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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Requiem em plátanos



Nada faria prever que o Outono fosse tão breve...já o fim anunciado:
- Não tenha medo...a morte, segurar-lhe-à, certamente, a esperança. Morre-se sempre, com alguma esperança.

Uma mão fria de coisa nenhuma a segurar-lhe a  tal esperança, quase oca.
Um vazio e depois a luz. Ou depois o vazio. Ou entretanto o silêncio e a luz...E, antes disso o medo. Frio e pálido, a bambolear-lhe a alma. Um medo medonho de coisa alguma. Pelo menos de coisa que se parecesse a nada. Era isso que o assustava....para além da morte.

Com sorte, tudo aquilo em acreditava, bem como o armários desarrumado da memória,  seguiriam incólumes... na travessia. Chocalhados, mas incólumes.

Seria assim, na brevidade dos três meses, que lhe poriam, quando muito, uns pequenos sonhos a chilrear. Ou com sorte, mais uns três, a encostar-lhe as lágrimas ao debruado de azul, dos longos dias de verão.
Não mais do que isso, não. Sabia que não.
Nem mais uma paragem. Nenhuma outra estação.

Atravessou o parque. As mãos ao longo do corpo sem destino. No chão, as folhas já caídas, dos plátanos do seu último Outono..
Agarrou-os à mãos cheias e levou-as para casa.
Durante dias e dias, por todo o Outono, voltou ao parque. Sempre e, só, para as levar.

Milhares de folhas jaziam agora no chão...numa espera silenciosa.
As cores desbotavam dos vermelhos aos ocres, todos os dias.
Até onde, o coração se lembrasse...

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Valsa de Natal em chão de estrelas e caravelas




Não foi fácil. Todo o mês de Dezembro a intercalar caravelas e estrelas, numa geometria perfeita. E o vento frio, a roubar-lhe o rumo à imaginação.
Os dias só de estrelas  eram simples. Bastava-lhe olhar o céu e, acomodar-lhes os sorrisos trémulos, na calçada.
Mas se era preciso mais uma caravela... o basalto duro, teimava sempre em  navegar para lá dos limites impostos pela branda condescendência do calcário... por mais que se esforçasse.
E o velame, a desfraldar-se, por entre os passos, de quem seguia.

Começou no cimo da Avenida. Era mais fácil descer as costas doridas, a contar os passos, a espaços.
Sabia que teria de estar tudo pronto no final dessa tarde. Uma tarde que lhe pareceu igual às outras, semeada de saltos de todos os tamanhos.
Terminou como sempre, com a sua assinatura de calceteiro. E, preparou-se para partir.
Não  teve  sequer tempo de dobrar a esquina...os poucos que passavam àquela hora, saltitavam já, entre as estrelas que entoavam os primeiros acordes de Strauss, ao simples contacto dos pés. E, as caravelas, embaladas em movimentos contínuos de Brahms.
Abriram-se as janelas e as portadas.
Nunca antes a Calçada Portuguesa se entornara assim, de música...
E foi vê-los dançar pela madrugada, numa valsa de calda de açúcar, de um pequeno sonho...de Natal








sábado, 17 de dezembro de 2011

Enrola-te no meu abraço



Quase sempre era assim. Adormecia sereno, para acordar depois, entre o breu e a madrugada  no meio de um turbilhão de vozes, que lhe escorriam da almofada para os ouvidos e, lhe alcançavam, sem dó, o meio do coração.
Frases e frases. Ditos que se entrelaçavam debaixo do corpo e lhe roubavam  alguns sorrisos, que se escondiam depois, aos pares, nas dobras do lençol.
Sabia que eram sonhos. Apenas e só sonhos.
Afundava mais  a cabeça na almofada. Repensava as rotinas e tentava adormecer de novo.
Até que um dia, acordou e tinha vírgulas espalhadas. Uma montanha de vírgulas, que tentou sem êxito sacudir.
Puxou o edredon para baixo e ali estava, juntamente com muitas mais vírgulas,  como mancha em papel mata borrão: "enrola-te no meu abraço".
Não havia mais remédio que por a roupa para lavar. As vírgulas às voltas na tombola transparente. A frase sumida em bolhas de detergente, com todos os aditivos.
Cama lavada. O fresco da cama lavada...um sono de sonhos e de todos os ditos.
E, no outro dia, não só no lençol, como no corpo, tatuado, com a caneta de tinta permanente que insistentemente lhe escrevia a vida: "enrola-te, no meu abraço"...
Deixou que a água lhe escorre-se pelo ventre nu e levasse com ela a tinta.
Saiu de casa, apressado,  a apanhar o último autocarro...mas a esquina já tinha engolido as horas. Ficara um única frase, na paragem, vazia...reconheceu-a de imediato pela postura: sentada muito direita e rodeada de vírgulas..."enrola-te no meu abraço!"
Pegou nela e sem mais remédio, levou-a consigo...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Se as Palavras vierem...


