quinta-feira, 11 de outubro de 2012

De costas, sem lugar de história


Recordava-se em absoluto que se tinha deitado de frente.
Todos os dias se deitava de frente, para um luar.  E todos os dias, acordava de frente, para o que dele restasse. 
Podia ser um sonho, podia ser uma imagem. Podia ser a necessidade de ausência, que só se encontra, plenamente, no ar leve da madrugada.
Acordava de frente para a madrugada.
Havia restos de noite, que se iam deitar, cheios de histórias. E  luzes, que tremeluziam ainda, à espera do que acontecesse..
Iriam acontecer muitas coisas. No tamanho e,  na proporcionalidade das horas que voam, pelo dia fora. Ou que, simplesmente, se deixam escorregar.
Susteve, por breves instantes a respiração e pensou que se tinha deitado de frente. Era absolutamente inequívoco. E, não obstante,  acordara de costas.
Pela primeira e única vez  na sua vida: tudo o que tinha acontecido e mais ainda, o que iria suceder, estavam confinados ao lugar da ausência...
Só  se rodasse, em meia volta.
Mas o tempo...o tempo não tem metades. Não estanca a meio de um bocado de vida, à espera do outro tanto.
Pensou no pião, que tinha guardado na gaveta da memória e,  lançou-o. Com toda a força,  até ao lugar do coração.
Agora rodopia, entre o que jamais aconteceu e o que,  mesmo sucedendo, nunca lhe servirá de história.

( a imagem é da estátua de Drummond de Andrade, no Rio de Janeiro)


13 comentários:


  1. Excelente texto poético

    O real e a ficção

    ResponderEliminar
  2. E é esta alternância do sonho e da realidade,que umas vezes nos impele para a frente e outras vezes nos faz parar na expectativa de que mesmo assim o real talvez não seja assim tão real.Pelo meio surge a esperança de que o sonho se concretize ou então sonho e realidade se interpenetrem e permitam que a confiança prevaleça.Obrigada!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu é que agradeço, a sua leitura Concha
      A minha escrita, só se completa com as várias leituras. Todas possíveis , em texto aberto.
      Bj

      Eliminar
  3. gosto desse rodopiar entre a (i)realidade e o possivel...
    e nesse voo se cumpre o sonho...

    cumprimentos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada Heretico.
      Os sonhos, nem sempre se cumprem. Mas vão-se sonhando...

      Eliminar
  4. É importante saber sonhar... Se não a vida não valia a pena. Gostei muito!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada.
      Sonhar e recordar, ajudam a construir futuro.

      Eliminar

  5. Célia Sousa

    Sonhos... como é bom sonhar, o sonho comanda a vida, sem elses a vida seria um deserto:))

    ResponderEliminar

  6. Célia Sousa

    Sonhos... como é bom sonhar, o sonho comanda a vida, sem elses a vida seria um deserto:))

    ResponderEliminar