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quinta-feira, 10 de março de 2011

Onde?

Onde estás?
para onde foste?
Até onde te levará o voo que nos afastou?
Lembro a infância partilhada de sopros amenos, com a tenda dos índios, refúgio aparente da sopa e do arroz de ervilhas, sempre por  mastigar,  no meio do quarto. Os jogos de soldadinhos alinhados pelo rodapé do armário.
De noite tinhas medo. Muito medo. Sobretudo do canto direito. Não sei se eram as  portas mal fechadas que deixavam entrever os bibes alinhados, se as botas desarrumadas, de quase boca escancarada, de tanta correria no jardim,  se as camisolas partilhadas. Mas perguntavas sempre, antes de adormecer, o que é que havia outro lado, do imenso quarto, de relvado agreste que partilhavamos...sugerias uma bruxa de nariz comprido. Ou, um ladrão à cata de berlindes, transformados pelas artes mágicas da noite e, da omnipresente panela fumegante de vapores para a tosse,  em luas descumunais, que não paravam sossegadas.
Eu saía então da cama, pé ante pé, para te explicar que a bruxa não passava do meu bibe,  encostada ao teu pião. E recolhia os berlindes, um a um...
Hoje, se procurar não encontro nada. Os berlindes, o quarto de relvado agreste que magoava os joelhos, a bruxa vestida de bibe, desapareceram.  Tu também.

(Fotografia de João Afonso Machado)

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