Escreverei se as palavras vier...em
Não vêm sempre.
fazem-se normalmente esperar...para depois, chegarem em catadupa
Como se fosse o vento que sopra e nos faz respirar, a  tempo, de uma outra, golfada de vento...


(a fotografia é do google images)









quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Revisitado


Não devia nada a absolutamente ninguém. Nem um aceno. Muito menos um cumprimento. Sequer uma conta por pagar.
 Há muito que o carteiro deixara de insistir. A caixa, único invólucro de ligação ao exterior, desmesurava de tanto apelo. Eram mensagens de apresentação, de re-conhecimento, de fatalidades. Um absurdo.
Subindo-se a escada, já sem nenhum degrau e, muito menos necessidade disso, percebia-se um ténue martelar de teclas, algures num qualquer andar.
Agradecia-se a si mesmo pela complacência dos minutos, das horas, dos dias, que lhe possibilitavam continuar a fazer de conta.
Há quase dois anos que deixara  de viver e passara, por isso, a fazer sempre de conta.
Sobrevivia de sorrisos festivos, de abraços, num multifúndio imenso de felicidade. Rei daqui e de todos os mares. A navegar incessantemente. Sem precisar de um único porto.
Até hoje.
Hoje sucumbira enfim, ao seu próprio êxtase.
Levantou-se. Um estranho erguer...mas em definitivo. Desconectou  o cordão umbilical - um cabo de USB de fabrico intrínseco - só com a força do corpo, agora levantado.
Tinha atingido, por fim, o número mágico: amanhã choraria, então. Eram cinco mil amigos, efectivamente...

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Plantações do meio do sono



É muitas vezes assim. No meio do sono. Alguém, ou alguma coisa, resolve plantar-nos ideias.
São palavras,  na sua maioria desconchavadas, que se propõem sobrevoar as nossas camas.
Se está frio, divertem-se a puxar os lençóis. Acordam as interjeições. Fazem deslizar de dentro da fronha da almofada, lembranças.
Corremos a fechar portas de armários, a cerrar gavetas. A única forma de  sacudir a poeira das ideias e, sobretudo, as malditas das palavras, estremunhadas,  que as acompanham numa música perdida na noite, com risos de acordeon. Quando era suposto estarem a dormir.
Não, não as vou regar. Quando muito deixá-las por aí, feitas sementes. A pensarem se um dia se poderão transformar em flores, de imaginação. Caules de criatividade numa esteira de sol. Nunca de breu
E é tudo, de  dentro do sono.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Ilhas de Bruma


Sosseguem os olhos. Todos os olhos, lavados, de alma e brandura, nesta imensidão de azul.
Lá, onde o céu se desfez em horizontes, capazes de nos alongar todos os silêncios. E, por toda uma vida.
Podemos ficar. Podemos partir. Podemos acordar em qualquer canto deste mundo...que o espanto que trazemos dentro, será  sempre em voo. Sem outro destino que não o do lonjura.
O Pássaro? O Açor. A planar suavemente por dentro do peito.
Nove voltas redondas, por dentro das brumas.
Nove ilhas semeadas de lembranças. De mãos dadas, para além deste, ou de qualquer outro tempo.
E o mar...uma imensa toalha de luz, rematada a laçadas de espuma.



