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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Rocha de Fogo




Houve um tempo, em que os abracei a todos: os quatro elementos.
O tempo da pedra intacta. Corpo esculpido em rocha e, âmago, vestido de fogo.
E a tormenta do vento, a trazer-me memórias agasalhadas de tanta água. Sempre e cada vez mais água, para encher de pleno todas as marés.
Impossível bradar agora.
O fogo, desfez-se na espuma, entre os dedos dos meus pés .E o vento, esse, foi-se! A soltar gargalhadas.
Levou com ele quantas falanges pôde. De mim, que da pedra, me tornarei, ao pó.

Fotografia do Pedro Soares de Mello

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Pela alma abaixo




Nunca olhava para o pulso a  ver as horas. No pulso trazia apenas as linhas demarcadas de lugares alinhavados e, a espaços consentidos.
O tempo, esse recanto de infindável, escorregava-lhe inevitavelmente pela alma abaixo.
Impossível de conter um tal rio de vicissitudes, de alegrias, de escapatórios momentos, vividos às pressas.
Encavalitadas quase por cima de si mesmo, ficavam as voltas e reviravoltas que ainda haveriam de ser. Espreitavam amiúde, por cima do ombro, na esperança de ver no balanço, o momento preciso. Como se existisse um momento preciso…

Segurou-o na dobra do cotovelo, o tempo, assim escorregado. E alma, que  o trazia colado e parecia pairar.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Olhares II


…lembro-me sobretudo dos seus passos. Lentos, fluidos, inaudiveis.
Sem chão.
Passos húmidos, que deslizavam de encontro ao fundo das lagoas.
Não fosse a transparência e o rasto ondulante dos cabelos e, ninguém saberia mais de si.
Viveria sempre assim: eternamente submerso…de uma cidade naufragada.



Fotografia: Pedro Soares de Mello

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Olhares


Poderá a água, planar eternamente, por baixo de cada um dos nossos instantes. Desde que, a tempo, me deixes percorrer sem pressas, uma a uma, todas as traves mestras que te sustêm os passos.


(fotografia de Pedro Soares de Mello )

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Todos os sessenta e cinco Verões da sua infância



Somando, todos os sessenta e cinco Verões da sua infância, seriam aproximadamente as mesmas madrugadas, os mesmos raios de sol, as mesmas partidas e as respectivas chegadas, de que sempre se lembrara. Ou catalogando.
Os exactos sessenta e cinco verões da sua infância, dariam lugar aos mesmos plátanos que se desfaziam subitamente  no ar. Aos mesmos Natais, que se refaziam, dentro da sala aquecida, pelas mesmas brasas. Ou por outras, tão semelhantes, eu  sei lá...
Somando todos os sessenta e cinco Verões da sua infância, a tempo, de nunca, mas nunca,  a deixar perecer...

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

La mano








A terra era terra e a terra era pó.
Era de avidez de água,
De sombra e  limite.
A terra era terra.
Sempre,
Seguramente...
Só!



terça-feira, 10 de setembro de 2013

Curvas, de encontro às janelas




Sabia que existiam. Tinham-lhe contado.
Partes arredondadas do mundo que entrevia, por detrás dos pesados reposteiros, com borlas do feitio da lua, de cada lado, desbotadas.
Sabia que existiam, mas nunca as tinha visto.
Não porque não as procurasse insistentemente.
Curvas. Contracurvas.
Bocados côncavos e convexos de mundo que chocavam com as portadas, bem cerradas, das suas janelas.
Agrupavam-se lá fora, sabia, numa imensidão. Como se o mundo se pudesse fazer, para lá de todas as rectas. Não obstante,  as paralelas…

sábado, 31 de agosto de 2013

Emelin Requiem


Se descesse a noite, a noite seria um  único sopro. A rasar o  inequívoco.
Se raiasse o dia, o dia seria brisa mansa.
Ainda que chovesse, ainda que o vento se levantasse primeiro, na inversa proporção do teu sussurro - inaudível.
Nada mais haveria por contar, no mar vago das minhas imersas recordações.
O teu tempo Emelin, jazeria.  Pousado, no lugar de tudo o que se reconta. Sem futuro Emelin, sem futuro...

