segunda-feira, 8 de junho de 2020

Passos



Digo-te passos
Enquanto palavras rolam no chão.
Digo-te movimentos
Sopros do impossível.
Passo.
Tu passas.
Nos nós silenciosos
E escuros  dos olhos,
Há os teus medos inoportunos
A galgarem as manhãs.



In "II Antologia de Poesia  Contemporânea" Coordenação de Luís Filipe Soares Lisboa 1985

Imagem: "Viajante sobre o mar de névoa" de Caspar David Friedrich 1817

sábado, 16 de maio de 2020

Infinito


Não sei se quero tempo,
Se quero alma.
Se o meu passado me passa a cada dia,
se o meu dia se passa com pouca calma.
Não sei se quero tempo e trovas de tempo,
E o momento amedrontado às costas.
No ventre, o lastro desmedido e perdido dos dias,
E o que resta do nada
E de mim.
Se morrer serei infinito,
E o infinito não é senão
O nunca mais eu ter fim

Imagem: "Teseo e o Minotauro" Maestro Dei Cassoni Camparo 1510 (Avignon, Petit Palais)

sexta-feira, 17 de abril de 2020

أحنحة



هنا أناس وطريق طويل
في حقل الذرة
الطائر القديم
قالي على العالم الضائع
أسمعه بصمت
داخل الصدري زهورالدم
غدا أستيقظ مع الأحنحة


Asas
Aqui há gente e um caminho longo
Num campo de milho
O Pássaro velho
Conta-me sobre o mundo perdido
Oiço silenciosamente
Dentro do meu peito há flores de sangue
Amanha, levanto-me com asas.

Imagem: "An  Experiment on a bird in the air pump" Joseph Wright of derby 1768

terça-feira, 14 de abril de 2020

Longitude


Ontem, ao dobrar de um cabo da minha vida, encostaste-me sem que eu desse sequer por isso uma longitude que desconheço.
A estrada está agora totalmente vazia e porei,   doravante,  os pés exactamente aonde eu mereço.
A minha longitude será um vazio ou um qualquer promontório. Um ponto a roçar o desmembramento dos dias, eu sei lá…

 Neste reinício, desde ontem, uma recta sombreada perpassa-me a urgência e o medo.
Atrevo-me a dizer que por esta longitude, atravessarei corajosamente todas e cada um das paisagens, todas e cada uma das consequências, todos e cada um dos lugares.

Dir-me-ás tu, que me encostaste esta longitude, no final, lá bem no final, se eu sequer vivi. Se eu sequer existi. Se os caminhos que me impus ou que tu me impuseste foram estreitos, arqueados, coloridos, nefastos, irrisórios ou apenas calados.
E então, amanhecerei assim, amarrada ao meu infinito de ponto cardeal.

Pintura: Joseph Wright  of Derby

domingo, 29 de março de 2020

אני ואתה נשנה את העולם



אני ואתה  נשנה את העולם
Eu e tu mudaremos o mundo
אני ואתה אז  יבואו כבר כלם
Eu e tu, então todos virão
אמרו את זה קודמ לפניי
Disseram isso antes, no passado
לא משנה
Não importa
אני ואתה נשנה את העולם
Eu e tu mudaremos o mundo
אני ואתה ננסה מהתחלה
Eu e tu tentaremos do início
היה לנו רע
Será mau (para nos/ será duro para nós)
אין דבר זה לא נורה
Nada é  terrível
אמרו את זה קודם לפניי
Disseram isso no passado
לא משנה
Não importa
אני ואתה  נשנה את העולם
Eu e tu mudaremos o mundo


Musica:  Arik Einstein

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Absoluto e só




Ao nascer do sol restará a labareda,
Que me envolve a mim.
Terra, sangue e nastro.
O lastro que me sabe a pó.
Ar de dentro tão puro e tão breve,
Suspiro de um início de vida,
Absoluto e  só.

