quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
No patamar da sua existência
Era difícil entrar em casa, com a memória assim, escancarada de fresco.
Rodar sete vezes a chave que trazia ao peito, desde que nascera, parecera-lhe sempre, uma tarefa improvável.
Sete vezes dissera-lhe sempre a mãe, antes de morrer. Sete vezes…para o lado de onde te soar o teu coração.
E as escadas a galgarem-lhe o pensamento.
E, as portas que rangiam de encontro aos sopros que vinham do quintal.
O coração a sobrepor-se, numa linha imaginária, que se estendia pela sombra dos ombros, até ao patamar maior da sua existência…
Ponte
Há um trapézio, na lua sim. Estendido, entre os dois lados da noite.
Numa ponta o teu crepúsculo, na outra, a minha alvorada.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
No primeiro côncavo, da sua vida
Vivera uma geometria anexa.
Começara num plano mais ou menos oblíquo, para se tornar aos poucos em linhas. Rectas e horizontais. Dias que começavam num momento e acabavam, sem nenhum sobressalto, no fim do raio. Fosse ele, de que tamanho fosse...
Com o tempo, a perpendicularidade.
Um dia, num acaso, de uma janela mal fechada, a verticalidade a assombrar-lhe, uma nesga de existência.
Construiu alguns cubos, a partir daí. Que guardou sigilosamente, dentro de si.. Paralelepípedos nos dias sem grande historia e muitos sólidos, ao longo de toda a vida.
Sempre que havia necessidade de construção, reinventava tetraedros.
Só não ousou nunca uma curva.
E agora, que a história lhe pede...o primeiro côncavo, da sua vida?
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
Na ombreira da sua existência
Poderia ficar assim, indefinidamente, encostado à ombreira da sua existência.
Uma porta entreaberta garantia-lhe alguma paisagem, do que fora, sem que os passos se afligissem em demasia, na borda do degrau.
Lá dentro, os silêncios eram absolutamente contornáveis.
Respiravam as janelas, ainda. Uma brisa esquecida, de ontem, no quarto dos fundos. De sempre, na sala que tinha ao canto a mesinha baixa, com todos os retratos. Lembrava-se de cada um e, eram doze e mais oito.
Doze, do tempo que passara à justa, por sobre a felicidade.
Oito, na medida do esquecimento...
Garantiam-lhe todos os verbos, agora, que mais um passo naqueles degraus e haveria de ser diferente...
Uma porta entreaberta garantia-lhe alguma paisagem, do que fora, sem que os passos se afligissem em demasia, na borda do degrau.
Lá dentro, os silêncios eram absolutamente contornáveis.
Respiravam as janelas, ainda. Uma brisa esquecida, de ontem, no quarto dos fundos. De sempre, na sala que tinha ao canto a mesinha baixa, com todos os retratos. Lembrava-se de cada um e, eram doze e mais oito.
Doze, do tempo que passara à justa, por sobre a felicidade.
Oito, na medida do esquecimento...
Garantiam-lhe todos os verbos, agora, que mais um passo naqueles degraus e haveria de ser diferente...
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
De costas, num instante, de memória
Havia mundo e havia caminho.
Havia tempo. Todo o tempo, menos aquele instante quase absurdo, em que tinha a certeza, ela o amara.
Não sabia precisar se durante, se ainda, se quase sempre.
Virou-se de costa e esperou.
Os instantes regressam. Têm que regressar. Mais não seja, pelas ondas ritmadas da memória.
Saberia chorar um oceano, se preciso fosse. Só por essas ondas, ritmadas, da memória.
Mas não prosseguiria, assim.
sábado, 20 de outubro de 2012
A respirar palavras
Era absolutamente indispensável. Não concebia nenhuma manhã, sem inspirar palavras. Todas as palavras que pudesse.
Nem nenhuma tarde, em que o abdómen não se contraísse, a ponto de deixar sair, em catadupa, as frases. Já construídas, numa digestão lenta, de todas as memórias.
Respirava escrita do nascer do dia, ao ocaso, da sua história.