(a fotografia foi tirada da net)

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Foi..sem mais nem menos

Foi breve. Muito breve o  voo desses 16 pássaros.
O tempo quase absurdo de um ténue suspiro, que não sabe muito bem, ainda, onde pousar, na demanda de tanto e sempre mais azul...
E o teu sorriso a lembrar o desmedido do horizonte por cumprir. Volteado de todos os 16 pássaros, em cada uma das suas dezasseis cores.
Por cima da ausência, do assombro, da quietude desnecessária, agora.
Tão desnecessária, agora.
E nós lá, à espera... num abraço, que se quer em concha, cingido à  tua planura.
Até sempre Henrique.






segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Tombo de luz



Tombará a luz. A tempo de uma despedida silenciosa da memória, recortada do horizonte
Depois, não sei qual será o segredo
Se desfeito
vazio
frio



sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Estavam todos mortos. Porém...a luz

Não se via vivalma no cais.
O contraste de nada, com o barulho ensurdecedor dos passos idos, e jamais retornados era terrível.
Passaram gaivotas aflitas. Certamente espantadas da ausência de gentes.
Passaram barcos carregados de recordações. Ninguém ao leme.
passaram os medos, a caminho de um lugar longínquo, sobre carris de nevoeiro.
Não passaram as memórias desses passos. Só essas, não passaram...
Estavam então todos mortos. Seguramente. Como se nem sequer houvesse presente. Muito menos futuro. Só os restos das coisas que se tinham feito, espalhadas por aí.
Ao fundo do silêncio, um abraço e um beijo.
Por debaixo da ponte, a viagem. Todas as viagens, em sombras meias trôpegas.
Ninguém em nenhum dos ângulos do horizonte.
Porém...a luz. Num espaço qualquer. Se calhar no simples intervalo da dobradiça das portas fechadas. Por entre as casas desaparecidas. Muito antes, de toda a  morte.

domingo, 27 de novembro de 2011

Sombras em Movimento




Tinha exactamente três anos quando  me apercebi que as sombras voavam. Galgavam as escadas da casa da minha avó, através da luz da clarabóia, sempre um passo à minha frente.
Comecei por as tentar agarrar, enormes, nas esquinas. Dobrada numa imensa  e constante correria.
E foi assim, que Lisboa ficou pequena e  me  fugiu dos pés...
Da estrela à Madragoa. Do Rato às Avenidas Novas. Do Rossio ao Castelo...as imagens passavam céleres. Iguaizinhas aos slides do verão.
-Vou ali num instante a casa dos avós e já venho...
 Lançava-me da estrela à Visconde de Valmor, num contra relógio, que precisava sempre de ser confirmado ao regresso...
- Vou outra vez pode ser?
E partia, mais depressa que a resposta.

Mais devagar. Mais devagar - esta miúda não sabe andar- os apelos inúteis da minha mãe, que já só tinham por eco o fundo da calçada vazia, deram lugar às voltas, aos saltos, ao deslizar das mãos nas paralelas. Esfoladas, apesar das estafas.

Foram anos infindáveis onde o sofrimento físico se misturava com a vontade férrea de voar. Muito para lá de todas as sombras...
E elas, cada vez mais exigentes, sempre coladas ao mais infímo dos movimentos.
Sombras que só cediam perante o sono, de um dia cheio, enroscado na frieza de mais uma cefaleia de tensão. De outra tendinite de esforço.
E os sais que não tinham tempo de ser repostos...e o peso que não subia...
O veredicto foi claro:
- Neste nível de competição o organismo ressente-se. Os custos são elevados...há que fazer escolhas.
A sombra a agigantar-se. A engolir-me logo ali, todas as lágrimas que eu ainda tinha . E a correr veloz à minha frente...
Até hoje.
Hoje, Lisboa, voltou a ser pequena outra vez.



(este texto é dedicado aquelas que foram durante anos e anos as minhas segundas casas: ACM; Lisboa Ginásio; Ginásio Clube Português e Sporting Clube de Portugal)







sexta-feira, 25 de novembro de 2011

À popa do Horizonte

Balancei o rescaldo dos últimos tempos, à pôpa do horizonte.
Uma casa lavada. Uma vida sem enigmas. Uma cidade perdida. E o olhar...transversal ao movimento das ondas que nem sempre me deixaram navegar
Fiz as malas e nunca mais voltei.