Imagem: "The Promenade" Marc Chagall 1918

Filipa Vera Jardim

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Até à penumbra



Espero que amanhã te saibas e te encontres ao fundo da rua. Os passos  que vestires irão acompanhar-te até à  penumbra do dia. Uma volta concêntrica, apertada  e começaras a pensar se é possível repetir tudo amanhã.
Os mesmos rostos, os mesmos anseios, a gargalhada embebida de sol a que te agarras com força. 
O tempo escorre -te devagar, no ritmo manso da urgência que te completa.
Como se o vagar embalasse tudo. Como se por causa do vagar a vida  fosse, ela mesma,   mais controlável.
Aprendes-te há muito, no fundo da  rua  em que te sabes  e te encontras,  que a vida não tem nada de controlável. O vagar é apenas um jogo de sombras, um episódio e um remanso.
Amanhã os passos que vestires serão absoluto e lugar, até à penumbra.

Filipa Vera Jardim

Imagem:  " A Estrada da Comenda I " de Manuel Amado (1993)


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Havia que retomar o tempo



Havia que retomar o tempo. As voltas concêntricas da vida, o desalinho do entardecer na paisagem côncava do meu lugar.
Havia que retomar o tempo, devagar.
 A promessa branda da simetria das horas que demoravam a enrolar-se na quietude.
O desafio ondulante de mais uma maré que irrompia de um espaço oportuno, a subir, a subir. E os tornozelos destapados na areia breve a cingirem-se às algas que chegavam às mãos cheias.
Havia que retomar o tempo todo, os sonhos todos, as interjeições e o luar.
O tempo numa cadência presente de absoluto. Matéria e energia, comportamento e causa, em cadência absoluta, desmesurada,  pendular.


Imagem:  Composição VIII de W. Kandinsky

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Flor



Flor foi a sílaba que escolheste para me oferecer na primeira noite que passei encostada ao teu umbral.
É uma sílaba plena, disseste-me. Sozinha transporta com ela o cheiro intenso de um cravo, a beleza de uma gardénia que se embebeda de sol. Uma única sílaba e contém em si toda a simetria do universo, nunca a percas, pode ser o início de um grande e belo poema.
Peguei na sílaba flor e metia-a no bolso.
Reparei qu8e me olhava estupefacto.
-No bolso? Meteste a sílaba flor no bolso?
Envergonhado, retirei-a já um pouco amachucada.  Pegaste nela e com todo o cuidado começaste a alisar -lhe a parte de cima do F, a ajustar o L, a contornar com força o O, a endireitar o R...
- Se não cuidas dela, ela vai-se. E depois, como consegues tu dizer que algum pássaro algum dia lhe pousou? Como podes tu dizer que alguma amontanha se vestiu dela? Que alguém a colheu ao passar...É impossível imaginar uma série infinita de poemas sem uma flor.
Sem uma única sílaba e o universo poderia ficar irremediavelmente coxo.

Imagem: "Mulher-flor " de  Pablo Picasso

domingo, 2 de fevereiro de 2020

A casa Amarela



A casa era amarela.
Amarela de sol e de luz, que lhe entrava de rompante e se acomodava por todo o dia. Por instantes, a casa embalava-nos as fantasias, balançava-nos a imaginação. Deixava-nos escorregar os sonhos por entre os corredores e a sombra frondosa das palmeiras do jardim.
A casa amarela era uma casa grande e cheia. Ocupava lugar de destaque Todos os recantos estavam repletos. Da cozinha, à sala. Das traseiras, à memória


in " São Martinho do Porto"
       Momentos

Imagem: La fenêtre chez Bataille Vincente Van Gogh 1887

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Boas Festas


Boas festas a todos os que visitam este espaço. Com os votos de que o novo ano vos traga saúde e muita LUZ

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Recta Absoluta




Devagarinho, acomodou-se ao nicho. As pernas de encontro ao queixo, no único lugar que lhe permitiria permanecer, até que a luz o invadisse de novo.
Toda a noite as badaladas ecoaram um sibilante: tzim tzum, tzim tzum, tzim tzum sem que uma única fresta lhe traçasse  um caminho.
Seria qualquer um, esse caminho, menos  o da escuridão… Tizm tzum, tzim tzum, tzimtzum
Adormeceu algures entre a terra, o seu coração e a eternidade, embalado pela branda presença do som que lhe lembrava um outro amanhecer.Quando acordou,  reparou que a única porta fechada lhe estendia uma recta absoluta. Com os olhos semiabertos, decidiu-se então começar a caminhar.

