segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020
Flor
Flor foi a sílaba que escolheste para me oferecer na primeira noite que passei encostada ao teu umbral.
É uma sílaba plena, disseste-me. Sozinha transporta com ela o cheiro intenso de um cravo, a beleza de uma gardénia que se embebeda de sol. Uma única sílaba e contém em si toda a simetria do universo, nunca a percas, pode ser o início de um grande e belo poema.
Peguei na sílaba flor e metia-a no bolso.
Reparei qu8e me olhava estupefacto.
-No bolso? Meteste a sílaba flor no bolso?
Envergonhado, retirei-a já um pouco amachucada. Pegaste nela e com todo o cuidado começaste a alisar -lhe a parte de cima do F, a ajustar o L, a contornar com força o O, a endireitar o R...
- Se não cuidas dela, ela vai-se. E depois, como consegues tu dizer que algum pássaro algum dia lhe pousou? Como podes tu dizer que alguma amontanha se vestiu dela? Que alguém a colheu ao passar...É impossível imaginar uma série infinita de poemas sem uma flor.
Sem uma única sílaba e o universo poderia ficar irremediavelmente coxo.
Imagem: "Mulher-flor " de Pablo Picasso
domingo, 2 de fevereiro de 2020
A casa Amarela
A casa era amarela.
Amarela de sol e de luz, que lhe entrava de rompante e se acomodava por todo o dia. Por instantes, a casa embalava-nos as fantasias, balançava-nos a imaginação. Deixava-nos escorregar os sonhos por entre os corredores e a sombra frondosa das palmeiras do jardim.
A casa amarela era uma casa grande e cheia. Ocupava lugar de destaque Todos os recantos estavam repletos. Da cozinha, à sala. Das traseiras, à memória
in " São Martinho do Porto"
Momentos
Imagem: La fenêtre chez Bataille Vincente Van Gogh 1887
terça-feira, 24 de dezembro de 2019
Boas Festas
Boas festas a todos os que visitam este espaço. Com os votos de que o novo ano vos traga saúde e muita LUZ
sexta-feira, 8 de novembro de 2019
Recta Absoluta
Devagarinho, acomodou-se ao nicho. As pernas de encontro ao queixo, no único lugar que lhe permitiria permanecer, até que a luz o invadisse de novo.
Toda a noite as badaladas ecoaram um sibilante: tzim tzum, tzim tzum, tzim tzum sem que uma única fresta lhe traçasse um caminho.
Seria qualquer um, esse caminho, menos o da escuridão… Tizm tzum, tzim tzum, tzimtzum
Adormeceu algures entre a terra, o seu coração e a eternidade, embalado pela branda presença do som que lhe lembrava um outro amanhecer.Quando acordou, reparou que a única porta fechada lhe estendia uma recta absoluta. Com os olhos semiabertos, decidiu-se então começar a caminhar.
Imagem: Quadro de nadir Afonso
terça-feira, 15 de outubro de 2019
Naufragio
Comecei a navegar pelas bordas da tua urgência, devagarinho e com terra à vista. Depois, fui percebendo que é sem pé que se alcança a ternura e que o fundo do mar e o fundo da terra são um e o mesmo lugar.
Parti porque havia vento e havia uma saudade imensa de horizonte.
Parti porque me esqueci de tudo o que nunca aconteceu e ontem, me parece agora, apenas um lugar amanhecido no fundo de um frasco de vidro baço.
Parti porque o sol me desdenhou sempre e de todas as vezes que se encostou à curva da minha lonjura.
Desde ontem que navego e não vejo senão horizonte. Um mar que me serpenteia entre os anseios e ninguém. Um mar que me serpentei entre as recordações e ninguém. E o espanto atravessado na crista de cada uma das ondas que procuram um lugar.
Desde ontem que navego e não sei se algum dia aportarei.
Imagem: "La radeau de la meduse" de Theodore Gericault
sexta-feira, 13 de setembro de 2019
Debruço me sobre a tua ausência e tenho medo
Paro de repente e percebo que não estas.
Ninguém pode parar assim, de repente porque tempo urge, a felicidade reinventa-se todos os dias e com ela os nossos passos e os nossos anseios. Mas é assim, eu paro agora, de repente, e percebo que não estas.
Não sei se já estiveste ontem. Ontem é demasiado longe para eu perceber. Demasiado irrelevante para eu me preocupar. Não sei sequer se é bom lembrar-me de ontem. O passado é apenas e só o passado.
Olho e não te vejo.
A vida é feita de exigências momentâneas. Exigências enormes que abarcam quase tudo o que fazemos, quase tudo o que pensamos. Exigências que se estendem a tudo o que comemos, a tudo o que compramos e a tudo o que sonhamos. Quem exige, eu não sei. Não me pergunto. Ninguém se pergunta. As perguntas apenas consomem sem nada produzir.