A não ser numa única vez, quando a sétima onda, parou. Rasante à minha saudade e desatou a chorar.
Nesse dia empacotei  todos os sorrisos. Voltei-me de costas para ao mar e deixei-me ir.
Adormeci quase na ponta da falésia. Acordei já a vida ia alta.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Operação de Sonho






Sentou-se na beira da maca. Com a leveza de quem não quer que lhe atravessem as barreiras do silêncio.
Sabia que tinha que ser assim. Há muito tempo que sabia que tinha que ser assim.
Um angústia surda invadia-lhe o peito...não se queria esquecer desse beijo. Nem do cheiro a terra molhada. Nem de acordar a tempo de ainda revolver os lençóis, antes de um duche apressado.
O tempero do fim de semana, no destempero dela.
Adiara o que fora possível. Até ouvir borboletas a todas as horas e quase não poder conter as emoções.
Sem espaço de manobra quedara-se agora ali, no absurdo da  beira da maca. Vestido da única esperança possível numa situação dessas.
Que não fosse o sonho de amar. Nem o de ser gostado. Nem o de ouvir Malher, nem o de lhe dar um beijo  e outro e outro, debaixo da chuva.
Via já a mesa de instrumentos.
Dissecadores de sonhos, de todas as medidas, com todos os feitios.
Perguntavam-lhe o nome
- Chamo-me o que quiserem. Mas  só não me tirem o sonho de... SER

Acordou dois dias depois... ESTAVA.



quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Destino de pássaro

Há pássaros que levantam voos sempre que perdemos a esperança. Ou será que o fazem, porque não sabemos onde deixamos o destino?


Um dia percebi que não tinha sorte de homem. Nem tempo de homem. Só o espaço infinito dos azuis, que se sobrevoam sempre que somos livres.
Nesse dia, abri os braços e deixei-me voar.
Impregnei-me de azul e deixei-me voar.
Foi assim que ganhei asas.
O tempo escoava-se por entre a ventania.
O espaço, numa demência volteante, a raiar o círculo do horizonte.
Confesso que tive medo.
Esperava-me o ar. Completo. Tranlúcido. Ora morno, ora gélido. Ora suave, ora tempestuoso.
Deixei-me pairar nesse abraço de coisa alguma. Tão ou mais cerrado que um beijo de brisa...


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Colecção de espantos





Tinha passado pelos selos, pelas caricas, pelas latas, pelos cachecóis do glorioso...uma casa cheia de recordações,  a lembrar a adrenalina, as gritarias, a exultação, o gosto partilhado, com cada um daqueles objectos que jaziam por ali, acotovelados em silêncios.
Demasiados silêncios...
Um dia saiu à rua e lembrou-se de coleccionar espantos.
Não era difícil. Ouvia-os a cada esquina. Na boca dos vizinhos, na paragem do autocarro, no mercado, ao fundo da rua, onde as peixeiras descongelavam apressadamente a frescura.
Ai sim? Não me diga? Ora essa! quem diria....francamente! Ah... Oh!
Com os espantos, ainda por cima, vinham retalhos de vidas...não eram uma coisa muito completa, ao contrário. Só deliciosamente desvendada... então não me diga que...via-se logo. Ali andava coisa....pois, certezas, certezas não tenho, mas lá que poderia,  lá isso...

Pegou então no saquinho de Viana, com ditos de amor, carinhosamente bordados pela tia e foi-os guardando.
Os espantos, quedavam-se mudos assim que entravam no saco. Mas por muito, muito pouco tempo. Só até chegarem a casa.
Desfeito o laço, o ar enchia-se então de exclamações e ele...ele ria-se, perdidamente!

