quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Fado entrelaçado

Deitei a noite, Perdi  o tempo,
O desejo, num lamento,
De um abraço cerrado.
Sussurro de alma esquecida,
Na viela mais escondida,
Dos contornos deste fado.

Fosse destino ou paixão,
Eu tomei na minha mão,
O teu sorriso esquecido.
E no silêncio da noite,
Despi-te da solidão,
Num abraço, perdido.

Dá-me agora,
Esse beijo entrelaçado.
Dá-me agora,
O teu olhar prometido.
Dá-me agora,
O sorriso enamorado,
De um destino mal amado,
Eu  farei  o paraíso.

Deitei a noite,
Perdi o tempo.
O desejo num lamento
De um abraço cerrado.
Sussurro de alma esquecida
Desenhada à partida
Nas entrelinhas do Fado

Dá-me agora
as esquinas do teu gosto.
Dá-me agora
os contornos dessa dor.
Apetece
desatar o teu desejo,
prolongá-lo num só beijo.
entrelaça-lo de amor.

F.V.J.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Primavera encomendada



Quero encomendar uma primavera.
Pode ser pequena, da forma de uma só flor.
Embora me esteja a saber tão bem,
descansar os olhos nos matizados de Outono,
Deixar escorrer pelo canto da boca,
Os bagos sumarentos das romãs.
É o  rosto que se esfuma, no orvalho,
desta espera...anunciada.
Mas não quero esperar.
O tempo urge.
Já não há muitas esquinas para debruar de silêncios. 
Dessas que nos entorpecem os passos,
Nos desaconchegam de abraços.
Só o essencial, para a encomenda, num papel de plátano
Vá, deixa-me lá escrever: Primavera encomendada.
E depois adormecer...
Com o som dos pássaros que amanhã, irão chegar.

domingo, 27 de novembro de 2011

Sombras em Movimento




Tinha exactamente três anos quando  me apercebi que as sombras voavam. Galgavam as escadas da casa da minha avó, através da luz da clarabóia, sempre um passo à minha frente.
Comecei por as tentar agarrar, enormes, nas esquinas. Dobrada numa imensa  e constante correria.
E foi assim, que Lisboa ficou pequena e  me  fugiu dos pés...
Da estrela à Madragoa. Do Rato às Avenidas Novas. Do Rossio ao Castelo...as imagens passavam céleres. Iguaizinhas aos slides do verão.
-Vou ali num instante a casa dos avós e já venho...
 Lançava-me da estrela à Visconde de Valmor, num contra relógio, que precisava sempre de ser confirmado ao regresso...
- Vou outra vez pode ser?
E partia, mais depressa que a resposta.

Mais devagar. Mais devagar - esta miúda não sabe andar- os apelos inúteis da minha mãe, que já só tinham por eco o fundo da calçada vazia, deram lugar às voltas, aos saltos, ao deslizar das mãos nas paralelas. Esfoladas, apesar das estafas.

Foram anos infindáveis onde o sofrimento físico se misturava com a vontade férrea de voar. Muito para lá de todas as sombras...
E elas, cada vez mais exigentes, sempre coladas ao mais infímo dos movimentos.
Sombras que só cediam perante o sono, de um dia cheio, enroscado na frieza de mais uma cefaleia de tensão. De outra tendinite de esforço.
E os sais que não tinham tempo de ser repostos...e o peso que não subia...
O veredicto foi claro:
- Neste nível de competição o organismo ressente-se. Os custos são elevados...há que fazer escolhas.
A sombra a agigantar-se. A engolir-me logo ali, todas as lágrimas que eu ainda tinha . E a correr veloz à minha frente...
Até hoje.
Hoje, Lisboa, voltou a ser pequena outra vez.



(este texto é dedicado aquelas que foram durante anos e anos as minhas segundas casas: ACM; Lisboa Ginásio; Ginásio Clube Português e Sporting Clube de Portugal)







sábado, 26 de novembro de 2011

Ólho Benfica!!!!