Imagem: Quadro de nadir Afonso

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Naufragio


Comecei a navegar pelas bordas da tua urgência, devagarinho e com terra à vista. Depois, fui percebendo que é sem pé que se alcança a ternura e que o fundo do mar e o fundo da terra são um e o mesmo lugar.

Parti porque havia vento e havia uma saudade imensa de horizonte. 
Parti porque me esqueci de tudo o que nunca aconteceu e ontem, me parece agora, apenas  um lugar amanhecido no fundo de um frasco de vidro baço.
Parti porque o sol me desdenhou sempre e de todas as vezes que se encostou à curva da  minha lonjura.

 Desde ontem que navego e não vejo senão horizonte. Um mar que me serpenteia entre os  anseios e ninguém.  Um mar que me serpentei entre as  recordações e ninguém.  E o espanto atravessado na crista de cada uma das ondas que procuram um lugar.
Desde ontem que navego e não sei  se algum dia aportarei.  


Imagem: "La radeau de la meduse" de Theodore Gericault

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Debruço me sobre a tua ausência e tenho medo


Paro de repente e percebo que não estas.
Ninguém pode parar assim, de repente porque tempo urge, a felicidade reinventa-se todos os dias e com ela os nossos passos e os nossos anseios. Mas é assim, eu paro agora, de repente, e percebo que não estas. 
Não sei se já estiveste ontem. Ontem é demasiado longe para eu perceber. Demasiado irrelevante para eu me preocupar. Não sei sequer se é bom lembrar-me de ontem. O passado é apenas e só o passado.
  Olho e não te vejo.
A vida é feita de exigências momentâneas. Exigências enormes que abarcam quase tudo o que fazemos, quase tudo o que pensamos. Exigências que se estendem a tudo o que comemos, a tudo o que compramos e a tudo o que sonhamos. Quem exige, eu não sei. Não me pergunto. Ninguém se pergunta. As perguntas apenas consomem sem nada produzir.  
Não estas aqui. Sei que não estás. O meu olhar não te encontra, os meus braços não te tocam,  e  há um silêncio que devagarinho se vai acomodando.
Ninguém precisa de silêncio. A vida é para se cumprir em cada um dos instantes que se agarram às mãos cheias. São instantes que se transformam rapidamente em sucesso visível, para que a existência seja toda ela, um êxito.  
Continuo parada. Não posso estar parada. Preciso de continuar. Mas é o medo sabes. Um medo aquoso e frio que me atravessa todo este dia
É a tua ausência. Debruço-me sobre ela e tenho muito medo!


Pintura  liquida de Pery Burg


sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Absoluto




Despedi-me do mundo, das coisas, dos acenos e das respostas e entrei.
A casa pareceu-me o absoluto.
Se felicidade houvesse, ela estaria toda ali, entre as linhas paralelas das portas abertas e as perpendiculares desenhadas na janela curta  ao fundo da cozinha.
Lá em baixo o saguão transpirava.
Ouvia-se a transpiração do saguão e um arfar contínuo das paredes que se comprimiam em redo  do espaço cerrado.
Era de facto, o absoluto. Ou então, o mais parecido com o absoluto.
 Um mar de respostas adormecia em cada um espaços, côncavos, deste lugar.
 Nenhuma abertura e nenhuma paisagem.
Sentei-me de costas e comecei então a perguntar-me…


Fotografia de Ben Goossens



quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Flôr de jasmim


Adormeci por debaixo da tua ousadia.
O espanto acobertou-me os olhos, as angústias e o lugar.
Debruçado na sombra de um infinito que desconheço, imagino apenas que amanhã farei um castelo de espuma na beira do teu sorriso
E depois, levá-lo-ei  embrulhado numa flor de jasmim ao lugar de um  céu.