domingo, 13 de novembro de 2011

Marcación



Ela imóvel no balanço, à espera. Marca-me!
O peso transposto de um para o outro lado e a indefinição do movimento, num abrazo de quase vento...
-Anda marca-me!
E o passo a desenhar-se-lhe ainda aberto, desalinhado...a fazê-lo forçar, sobre ela, o peso. Imenso, nos tornozelos...
-Marca-me Carlos! Marca-me!
Como se não houvesse compasso. Como se o espaço se desfizesse. A perna no prolongamento do tronco. Correcto e alinhado, mas estanque. Sem fôlego. Uma única brisa que lhe fechasse o abrazo...
-Carlos!!! La mirada!
E o desalinho dos olhos num silêncio, entre o acordéon...suplicantes...
-Un ocho! Hombre!
Por um pequeno espaço aberto. Um infímo lugar de mais nada. Entre o tronco dele e, a curva do pescoço dela. A palma da mão voltada para baixo. O passo dela, a recuar, a recuar...timidamente suspenso... e depois, abruptamente a firmeza explicita: para cruzar!
Uma leve pressão na alça do vestido e a "intenção", finalmente completa, num suspiro de Piazzola.
-Cierra ya!
E ele cerrou!
A musica fugia já pela janela...o veredicto de outros compassos a buzinar-lhe as emoções...no te entendi la marca...no me marcaste...
E o sorriso dela, e o abraço fechado e a marcación correcta e os passos por fora, no sentido dos ponteiros da noite que rodava e, rodava e, rodava, pela Rambla. Palco agora, de todas as estrelas.






Nota: Apesar de o tango ser uma dança essencialmente de "mirada" e "oído". Há uma série de sinais a reter. O mais importante é a marcación ou marca. Começa-se no balanço, onde se fixa o olhar. Depois a mulher espera a marcación...poderá apoiar ligeiramente a mão no peito do homem, para  a tentar adivinhar...a marcación é o impulso inicial,  que permite depois a resposta. Sem ela, a mulher ficará estática, à espera. Na maioria das vezes a primeira marcación é feita em frente. (passo longo ou curto, a dar diferentes espaços) poderá no entanto surpreender por uma saída firme pelas laterais, ou por um "declinar" à direita ou à esquerda. A marcacion é complementada por sinais nas costas da mulher, e pela intensidade do enlaçamento. O pior que pode acontecer no tango  é finalizar com um "não me marcaste" ou "não entendi a tua marcação". Quer dizer que a mulher não conseguiu perceber as intenções de dança. A condução não foi clara...e sem ela não há tango.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Memória em viagem



As portas do comboio abriram-se. Não sei exactamente como nem porquê. Muito menos para onde.  Entrei. Limitei-me a entrar.
Segui o corredor. Sempre  a direito, sem vacilar. Nem os balanços, me fizeram vacilar.
Passei as portas todas.  De um para outro vagão, desertos de coisa alguma. Estanquei na última, já a debruçar-se pelo horizonte.
E sentei-me. De frente para o passado, que rodava num entusiasmo frenético, um balanço, um balanço…
Sem querer saber,  adormeci.
O sonho não o vivi . Ou não me lembro, não sei.
Quando acordei, encarei de frente o mesmo cenário. E foi então que percebi. A viagem estava ali  à  minha frente.
Feita de passos dados, de sorrisos sorridos, de gentes que nunca voltam.
Sentada ao meu lado, aconchegada entre o vidro dessa última janela, na derradeira carruagem, viajava de branco…
Perguntei-lhe o nome.
Disse-me chamar-se memória...

(a fotografia é do fotógrafo Mário Castello)

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Pássaros de Origami



Ficava à janela, com os quadrados de papel colorido espalhados na mesa baixa, desse  rés-de-vida.
Era assim, todas as manhãs.
Dezenas de quadrados de papel coloridos. Recortados.  À espera.  Repousados, ainda da noite, em  cima da mesa baixa, sempre colada à janela.
Um banco trôpego e aos mãos a quererem dançar...
O tempo não lhe apaziguara a timidez...sempre tão complicada essa parte, de perguntar a quem passava. Mas inevitável, para saber se o pássaro seria azul, laranja...irremediavelmente violeta, de uma cor qualquer ou absolutamente carmim.
-Bom dia: se hoje pudesse escolher, o que lhe aconteceria?
O espanto sobrepunha-se sempre à pergunta
-O que me aconteceria?
Podia então vir de lá, uma resposta vaga, um sorriso de hesitação, uma memória vazia, um dito ocasional. Até acontecia, ser só um suspiro impaciente ou uma lágrima...a raiva incontida, também.
- Olhe, não me aconteceria nada!
-Aconteceria não ter que estar doente, ora essa!
- Que estranha pergunta...

