sábado, 6 de julho de 2019

Unicornio Azul






Quantos unicórnios azuis com asas
Que dão as mãos ao infinito
E aconchegam em  abraço a dor de alguém?

Quantos unicórnios azuis
que lavam  as penas e sacodem  o vento
E inventam o riso 

Socalco de um  meio de dia que não acaba…
Nunca  mais acaba esse meio de dia.

Quantos unicórnios azuis encostados devagar à tua cara de anjo?

E o meu segredo
de te saber assim,
outra vez,
tão perto de Deus

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Vazio



Vazio

Encostei devagar a minha urgência ao vazio.  Acomodando o rosto, o resto e essa  parte de mim de que mal me lembrava.
O vazio, apesar de tudo, tinha esquinas inundadas de grandes e pequenos espaços.  De grandes e pequenos ângulos feitos de intensas oscilações acústicas que nasceram num momento qualquer, num dado instante ou, quem sabe, de um não lugar situado muito para lá da minha imaginação.
À roda do vazio, naturalmente, não havia mais do que apenas eu.
Eu e os meus  pequenos ombros, a minha cabeça finita, o corpo que se aquietava quase sem sentido.
O desamparo  era visível e a existência  quase nula.
Deixei-me ficar pelo  tempo todo que se passou. Um conjunto de horas imprecisas, de minutos apressados. Senti, por isso mesmo,  o desamparo de que é feito o vazio. O silêncio que o completa , a imensa desventura  e o tédio que o acompanham.
Não sei sequer se  foi por  um único acaso que eu  me encostei assim…
Do vazio  não retive nenhum produto, nenhuma lembrança,  absolutamente nada.


sábado, 1 de junho de 2019

Horizonte


Pedem-me que alcance o horizonte. Por cima de todos os cinco mares.
Como se o horizonte não estivesse no fundo, rotativo, do infinito.
Como se os cinco mare não se dessem as mãos, em toda a sua lonjura. E,  a água, não soubesse voar...


Quadro: Horizonte Onírico de Guillermo Serrano de Entrambasaguas

sábado, 25 de maio de 2019

Ontem foi só um pormenor





Ontem, foi só um pormenor.
O tempo tinha escorrido depressa na véspera. Muitas horas acotoveladas ao silêncio e uma madrugada rara de aroma a nunca mais.
Se te tivesse dito  tudo que voltaria a ser como antes não terias acreditado. Por isso, segurei-te só devagar os ombros e balancei-os para a frente e para trás durante um exacto minuto.
Quase me seguras-te a mão.
Quase me sussurras-te
Quase me prendeste o cabelo entre os teus dedos… E vento levou de repente o único lugar de espanto: um brevíssimo segundo de que nos esquecêramos, sabe-se lá porquê…

Quadro  de Kathleen Patrick 

quarta-feira, 1 de maio de 2019

A porta do teu lugar




A porta do teu lugar abriu-se com estrondo. Lá dentro, um rasgo e um grito. Um mar de sombras pasmado e um segredo.
Entrei de rompante, segurei   as  abas prenhes do  teu pensamento  e, por causa de quase nada, deixei-me então ficar.
O balanço e a quietude do lugar, desse   teu lugar, aqueceu-me  o meu silêncio  e destemperou-me o passo. A ponto de nunca mais ter franqueado a porta. Pareceu-me inútil o pormenor de saída. 


Quadro- "Masters Musical Beginnings" de FREDO - Fernando de Jesus Oliveira

sábado, 27 de abril de 2019

O olhar




Espanta-me que não consigas ver sequer o meu olhar…
Um olhar desmesuradamente manso e sem infinito. Como se o lugar se espremesse todo para dentro e arrasta-se com ele as ideias, as lembranças, as possibilidades e o rasto do horizonte.
Lá longe, muito para lá da iris que  certamente também não vislumbras,  acomodado está todo o meu silêncio.
Não vês o olhar, não vês a iris, nem sequer a mácula que transporto  imutável desde o dia em que nasci. 
Sei que por isso, nunca mais me amanhecerei e isso basta-me.
Sei  ainda que tu nunca irás entardecer e isso conforta-me.

sábado, 13 de abril de 2019

Quiosque amarelo



Desceu a par e passo até ao largo, inundado de luz e pespontado a quiosque amarelo.
Comprou o jornal dessa manha e embrulhou meticulosamente com ele, o olhar. Depois, dirigiu-se às margens que lhe sulcavam devagarinho o espanto. E só aí, se desaguou em foz.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Templo de Palavras



Encostei-me outra noite ao teu umbral a ver como separavas devagarinho as sílabas e as embalavas no colo. Depois, quando as sentias completamente reconfortadas, arrumava-las em caixinhas coloridas. Uma caixa para as sílabas tónicas, outra caixa para os monossílabos.  Duas caixas, de maior dimensão, para os polissílabos. Uma passa as mais leves e outra para as mais pesadas.
as tuas sílabas eram, na sua maioria, sílabas muito breves. Com um corpo pequeno e uma existência curta. Não queriam dizer, por si mesmas, quase nada. Limitavam-se por isso a existir, assim desalinhadas, tombadas, de braços abertos no teu colo enquanto tu, meticulosamente as separavas. (...)
Flor foi a sílaba que escolheste para me oferecer na primeira noite que passei encostado ao teu umbral (...)
Amanhã, quando madrugar, abrirás a porta.
Eu serei muito mais eu
E tu, tu serás uma vez mais o templo de palavras.

 Epilogo In "Templo de palavras"  Editorial Minerva Março de 2019

sexta-feira, 29 de março de 2019

Exposição de Pintura de Pedro Charters D´Azevedo


Aceitei o desafio de apresentar a exposição do Pedro Charters D`Azevedo. Os quadros são magníficos.
Estão todos convidados.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Amanhã, será para sempre




Espera. Não me entres de supetão. Não me entres…
A porta, tu sabes, está sempre semicerrada, não vá teres que vir, devagarinho, a fazeres de conta que não é nada… Só um instante, uma hora, um espaço pequenino por entre os ponteiros do teu relógio…
O tempo, tu és o tempo eu sei. És todo o tempo, por inteiro. Trazes contigo uma máquina infernal que me tritura os passos, me absorve a lonjura, me desagrega.
Quero urgência por vezes, eu sei disso, mas apenas de porta fechada.
Não te deixo passar. Não forces… Não implores. Eu não te deixo passar
Aqui não tens lugar.
Livra-te de me atravessares a existência nem em passinhos miudinhos.
Detrás do sofá da sala há um relógio de cuco sem asas, sem voz, sem mecanismo.
Tudo para que não te chegues a mim.
Quero acreditar que amanhã, amanhã, será para sempre…