quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Um Homem de sabão, desfeito de gente



Experimentou...apesar de todos lhe dizerem que era feito de sabão, sair à rua num dia de chuva. Não derreteu mais do que o necessário para escorregar o silêncio no alcatrão. Foi só isso que aconteceu: escorregou o silêncio no alcatrão.
Mas ao contrário do que se podia prever, não se desfez.

Mal chegou a casa, despiu a gabardina, descalçou os sapatos e sem saber porquê,  começou então a chorar.
As lágrimas correram céleres e foram deixando um rasto de bolas de sabão, que pouco a pouco lhe foi desfazendo as ideias…
Uma a uma, rolaram, perdidas,  pelo chão.
A ideia de(vida) a ser assim.
A ideia parecida, com não poder.
A ideia de achar que era capaz.
A ideia sincera do acontecer.

A ideia esquecida,
de um tempo passado.
A ideia feita, destemperada,
A ideia de quase tudo...
no desespero.
Tão perto da ideia,
de quase nada.

Chegou ao fim,  da única forma possível: desfeito de gente.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Achavam que eu me rendia assim...

Palavras Acontecidas





Havia  ainda, quem se deslumbrasse com o passar dos dias. Em termos de deslumbramento efectivo.
António deslumbrava-se.
Fazia-o propositadamente.
De manhã, saía cedo. A deixar escorregar paisagens acontecidas, a conta-minutos, pelo canto dos olhos. Numa viagem, para dentro de si.
Exigia um enorme esforço de olhar...sobrancelhas contraídas, pestanas levantadas e o alvo fixo.Para que no firme instante, pudesse segurar pela ponta, cada imagem. No firme instante e só pela ponta. Fosse a imagem um bocadinho de quase nada ou uma imensidão qualquer.
Absorvia-as assim,  inteiras. Primeiro na pupila. Para só depois as reter com toda  a força da retina, sem efeitos nem floreados.
Só depois, muito para lá do meio da noite, junto a um dos dias, portanto, vinha então o deslumbramento.
Surgia sempre em forma de palavras.
Palavras que o  António não esquecia e que juntava  mais palavras: as do outro, e do outro e do outro dia...
Coladas lado a lado pela ocasião. Arrumadas pelo colorido ou pela imaginação.
Deixava-as pregadas por um alfinete de alma, numa folha de papel.
Tinha uma quantidade ímpar.



segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Para os que não comem couvert

Todos os que deitam fora os caroços das azeitonas para fazer de conta que não comem couvert...aqui têm a resposta: agora o couvert paga-se na rua.
Os restaurantes da cintura do Porto de Lisboa agradecem certamente e efusivamente. Quiça as novas rotundas, vão ser "agraciadas" com cestinhos com pão com manteiga patrocinados pela EMEL. Jantar no "Kais", nos "Meninos do Rio" etc e tal...só a penantes!
Aconselha-se galochas, agora que o tempo parece que quer mudar. O percurso ainda é longo...e as obras, sempre as famigeradas obras, decorrem a mau ritmo.
Aqui: Queres passar pela rua? Paga! 

Para mim, ainda é verão!





Não me rendo à chuva nem ao vento.
Nem ao tempo que passa e se despede.
Nem ao Inverno que avança glorioso.
Sequer aos cheiro de Outono,
espalhados em bagos de romã agreste.
Não me rendo ao mar em fúria,
Que quase esquece os passos,
espalhados na areia.
Não me rendo às folhas aos magotes.
Ao esvoaçar dos ditos,
Aos silêncios mais aflitos,
Sem tempo já, para a brincadeira.
Não me rendo não.

Porque para mim...ainda é verão!

domingo, 23 de outubro de 2011

A crise. Desta feita em versão escolar e estrangeira

Este ano a surpresa:
-E os livros filha?
-Os livros estão aí!
-Estão aí como?
-Os livros não são meus mãe. Mas também não é preciso comprar livros nenhuns. Os livros são da escola. São de todos. Eu ponho o meu nome no fim da lista (de muitos nomes diga-se de passagem) e uso. Só não posso escrever nos livros. Mas não faz mal. Eles dão muito papel para tirar apontamentos.
- Bom mas é preciso dicionários...
- Não mãe. Os dicionários estão na sala de aula. São de todos. Também há na biblioteca.
-Sim mas e os consumíveis? Cadernos, dossiers com estrelinhas, com galinhas, com coisinhas...lápis com luzinhas...
-Ai isso? A mãe não se rale. É só uma caneta ou um lápis e já está. Tanto faz. Os dossiers são todos pretos, dos básicos e o papel é reciclado.
-Calculadora???
 Aqui é sempre uma razia: uma coisa xpto, que ainda está dentro da embalagem, já se ouve berrar a plenos pulmões " eu sou o último grito da moda"...
- Pois é mãe...imagine que não deixam a minha calculadora do ano passado...só deixam aquelas muito básicas que se usava no 5º ano...
 Munida de um espírito de mãe galinha em início de ano escolar, repliquei triunfante: sim mas lá para os desenhos geométricos...preciso dos números dos lápis, dos tamanhos das réguas. De vinte? De trinta? De cinquenta,  de 48...dos ângulos dos transferidores, dos enquadramentos dos esquadros e dos dois em um, que não existiam no meu tempo, mas entretanto parece que foram inventados: os arintos. (ao invés de substituírem, somaram! ). Preciso disso tudo para a lista.
-Ó mãe eles querem lá saber dos números e dos comprimentos. Desde que risque e se veja...melhor ainda é se estiver certo. Não há nada para a mãe por na lista.... Além disso, em Inglaterra, estão em crise!
Pois estão...e nós... (se calhar)... também!

