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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Morte de olhar

Não se deve morrer assim. Num dia sem destino especial e sobretudo sem razão.Também não sei se num dia feito para a eternidade.
Percebi quando me  levantei e não encontrei os teus olhos. Nenhum dos teus olhos. Muito menos a lonjura a que me habituaras, todas as manhãs.
Parava uns segundos, cedo,  na beira da cama, a adivinhar, até onde te levaria o olhar....se para lá do muro da cidade, se acima das promessas de chuva. Irrelevante. Chegarias a casa no final do dia, vestida de trajectos. Mais ou menos desordenados. Como todas as mulheres.
Tinha sido assim, sempre.
Hoje pela primeira vez, achei-te morta.
Corri a buscar dois pincéis. E rapidamente, desenhei uma borboleta de asas amarelas.
Com a mão direita fiz quase tudo e pela esquerda prometi-lhe alguma sombra. Para te proteger a retina. Se ela tivesse sobrevivido...
Soprei com força. A borboleta partiu.
Tenho muito medo que nem ela, mesmo que o encontre, reconheça, ainda,  o teu olhar.
Se isto não é a morte, quando se morre, afinal?

21 comentários:

  1. Magnífico texto, Filipa.
    Até arrepia !
    Mas de uma poesia profunda.

    Um beijo.

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  2. Obrigada João Menéres, pelo seu olhar.
    Bj

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  3. Bonito texto, por alguma razão a angústia tende a inspirar mais que a felicidade...

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  4. Carregam-se sonhos para lá das lonjuras do horizonte e também percursos de vida que pesam o coração. E o olhar onde é que fica? De que lado da balança? O equilíbrio ditará a sua sobrevivência, ou não...

    Um dos seus textos mais lindos!

    Bj

    Olinda

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  5. Obrigada Olinda.
    Um texto escrito sem nenhuma pausa.Exactamente na medida dos horizontes. Com o olhar, para já despido. A balança, ditará ou não a sua sobrevivência.

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  6. Talvez se morra somente, quando se deixa de enviar borboletas... em busca de olhares que se perderam...

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  7. Ana e Pedro Coimbra,

    Obrigada .Gosto que gostem :)

    Bartolomeu,
    Acho que sim. Morre-se quando se desiste. E sempre que se desiste morre-se mais um bocadinho. Até as borboletas se transformarem em crisálidas...e essas, não se deixam enviar.

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  8. Muito bonito, excepcional

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  9. Nunca se morre totalmente. Mesmo que profundamente mortos na memória que não deixamos, há sempre uma borboleta que, frágil, faz soar trombetas azuis.

    Texto de grande sensibilidade...

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  10. Paulo A L,

    Felizmente que a vida é assim: intercalada de sorrisos.Mesmo que no voo frágil de uma borboleta. Ou, sobretudo, se no voo frágil de uma borboleta.
    Obrigada

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  11. Um dia voltarão as razões para acreditar!

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  12. Poesia. Deixou-me saudades de estarmos novamente juntos. Quem diria que se quedava poetisa. Comece a pensar no livro que eu já estou pensar na capa!

    Abraco

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  13. mfc,

    Tal como as borboletas, as voltas da vida, nunca são em linha recta

    João Amorim,

    Poesia sim. E se algum dia houver um projecto será consigo a parte gráfica. É uma honra.Temos que estar juntos ou a sul ou aí, a norte. Grandes amigos o Porto :)
    Saudades

    Puma,

    Desnascer, gostei. Para renascer.

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