros.
Para quem ainda não conhece... espero que uma feliz  descoberta.

domingo, 17 de maio de 2015

Mar desfolhado




Em cada onda desfolhei um ano, de todos os anos do meu passado.
Primeiro com força, de encontro às rochas. Anos de infância de que pouco recordo. Depois, mais mansamente, em páginas reviradas em lençol de areia.
De sete em sete ondas, lembrei-me de parar um pouco a existência, à espera de um sopro, que me viesse amarar, eternamente, a este lugar…
Pespontada a infinito, restará para sempre a transparência…do céu que se faz mar.

A fotografia é do Pedro Soares de Mello

sábado, 9 de maio de 2015

Recta absoluta


Devagarinho, acomodou-se ao nicho.
As pernas de encontro ao queixo, no único lugar que lhe permitiria permanecer, até que a luz, o invadisse de novo.
Toda a noite as badaladas ecoaram um sibilante: tzim tzum, tzim tzum, tzim tzum sem que uma única fresta lhe traçasse caminho.
Seria qualquer um, menos a o da escuridão. Tizm tzum, tzim tzum, tzimtzum…
Adormeceu algures, entre a terra, o seu coração e a eternidade, embalado pela branda presença do som, que lhe lembrava um outro amanhecer .
Quando acordou reparou que a única porta fechada, lhe estendia uma recta absoluta. Com os olhos semiabertos, decidiu-se então,  a andar…


A fotografia é do Luís Leal

sábado, 21 de março de 2015

Muana (criança)


-Posso fotografar Muana?
-Pode, mas vê se não acidenta no fundo dos meus olhos. O fundo dos meus olhos tem precipício de lonjura.
De um lado, a lonjura da terra, do outro, a lonjura do mar.
No meio dos meus olhos, cabem todas as histórias que  nunca me ouviram contar. Não conto histórias ainda, só as carrego, embaladas, no fundo do meu olhar.
-Olha aqui muana…
-E tu, ensinas-me  a olhar?

Filipa Vera Jardim

Sobre: POSTAL ILUSTRADO
            " MUANA" - (criança)
             Moçambique - (Mueda 1972)
             Fotografia de : Marques Valentim

domingo, 8 de março de 2015

Licungo


Uma revista do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora, com a coordenação do Delmar Maia Gonçalves, em que tive o gosto de participar.

Nota. Licungo, além de ser um nome de um chá é  também o nome um rio Moçambicano, um dos afluentes do maior rio de Moçambique: O Zambeze

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Sapatos de Mundo





Passou metade da sua vida a construir metade do seu mundo. Primeiro, com cubos largos e peças de lego encaixadas. Depois, com minuciosos kits coloridos,  de aviões de plástico que desembrulhava às pressas, não fosse o que  tinha  já de mundo, se poder abalar…

Passou a outra metade da vida, a construir a outra metade do seu mundo. Repleta de recortes de ideias, circunstâncias, atenuantes e invenções.
Globalmente, estaria  tudo redondamente  concluído…não fosse dar-se o caso, de se ter esquecido de aprender a atar os sapatos.

Filipa Vera Jardim

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Milandos


Revista Cultural Milandos da Diáspora, número especial, com lançamento para o próximo dia 14 de Fevereiro na Casa de S. Tomé em Lisboa.

Depois de mais um encontro de escritores, na Fundação José Saramago, à volta das palavras, das letras, dos problemas da escrita que atravessa continentes em língua portuguesa, surge agora a edição especial da revista,  pelo Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora.
Voltam os temas em debate e as palavras...sempre viajantes e nunca por demais,  viajadas.
É sempre um gosto, participar.