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Apelo Urgente por uma Europa mais Solidária

 A Grécia está em crise! Precisamos de ser solidárias: adopta um Grego!


Chama-se Saki Rouva. Foi considerado um dos homens mais bonitos do mundo...e não é que vai-se a ver o passaporte, e diz lá... Grego!!!  Está lá, com as cores azuis e brancas, escarrapachado e sem margem para nenhuma dúvida!


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Amor aos Pedaços





Acho lindamente. Não podia estar mais de acordo. Casamentos com prazos renováveis. Uma espécie de amor...aos pedaços!
Dois anos no México, sete em Paris...vai haver para todos os gostos.
Na Madeira também!
Nada de reinados esmorecidos. De alianças gastas, de vestidos desbotados.
Acaba-se de uma vez com a modorra, o status quo, o politicamente correcto.
O casamento passa a ser a prazo: exactamente como os iogurtes. Sem admitir congelação e a exigir temperatura adequada.
Uma fruta que se mordisca levemente nos primeiros anos, para depois se exigir madura.
Volta e meia, vai a votos. O que implica campanha afincada, com atenções redobradas. Mais um papelinho, mais uma voltinha, no carroussel da vida. Que se quer para sempre. Mas desta feita, merecido. De cônjuges esforçados e empenhados.
O triste fadinho das mulheres despenteadas, amarrotadas, desmazeladas. Dos maridos esparramados no sofá da vida, vai acabar. O comando vai ter que ser o da imaginação.
O canal desporto tem os dias contados.
Os Cristianos Ronaldos deste mundo, vão te que se esforçar muito mais As novelas da TVI, quando muito, de soslaio, entre um beijo e um queijo
Vivam os chocolates, as flores, os amores!
Agora sim. Agora é que vamos ser todos felizes!



nota: é preciso é verificar sempre os prazo das embalagens.


O desenho é um original gentilmente cedido pelo autor e ilustrador José Abrantes

sábado, 15 de outubro de 2011

Desnorteados



O susto toma conta dos sonhos. Os sonhos destemperaram-se, em quotidianos impossíveis. Insuportáveis.
Para onde então?
Qual o rumo?
A crise, de económica e financeira, a pedir contenção, toma cada vez mais, a proporção do desespero. Imenso e esbugalhado.
Pede-se, pelo menos, indignação...
O suporte vai ruindo. Todos os suportes vão ruindo. Sem que se vislumbrem caminhos. Muito menos certezas.

O pensamento ficou algures, entre a hora do almoço e o pesadelo diário da sobrevivência...
A permanência do quotidiano de ontem, serve-se hoje, fria, em tempos de crise.

Não há psicologia que prepare, para a incerteza total, a cada uma das vinte e quatro horas, que partem à desfilada, por dentro de números e mais números, num galope  incessantemente. E, vindo dos quatro cantos do planeta. O mesmo, que um dia, parece que foi azul...
As necessidades tornaram-se absurdas. Senão todas, pelo menos a maioria. Esgotando-se para lá de todo o entendimento...

Parece que os números se insuflaram de vida. Orientando-se a si próprios e a nós mesmos.
Estamos, enfim,  reféns. Daquilo que já nem sequer  sabemos se queremos. Mas somos, todos, sem excepção, obrigados a consumir.

E a perplexidade a tomar conta dos gestos: autómatos, inexpressivos...

Afinal o que é prioritário? O que é essencial? O que é decisivo?
Há que repensar modelos e reorganizar estruturas.
Levantar as pedras polidas, de cima do desentendimento e recuperar o âmago. Num reencontro...com o SER. Que possa então, reunir as forças necessárias, sejam elas quais forem,  por forma a suportar, o querer e o haver, colectivos.

(a imagem foi tirada da internet e pronto!)