O repto foi o de escrever cartas. Com remetente e destinatário. Normalmente as cartas distam espaços. Nestas, a separá-las, estará o tempo.
Pelo que o carteiro...se o houver, não poderá ser, senão, a própria vida.I
Sapatos de Verniz
Minha Memória,
Não sei o que aconteceu. Tinha-os guardado no armário, entre o bibe, de todos os dias e, a saia que trouxe da festa...agora desapareceram.
Lembras-te certamente. São os pretos, de verniz. Não aqueles de sempre, herdados da prima, com a presilha meio rebentada que já decoraram o caminho da escola. Mas, os outros, de botão de festa. Quase não sabem nada estes sapatos. Acho que nem nunca saíram de casa, a não ser no Natal.
Foram comprados na "Ratinho", precisamente, para o Natal. A avó escolheu-os e tentou calçar-mos várias vezes, enquanto os meus pés balouçavam no carrossel que rodava, justamente a meio da loja.
Eu sei que te lembras. Estavas lá, junto à porta, não fosse a avó se esquecer da cor. Ou, os meus pés se lembrarem de crescer, justamente naquele instante.
E agora que não os encontro...
Ainda vou procurar melhor numa cómoda cá de casa, onde se guardam coisas insignificantes, coisas importantes, chapéus e se calhar sapatos de verniz. Pode ser que lá estejam. Pelo menos um...mais não seja um.
O outro, lembro-me agora, tinha aquela mania de se esconder debaixo da cama...
(olha, fui lá e não está).
Sabes memória, já são muitos anos. Eu e tu, nesta coisa de perguntar o que não se acha, o que não se lembra.
Eu sei que vives de recordações. Acho que é exactamente por isso que te escrevo.
Tenho saudades sabes.
Tenho muitas saudades tuas.
Vê se te recordas dos sapatos. De um, ou dos dois, se puderes.
E não te esqueças que nunca preciso de cartas tuas. Basta-me que fiques por aí e que te vás lembrando de mim.
Agora vou selar a carta...de tempo e deita-la num qualquer marco da vida. Vai chegar num instantinho...ou não. Mas isso não é nada importante. O importante é que chegue....a tempo das tuas recordações.
Saudades, mil.