Não estas aqui. Sei que não estás. O meu olhar não te encontra, os meus braços não te tocam, e há um silêncio que devagarinho se vai acomodando.
Ninguém precisa de silêncio. A vida é para se cumprir em cada um dos instantes que se agarram às mãos cheias. São instantes que se transformam rapidamente em sucesso visível, para que a existência seja toda ela, um êxito.
Continuo parada. Não posso estar parada. Preciso de continuar. Mas é o medo sabes. Um medo aquoso e frio que me atravessa todo este dia
É a tua ausência. Debruço-me sobre ela e tenho muito medo!
Pintura liquida de Pery Burg
sexta-feira, 6 de setembro de 2019
Absoluto
Despedi-me do mundo, das coisas, dos acenos e das respostas e entrei.
A casa pareceu-me o absoluto.
Se felicidade houvesse, ela estaria toda ali, entre as linhas paralelas das portas abertas e as perpendiculares desenhadas na janela curta ao fundo da cozinha.
Lá em baixo o saguão transpirava.
Ouvia-se a transpiração do saguão e um arfar contínuo das paredes que se comprimiam em redo do espaço cerrado.
Era de facto, o absoluto. Ou então, o mais parecido com o absoluto.
Um mar de respostas adormecia em cada um espaços, côncavos, deste lugar.
Nenhuma abertura e nenhuma paisagem.
Sentei-me de costas e comecei então a perguntar-me…
Fotografia de Ben Goossens
quarta-feira, 28 de agosto de 2019
Flôr de jasmim
Adormeci por debaixo da tua ousadia.
O espanto acobertou-me os olhos, as angústias e o lugar.
Debruçado na sombra de um infinito que desconheço, imagino apenas que amanhã farei um castelo de espuma na beira do teu sorriso
E depois, levá-lo-ei embrulhado numa flor de jasmim ao lugar de um céu.
Quadro de Rafal Olbinski
domingo, 14 de julho de 2019
Pudesse eu ser mulher
Deram-me o espaço e o tempo. E, as portas abertas para lugar nenhum.
Deram-me janelas, completamente desertas.
Depois, deram-me as horas, todas as horas que eu quisesse, para poder pensar e um rosto pálido, descolorido, de tanta ausência.
A espaços, cederam -me bocadinhos de vida. Creio que de alguém…Nem eu sei.
Eram retalhos coloridos que encaixava, meticulosamente, entre os minutos de todas essas horas. A segundos, por vezes, das recordações.
Como se eu pudesse ter recordações…
Alegrias limitadas e consentidas por ora e, permanentemente vigiadas.
Alguma vez, se assim fosse, eu começaria lentamente a construir-me de coisa alguma.
De sabor, de calor, de barro, de cor, de acontecimentos… Ah, nesse dia, eu saberia: seria então, mulher!
As minhas janelas teriam vista de horizonte. Seriam janelas abertas para prados de mar e lagos de erva-doce.
As minhas portas cheias de gente.
Um dia…pudesse eu ser mulher!
imagem: mural de rua na cidade de São Paulo, Brasil, da autoria de Nina Pandolfo
segunda-feira, 8 de julho de 2019
Decidira-se a permanecer
Sentara-se naquele lugar havia tanto tempo…
Ninguém lhe tinha dito que havia um momento próprio para sair, um tempo correcto de abandonar.
O lugar parecera-lhe imenso, com espaço para o resto de quase tudo o que já sonhara, o resto de quase tudo o que ainda não vivera.
Sentado, as mãos caídas no colo, o olhar absorto, o mundo algures e esse único lugar…Quem sabe, uma pequena conquista ao infinito.
Não passara por ali ninguém. Nem o tempo, nem nenhum outro espaço, nem sequer a sombra de um silêncio ou de um murmúrio…as mãos caídas no colo, o olhar vazio.
Sentara-se por uma única razão: decidira-se a permanecer
Quadro: "Cadeira com cachimbo" de Van Gogh
Ninguém lhe tinha dito que havia um momento próprio para sair, um tempo correcto de abandonar.
O lugar parecera-lhe imenso, com espaço para o resto de quase tudo o que já sonhara, o resto de quase tudo o que ainda não vivera.
Sentado, as mãos caídas no colo, o olhar absorto, o mundo algures e esse único lugar…Quem sabe, uma pequena conquista ao infinito.
Não passara por ali ninguém. Nem o tempo, nem nenhum outro espaço, nem sequer a sombra de um silêncio ou de um murmúrio…as mãos caídas no colo, o olhar vazio.
Sentara-se por uma única razão: decidira-se a permanecer
Quadro: "Cadeira com cachimbo" de Van Gogh
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