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Que outra coisa, são as palavras?


Tinha-as contado de véspera: doze adjectivos, algumas preposições, um pacote inteiro de papel manteiga,  com os  cantos primorosamente  dobrados, de encontro aos verbos. Calculava que deveria ter os bastantes.
Faltava virem entregar-lhe as prometidas interjeições, mais logo, pela hora do almoço...


Que outra coisa, são as palavras, senão meras vírgulas, acotoveladas à existência?

sábado, 20 de julho de 2013

Vestido em tempo de vento




Antes de ontem fora o tempo. O tempo rodado no limite absurdo da bainha da sua saia.
Abotoado por fora da existência, entre casas e colcheias que lhe chegavam aos calcanhares.
E no dia anterior, fora o espaço. O espaço cingido de encontro ao peito.Com intervalos debruados.
Amanhã, seria certamente o resto do infinito, porque de hoje…de hoje só se lembrava do vento.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Grand rond de coeur en l'air



Antes de tudo, era necessário apertar bem as emoções. Enroscá-las na fita larga. A alma em pontas. A vida arrondi. E,  o arbrisé.
A
vant en, le coeur... en air !


terça-feira, 9 de julho de 2013

A Magia das Chaves - Sete Chaves, no lugar do teu coração


Era difícil entrar em casa, com a memória assim, escancarada de fresco.
Rodar sete vezes as chaves que trazia ao peito, desde que nascera, parecera-lhe sempre, uma tarefa improvável.
Sete vezes dissera-lhe a mãe, antes de morrer. Sete vezes…cada uma das sete chaves, para o lado de onde te soar o teu coração.
E as escadas a galgarem-lhe o pensamento.
E, as portas que rangiam de encontro aos sopros que vinham do quintal.
O coração a sobrepor-se, numa linha imaginária, que se estendia, pela sombra dos ombros, até ao patamar maior da sua existência…

Um desafio...e mais um conto.Espero que gostem!

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Muito antes, da eternidade


Ao tempo, sucedia-se então, o tempo. Não na mesma cadência consentida, do milésimo à eternidade, que houvera, quase sempre. Mas sim, nesta nova e absurda amálgama de segundos a absorverem-lhe as horas.Segundos, a sorverem-lhe os quartos para as horas, que são em si mesmos, os lugares apropriados, para se acontecer.
Segundos, que só não se tornavam  em sempre, porque a eles se sobrepunha, agora,  essa amálgama  desconhecida dos minutos des-compassados, em milésimos sem rumo.

A paz, do relógio da sala,  ficara  por isso, antes de um  meio, de um princípio, de um fim.
E a tarde que se fazia manhã, em resto de anoitecer... sem lhe permitir ousar sequer, a memória.
Com medo de a perder, ajustou-a ao pulso e deixou-se ficar.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Contos Capitais


Estará nas livrarias, a partir de 4 de Abril.
Espero que gostem
A minha escolha, foi Londres.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

No patamar da sua existência


Era difícil entrar em casa, com a memória assim, escancarada de fresco.
Rodar sete vezes a chave que trazia ao peito, desde que nascera, parecera-lhe sempre, uma tarefa improvável.
Sete vezes dissera-lhe sempre a mãe, antes de morrer. Sete vezes…para o lado de onde te soar o teu coração.
E as escadas a galgarem-lhe o pensamento.
E, as portas que rangiam de encontro aos sopros que vinham do quintal.
O coração a sobrepor-se, numa linha imaginária,  que se estendia pela sombra dos ombros, até ao patamar maior da sua existência…


Ponte



Há um trapézio, na lua sim. Estendido, entre os dois lados da noite.
Numa ponta o teu crepúsculo, na outra, a minha alvorada.