Para não acontecer nada ele já sabia de cor...seria branco. Sempre branco, ao sabor de todos os arco-íris. Uma doença, verde de esperança e uma lágrima, ai essas... a exigir sempre a maldita transparência. Difícil a transparência, que lhe fazia bailar os dedos no vazio. Dobras complicadas, muito complicadas. Os cantos do ar, perpendiculares às rectas do coração...de mestre!
No fim do dia, apesar de tudo, a tarefa estava sempre cumprida.
Alinhava-os então,  um a um, no parapeito. Fechava a janela e deixava-os lá. Voavam sempre, os sonhos, em  pássaros de Origami.


domingo, 6 de novembro de 2011

Manuela em vestido de roda




A televisão foi perdendo o som e a cor...agora é só um manto esverdeado onde projecto pedaços de vida, mais ou menos esquecidos de mim. A televisão é um bocado de espaço...cinquenta centímetros. E, vejo-te a ti Manuela...há tanto tempo que eu não te via...Tens um vestido branco e o cabelo apanhado.
 Não me lembro de outro dia em que o teu cabelo rebelde ficasse assim tão bem...danças uma dança de roda, suave e, muito longínqua. Uma dança que me deixa tonto, nesta cadeira de abraços.
Que bonita que tu eras Manuela!...E mesmo agora neste rectângulo entrecruzado de laivos verdes, de quem quase já não  vê, com olhos de ver...ainda me pareces tão bonita.
Lembro-me agora: estavas feliz. Muito feliz. Foi numa manhã de Setembro, num tempo já recontado da minha vida, mesmo à esquina do verão. Uma breve e pálida  manhã de Setembro, dessas que quase ninguém se lembra por não serem quentes nem ventosas nem dias feriados nem dias diferentes. Era Domingo e estavas tão bonita Manuela...
Entraste apressada na minha vida nessa mesma manhã ...eu sei Manuela o tempo não podia esperar mais. Nem tu, nem  o meu vazio...
Estavas tão feliz Manuela...não me esqueço mais do teu cabelo, dos teus passos apressados, da tua dança de vida, do teu sorriso. Da vontade que tinhas de começar por mim e, por ti, nessa manhã, já longe, da minha vida.
Casámos cedo. Uma missa breve de olhares e sorrisos. Disso lembro-me muito bem. O resto da festa, foi-se esfumando devagarinho, no compasso dos amigos esquecidos ou já partidos deste lugar...mas não interessa...lembro-me de te ver feliz Manuela! Talvez porque achasses que um dia me poderias mudar, que um dia o meu tempo fosse também o teu tempo e o meu espaço fosse também o teu lugar. Não foi bem assim, já não sei bem porquê, mas não foi bem assim.
Não sei onde ficaste Manuela feliz, de vestido de roda e sorrisos...já não me lembro. Onde ficaste tu Manuela?


(Fotografia do Fotógrafo Mario Castello)

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Imagem perdida e galope.


O dia nasceu cinzento, mas a manada exigia desvelo.
Saiu para a lezíria, num trote curto. Pelo caminho o encontro marcado com o rio... e, foi aí que aconteceu. Debruçou-se na margem, reviveu-se, espelhado nas águas. A vida lancetada a escopro, no tracejado intermitente do rosto.
Vacilava, sem duvida, a imagem...mas tão nítida!
Contemplou-se mais uma vez. Uma vida cheia e longa. E a água a limpar passados e avivar memórias...
Subitamente e sem se perceber porquê... a imagem a ir-se...rio abaixo. Perdida...
Tentou ainda, num último esforço, laçá-la. Mas em vão. A imagem seguiu.
Rodopiava agora, em águas revoltas.  Os olhos suplicantes, num esgar de medo.
Lançou-se, sem sequer pensar, num galope, pelas margens do Tejo.
O cavalo de um lado, ofegante. A imagem perdida, num remoinhar sem dó...
Galopou até à foz.  A tempo de a ver mergulhar num caldo de água salobra que lhe dissolveu primeiro a infância, depois a juventude e numa última onda, o dia de ontem.
Voltou para casa e, pela primeira vez, sentiu-se só.