domingo, 18 de setembro de 2011

Mudam-se os Tempos

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
(Luís Vaz de Camões)

Foi a pensar, já certamente na minha avó e em toda uma geração de senhoras cultas, interessantes, distinguidas  pela Universidade de Coimbra. Nessa altura,  reduto quase  absoluto, de doutores de calça riscada e chapéu, que o Luís de Camões, escreveu este soneto. Mais tarde, materializado, no cenário do Chiado, às quintas feiras.
Falo das quintas feiras, porque era às quinta feiras, longe já do início de semana sempre atribulado no que à organização doméstica dizia respeito. E,  não ainda, demasiado perto, do descanso merecido de crianças e maridos, mais as folgas do "pessoal", que se descia calmamente a "Avenida".
Ia-se a ver os "figurinos". Fazer os avios respectivos, maçar-se na modista, para enfim, descansar à hora do chá na Benard.
Não sem antes, se ter passado por este  "Au bonheur das Dames", onde se perfilavam as luvas, as capelines, as meias de seda e traço fino, a manter alinhado ao longo da perna. Trazidas sempre, sem excepção alguma, de Paris. Só isso justificava o deslumbramento do preço.
Mas os tempos mudam...as exigências são outras e, há que acompanhar.
Pelo que o Paraíso prometido, se rendeu à quase indescutível presença do "Senhor Cafézinho".
Tarde no Chiado, passou então a ser tarde de cafézinho. Devidamente encapsulado e normalizado, perante o sorriso cúmplice do omnipresente,  (a raiar a exaustão!)  "amigo" Clooney. Ele há gostos para tudo...
Pela minha parte e como cá em casa o café contínua a ser de aroma e lote, cafeteira ou balão, para as visitas. Eu não gosto, a não ser mesmo em aroma, sinto-me felicíssima, por na porta ao lado...sem perder quase nada do bonheur, me poder deliciar com noz e nata. Nata e nata. Nata e avelã. Nata e Caramelo.
Fica só um pequeno reparo, de quem não gosta de gelado de chocolate, nem de morango, nem de frutas de espécie nenhuma...que abundam, em detrimento dos ditos "sabores quentes".
Já agora Eduardo Santini  não havia pistachio. Nunca há. É aquele gelado verde, com um sabor entre os velhinhos "Rexina" e "Lux", que não faz as delícias de quase ninguém...mas faz as minhas.
Também não havia um "must"...e este, já  sem a desculpa dos sabonetes e, ausência de reparo em gelataria de renome e fama Mundial:  Rum. Ou,  na ausência do mesmo, Zuppa Inglese.
Mas Santini é sempre Santini e Bonheur é sempre Bonheur !


Registo também a  minha estranheza perante esse "fusionamento" dos gelados Santini com o "Melhor Bolo de Chocolate do Mundo"  Muito arrumadinho, é certo. E,  em lugar próprio, para turista ver. Mas a fazer lembrar uma sugestão de gnocchis com lasagna...para mim, gelado é com barquilho e copo de água s.f.f.

8 comentários:

  1. Parabéns pelo texto que é excelente!
    A Benard, quanto a mim, tem dos melhores croissants de Lisboa. Pois quando vou ao Chiado, adoro entrar na Benard e comer um croissant estaladiço com café ou chá. É um "must".
    Já entrei na geladaria Santini mas acabei por nunca apreciar os gelados. É um erro, eu sei.
    A memória da avó que passou por Coimbra, a estrofe de Camões, O "Bohneur des Dames", as luvas, as meias de seda que vinham de Paris, a história do café de cafeteira, tudo é precioso.

    Aprecio luvas e chapéus. Boa noite!

    ResponderEliminar
  2. Ana,

    Origada.
    Não gostar do Santini...nem sei :)
    Quanto à minha avó, passou de facto por Coimbra. Foi das primeiras senhoras a licenciar-se em Fisico-Quimicas, numa altura em que as senhoras ou não iam para a Universidade ou quando muito, iam para letras. Com a agaravante, de ser Açoreana. Uma modernidade estrondosa...a alimentar mais posts.:)

    Carlos Barbosa de Oliveira,

    Sobretudo aos fins de semana de manhã. Enfim, não tão cedo...lá para a hora de Brunch. E, depois dos turistas partirem.

    ResponderEliminar
  3. George Sand,
    Os Açores, as ilhas são para mim muito especiais. Vivi um ano no Pico e atravessei muitas vezes o canal.
    A sua avó licenciada em Fisico-Químicas, numa época em que as poucas muheres iam mais para letras é uma história muito interessante. Açoreana, então devia ser mais raro, não é? De que ilha era a avó?

    ResponderEliminar
  4. Ana,

    É de facto uma história imagino que quase única. A minha avó era da ilha de S. Jorge.
    Filha de um médico obstetra e, do que mais fosse preciso. A cavalo. No tempo em que não havia estradas. Só estudou porque teve a sorte do pai ter feito uma promessa, tinha ela dez anos, quando perdeu a mãe. Não iria poder ter os desejados filhos homens...mas as duas meninas estudariam em Coimbra. Contra todos os costumes da época... Assim foi. Uma aventura seguida a par e passo na ilha, com direito a notícia de jornal no caís de embarque..

    ResponderEliminar
  5. Pois é!Tal como a sua avó,também eu sou dos Açores.A ligação à terra é sempre muito forte,mas ali também é muito forte a ligação ao mar.
    Passei uma vez de barco, por S. Jorge, a caminho do Faial e achei a ilha muito bonita.

    ResponderEliminar
  6. Concha,

    Qualquer uma das ihas dos Açores é linda. Para mim, a preferida é a ilha das Flores.

    ResponderEliminar
  7. Sem dúvida a ilha mais bonita dos Açores, embora sofra alguma descriminação em relação à projecção que é dada a S. Miguel.

    ResponderEliminar