terça-feira, 29 de setembro de 2020
Água
Encontrei-te parado. O olhar à espreita e as lágrimas que te rompiam horizontes pelo queixo abaixo. -O que se passa? - Não te sei dizer. Foi uma emoção que chegou assim e se aconchegou ao meu olhar transformando tudo em água. Penso agora apenas rios e efectivo maresia em tudo o que faço. O tempo é para mim um lago de água calada e o meu lugar um espaço de ribeiro, tão breve. Se te disser que em ti vejo uma pequena baía acreditas? - Claro que sim. As baías são lugares onde desagua tudo. O mar, as lágrimas, os caminhos e os horizontes. Sem baías o mundo ficaria seco. Definitivamente, seco. Pintura : "Impressão, nascer do sol" de Claude Monet
sábado, 19 de setembro de 2020
domingo, 6 de setembro de 2020
O Talento - RSTP Programa Poesia e Musica em Harmonia
Foi com muito gosto que participei no programa onde se falou de talento e dos talentos de cada um e de todos. Com partilha e música.
É no talento de cada um que se cumpre muito da vida e da felicidade.
sexta-feira, 28 de agosto de 2020
Amanhã
Amanhã vais acontecer e os traços que se fizerem teus serão
quase eternos, dizem-te.
Amanhã, não te esqueças.
O tempo que flui por debaixo dos teus anseios, por agora, nem sequer é teu. É
apenas um esgar, um abafo, um suspiro que se desalinha numa qualquer paisagem.
Amanhã, apenas e só amanhã, será tu mesmo com uma força que nunca ninguém te
viu.
Hoje limita-te a nem sequer entender porque é que tudo o que sonhaste escorre célere,
por debaixo do silêncio amarrotado do guardanapo, pousado a um lado.
Conta depressa quantas vezes quase aconteceste nos últimos minutos que se
passaram.
Vais perceber o que nunca entendeste e, que muito provavelmente, o teu amanhã já nem sequer existe.
Imagem: "Objecto não identificado" Nikias Skapinakis
domingo, 23 de agosto de 2020
Noite
Sem pressa, sem destino.
A noite sobrevoou-me.
Chegou de mansinho e instalou-se. Primeiro na curva dos meus ombros adormecidos. Depois, num suspiro estrelado aninhou-se ao côncavo da minha mão.
O que me disse, eu não me lembro mas os sonhos, esse, navegaram inteiros.
Imagem: "le rêve" Pablo Picasso
quarta-feira, 5 de agosto de 2020
Abraço
A noite, deslizada que fora em calda de açúcar, cobrira-nos as almas outrora vestidas de verde. Todas as almas, outrora vestidas de verde. E os olhares, já matizados pelos primeiros rigores do Outono num tom amarelado, pálido e indiferente.
Não havia agora nenhuma sombra de dúvida, que restaríamos neste abraço. Os sonhos, amortalhados lado a lado, até ao raiar da Primavera…
Imagem: Quadro de João Timane
quinta-feira, 23 de julho de 2020
Recta Absoluta
Devagarinho, acomodou-se ao nicho. As pernas de encontro ao queixo, no único lugar que lhe permitiria permanecer, até que a luz o invadisse de novo.
Toda a noite as badaladas ecoaram um sibilante: tzim tzum, tzim tzum, tzim tzum sem que uma única fresta lhe traçasse caminho.
Seria qualquer um, menos a o da escuridão… Tizm tzum, tzim tzum, tzimtzum
Adormeceu algures entre a terra, o seu coração e a eternidade, embalado pela branda presença do som que lhe lembrava um outro amanhecer .
Quando acordou, reparou que a única porta fechada lhe estendia por uma pequena fresta uma recta absoluta. Com os olhos semiabertos, decidiu então começar a caminhar.
Imagem: Sunrise on old Montauk Highway de Grant Haffner
segunda-feira, 20 de julho de 2020
Muana
-Posso fotografar Muana?
-Pode, mas vê se não acidenta no fundo dos meus olhos. O fundo dos meus olhos tem precipício de lonjura. De um lado, a lonjura da terra, de toda esta imensa terra. Do outro, a lonjura do mar. Deste e, da água que nem cabe aqui. Fica para além do barco, das estrelas, do sussurro da gaivota e dos homens que acham que nunca, mas nunca, se vão perder.
No meio dos meus olhos, cabem todas as histórias que ainda não me ouviram contar. Não conto histórias ainda…só as carrego comigo, assim embaladas, no fundo do meu olhar.
-Olha aqui muana…
-E tu? Ensinas-me a olhar?
Fotografia: Marques Valentim
segunda-feira, 13 de julho de 2020
Poema Translúcido
Havia festa e um poema que se pousava devagarinho no meu ombro, translúcido.
Todas as palavras tinham cor e gosto e riso e um vestido novo pespontado a gargalhadas.
Havia festa, uma festa breve que se fazia por entre todos, numa roda, num tempo, num compasso de dança e um poema, a pousar devagarinho no meu ombro, translúcido como todos os poemas.
São diáfanas e transparentes as palavras que transportam beleza.
São de memória e de lucidez todas as festas, todos os lugares de dança, todos os compassos de vida.
Imagem: A chave dos sonhos" de René Magritte
domingo, 5 de julho de 2020
Vazio com cheiro salgado de horizonte
Aquele vazio era frio, húmido e tinha um cheiro salgado de horizonte.
Ao fundo do vazio uma janela entreaberta lembrava-me que haveria ainda, algures, espaço para uma existência.
Empurrei a única cadeira para o meio do espaço, sentei-me de mansinho, as pernas juntas, os braços pendentes, o ouvido parado e desatei a recordar.
O tempo que me habitou era outro e não tinha amarras. Cada lembrança que chegava fazia-o em cambalhota ou salto mortal e aconchegava-se feliz, no meu colo.
As gargalhadas fluíam num tempo qualquer como se nada do que não se passasse ali, naquele lugar, me pudesse verdadeiramente afectar.
Imagem: "A cadeira de Gaugin" de Van Gogh 1888