É o apelo da águia...aquele bicho altivo, nado e criado na luz,  que lançam em voo estonteante e estonteado, qual torpedo tele comandado. Um verdadeiro apelo à adrenalina.
Hordas que invadem tudo.
Eles, no auge da virilidade do courato e do impropério. Que começa logo no princípio da minha rua.
Elas na sensualidade do cachecolzinho partilhado, a fazer pan dan com a lingerie.
Estacionam onde calha e sobretudo gritam. Gritam muito alto. Chamam pela mãe, pela tia pela vizinhança toda. Invadem estradas e avenidas, na correria para a "Catedral". Esse fenómeno de bom gosto e discrição.
Carregam as crianças em ombros como se fossem troféus.
Vestem os cães.
Empurram as primas as tias, as sogras avenida abaixo, na ânsia de fazer número.
São muito bons pais de família.
A alma benfiquista quer-se vistosa e garrida.
Ciclistas de fundo, que atravessam a minha pacatez claustrofóbica num uníssono "e pluribus Unum".
E ganham sempre. Mais não seja porque foram roubados.
Se não existissem era uma pena. Nós, os sportinguistas, não podíamos perder dignamente nem ganhar com orgulho.
Sendo assim, são um mal necessário.
Amanhã: varre-se tudo.





Desenho gentilmente cedido pelo autor e ilustrados José Abrantes

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Novos mapas políticos da Europa (jogo)









Estas são as hipóteses dos novos mapas políticos de Europa.
Cabe-vos por as legendas.
O primeiro já está: é Grego.
Em falta:  Ingleses, franceses,  Americanos, Turcos, Italianos,  Russos e  Alemães.
Não. Nós não temos direito a escolha
(antes de iniciarem o jogo, podem clicar nos mapas se tiverem alguma dúvida)

À popa do Horizonte

Balancei o rescaldo dos últimos tempos, à pôpa do horizonte.
Uma casa lavada. Uma vida sem enigmas. Uma cidade perdida. E o olhar...transversal ao movimento das ondas que nem sempre me deixaram navegar
Fiz as malas e nunca mais voltei.





A não ser numa única vez, quando a sétima onda, parou. Rasante à minha saudade e desatou a chorar.
Nesse dia empacotei  todos os sorrisos. Voltei-me de costas para ao mar e deixei-me ir.
Adormeci quase na ponta da falésia. Acordei já a vida ia alta.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Operação de Sonho






Sentou-se na beira da maca. Com a leveza de quem não quer que lhe atravessem as barreiras do silêncio.
Sabia que tinha que ser assim. Há muito tempo que sabia que tinha que ser assim.
Um angústia surda invadia-lhe o peito...não se queria esquecer desse beijo. Nem do cheiro a terra molhada. Nem de acordar a tempo de ainda revolver os lençóis, antes de um duche apressado.
O tempero do fim de semana, no destempero dela.
Adiara o que fora possível. Até ouvir borboletas a todas as horas e quase não poder conter as emoções.
Sem espaço de manobra quedara-se agora ali, no absurdo da  beira da maca. Vestido da única esperança possível numa situação dessas.
Que não fosse o sonho de amar. Nem o de ser gostado. Nem o de ouvir Malher, nem o de lhe dar um beijo  e outro e outro, debaixo da chuva.
Via já a mesa de instrumentos.
Dissecadores de sonhos, de todas as medidas, com todos os feitios.
Perguntavam-lhe o nome
- Chamo-me o que quiserem. Mas  só não me tirem o sonho de... SER

Acordou dois dias depois... ESTAVA.



Ana Moura/ Camões

Ar, preciso de ar



Acabam de me telefonar da garagem...o polimento, a hidratação, está tudo concluído. A pintura reposta.  Agora, já só é preciso autorização para injectar (ou ejectar, a própria garagem! ) nitrogénio (a minha tia jura que é nitro glicerina mas eu acho que não pode ser) nos pneus.
Parece que é a unica forma de não ficarem tão perto do chão...
- E que tal meterem-lhes um bocado de hélio? Sempre ficavam a piar fininho e eu chegava mais depressa aos sitios.
Dêem-me a porcaria do carro! Já!

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Destino de pássaro

Há pássaros que levantam voos sempre que perdemos a esperança. Ou será que o fazem, porque não sabemos onde deixamos o destino?


Um dia percebi que não tinha sorte de homem. Nem tempo de homem. Só o espaço infinito dos azuis, que se sobrevoam sempre que somos livres.
Nesse dia, abri os braços e deixei-me voar.
Impregnei-me de azul e deixei-me voar.
Foi assim que ganhei asas.
O tempo escoava-se por entre a ventania.
O espaço, numa demência volteante, a raiar o círculo do horizonte.
Confesso que tive medo.
Esperava-me o ar. Completo. Tranlúcido. Ora morno, ora gélido. Ora suave, ora tempestuoso.
Deixei-me pairar nesse abraço de coisa alguma. Tão ou mais cerrado que um beijo de brisa...