Quadro de Rafal Olbinski

domingo, 14 de julho de 2019

Pudesse eu ser mulher




Deram-me o espaço e o tempo. E,  as portas abertas para lugar nenhum.
Deram-me janelas, completamente desertas.
Depois, deram-me as horas, todas as horas que eu quisesse, para poder pensar e  um rosto pálido, descolorido, de tanta ausência.

A espaços, cederam -me  bocadinhos de vida. Creio que de alguém…Nem eu sei.  
Eram retalhos coloridos que  encaixava, meticulosamente, entre os minutos de todas essas horas. A segundos, por vezes, das recordações.
Como se eu pudesse ter recordações…
Alegrias limitadas e consentidas por ora e,  permanentemente vigiadas.

Alguma vez, se assim fosse, eu começaria lentamente  a construir-me de coisa alguma.
 De sabor, de calor, de barro, de cor, de acontecimentos… Ah, nesse dia, eu saberia: seria então, mulher!
As minhas janelas teriam vista de horizonte. Seriam  janelas abertas para prados  de mar e lagos de erva-doce.
As minhas portas cheias de gente.
Um dia…pudesse eu ser mulher!

imagem: mural de rua na cidade de São Paulo, Brasil,  da autoria de Nina Pandolfo

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Decidira-se a permanecer

 




Sentara-se naquele lugar havia tanto tempo…
Ninguém lhe tinha dito que havia um momento próprio para sair,  um tempo correcto de abandonar.
O lugar parecera-lhe imenso, com espaço para o resto de quase tudo o que já sonhara,  o resto de quase tudo o que ainda não vivera.
Sentado, as mãos caídas no colo, o olhar absorto, o mundo algures e esse único lugar…Quem sabe, uma pequena conquista ao infinito.
Não passara por ali ninguém. Nem o tempo, nem nenhum outro espaço, nem sequer a sombra de um silêncio ou de um  murmúrio…as mãos caídas no colo, o olhar vazio.
Sentara-se  por uma única razão: decidira-se  a permanecer

Quadro:  "Cadeira com cachimbo" de Van Gogh

sábado, 6 de julho de 2019

Unicornio Azul






Quantos unicórnios azuis com asas
Que dão as mãos ao infinito
E aconchegam em  abraço a dor de alguém?

Quantos unicórnios azuis
que lavam  as penas e sacodem  o vento
E inventam o riso 

Socalco de um  meio de dia que não acaba…
Nunca  mais acaba esse meio de dia.

Quantos unicórnios azuis encostados devagar à tua cara de anjo?

E o meu segredo
de te saber assim,
outra vez,
tão perto de Deus

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Vazio



Vazio

Encostei devagar a minha urgência ao vazio.  Acomodando o rosto, o resto e essa  parte de mim de que mal me lembrava.
O vazio, apesar de tudo, tinha esquinas inundadas de grandes e pequenos espaços.  De grandes e pequenos ângulos feitos de intensas oscilações acústicas que nasceram num momento qualquer, num dado instante ou, quem sabe, de um não lugar situado muito para lá da minha imaginação.
À roda do vazio, naturalmente, não havia mais do que apenas eu.
Eu e os meus  pequenos ombros, a minha cabeça finita, o corpo que se aquietava quase sem sentido.
O desamparo  era visível e a existência  quase nula.
Deixei-me ficar pelo  tempo todo que se passou. Um conjunto de horas imprecisas, de minutos apressados. Senti, por isso mesmo,  o desamparo de que é feito o vazio. O silêncio que o completa , a imensa desventura  e o tédio que o acompanham.
Não sei sequer se  foi por  um único acaso que eu  me encostei assim…
Do vazio  não retive nenhum produto, nenhuma lembrança,  absolutamente nada.