Tinha sido assim, desde o dia em que nascera. Para espanto d
e todos os que viam os seus ditos e, mesmo os seus pensamentos, serem engolidos, ali mesmo, às golfadas.
Não era preciso muito para inspirar as palavras. Por vezes bastava só isso: a proximidade de um pensamento...
Depois, ia devagarinho, pela sombra dos sorrisos, ou pela contracurva das emoções, de boca entreaberta. E, na quietude que se entardecia, expirava, então...
Não era preciso muito para inspirar as palavras. Por vezes bastava só isso: a proximidade de um pensamento...
Depois, ia devagarinho, pela sombra dos sorrisos, ou pela contracurva das emoções, de boca entreaberta. E, na quietude que se entardecia, expirava, então...
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
De costas, sem lugar de história
Recordava-se em absoluto que se tinha deitado de frente.
Todos os dias se deitava de frente, para um luar. E todos os dias, acordava de frente, para o que dele restasse.
Podia ser um sonho, podia ser uma imagem. Podia ser a necessidade de ausência, que só se encontra, plenamente, no ar leve da madrugada.
Acordava de frente para a madrugada.
Havia restos de noite, que se iam deitar, cheios de histórias. E luzes, que tremeluziam ainda, à espera do que acontecesse..
Iriam acontecer muitas coisas. No tamanho e, na proporcionalidade das horas que voam, pelo dia fora. Ou que, simplesmente, se deixam escorregar.
Susteve, por breves instantes a respiração e pensou que se tinha deitado de frente. Era absolutamente inequívoco. E, não obstante, acordara de costas.
Pela primeira e única vez na sua vida: tudo o que tinha acontecido e mais ainda, o que iria suceder, estavam confinados ao lugar da ausência...
Só se rodasse, em meia volta.
Mas o tempo...o tempo não tem metades. Não estanca a meio de um bocado de vida, à espera do outro tanto.
Pensou no pião, que tinha guardado na gaveta da memória e, lançou-o. Com toda a força, até ao lugar do coração.
Agora rodopia, entre o que jamais aconteceu e o que, mesmo sucedendo, nunca lhe servirá de história.
( a imagem é da estátua de Drummond de Andrade, no Rio de Janeiro)
terça-feira, 25 de setembro de 2012
No sétimo degrau a contar do último acontecimento, da sua vida
Desviou-se apenas um milímetro, da curva da porta . Completamente aberta para a existência. E, sentou-se, precisamente, no sétimo degrau, a contar do último acontecimento, da sua vida.
Matutou longamente....
O sexto acontecimento estava logo acima, acocorado num degrau, pleno de água, que lhe escorria agora, pelas costas.
Tinha havido pelo menos dois luares e um sol. A somar a quase toda a brisa do mundo. Fora breve? Nem sequer sabia...
Breve era a existência, escancarada, assim, para lugar nenhum.
Do quinto acontecimento, não tinha, sequer memória.
E no quarto, não havia, nenhuma história. Tempos e lugares esparsos. Apenas e só.
Limitou-se a matutar longamente.
O vento, do fim do dia, empurraria com força, a porta. E, faria então, ranger-lhe, os olhos.
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
Mundo, em trapos de volta redonda
Gostaria muito de perceber, onde estaria a bola, redonda de trapos.
Rodara meia vida e mais um tempo, por todos os cantos do quintal.Um dia, sem nenhum desespero, foi-se...
Ninguém procurou. Nem sequer ninguém teria que procurar.
Ontem, era azul, cosida e recosida, em trapos de volta perfeita.
Hoje, seria certamente, qualquer outra.
O tempo deixara que todas as perdas se fizessem. Que todas as angústias acontecessem.
No fundo da escada estava uma espécie de mundo redondo. Feito de bocadinhos de acontecimentos. Também eles, cosidos e recosidos.
Tão diferente, da velha bola de trapos...e apesar disso: a mesma.
Parecia-lhe agora que desaguava oceanos, de cada vez que a chutava, com muita mas muita força, para o fundo do quintal...
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