sábado, 25 de maio de 2019

Ontem foi só um pormenor





Ontem, foi só um pormenor.
O tempo tinha escorrido depressa na véspera. Muitas horas acotoveladas ao silêncio e uma madrugada rara de aroma a nunca mais.
Se te tivesse dito  tudo que voltaria a ser como antes não terias acreditado. Por isso, segurei-te só devagar os ombros e balancei-os para a frente e para trás durante um exacto minuto.
Quase me seguras-te a mão.
Quase me sussurras-te
Quase me prendeste o cabelo entre os teus dedos… E vento levou de repente o único lugar de espanto: um brevíssimo segundo de que nos esquecêramos, sabe-se lá porquê…

Quadro  de Kathleen Patrick 

quarta-feira, 1 de maio de 2019

A porta do teu lugar




A porta do teu lugar abriu-se com estrondo. Lá dentro, um rasgo e um grito. Um mar de sombras pasmado e um segredo.
Entrei de rompante, segurei   as  abas prenhes do  teu pensamento  e, por causa de quase nada, deixei-me então ficar.
O balanço e a quietude do lugar, desse   teu lugar, aqueceu-me  o meu silêncio  e destemperou-me o passo. A ponto de nunca mais ter franqueado a porta. Pareceu-me inútil o pormenor de saída. 


Quadro- "Masters Musical Beginnings" de FREDO - Fernando de Jesus Oliveira

sábado, 27 de abril de 2019

O olhar




Espanta-me que não consigas ver sequer o meu olhar…
Um olhar desmesuradamente manso e sem infinito. Como se o lugar se espremesse todo para dentro e arrasta-se com ele as ideias, as lembranças, as possibilidades e o rasto do horizonte.
Lá longe, muito para lá da iris que  certamente também não vislumbras,  acomodado está todo o meu silêncio.
Não vês o olhar, não vês a iris, nem sequer a mácula que transporto  imutável desde o dia em que nasci. 
Sei que por isso, nunca mais me amanhecerei e isso basta-me.
Sei  ainda que tu nunca irás entardecer e isso conforta-me.

sábado, 13 de abril de 2019

Quiosque amarelo



Desceu a par e passo até ao largo, inundado de luz e pespontado a quiosque amarelo.
Comprou o jornal dessa manha e embrulhou meticulosamente com ele, o olhar. Depois, dirigiu-se às margens que lhe sulcavam devagarinho o espanto. E só aí, se desaguou em foz.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Templo de Palavras



Encostei-me outra noite ao teu umbral a ver como separavas devagarinho as sílabas e as embalavas no colo. Depois, quando as sentias completamente reconfortadas, arrumava-las em caixinhas coloridas. Uma caixa para as sílabas tónicas, outra caixa para os monossílabos.  Duas caixas, de maior dimensão, para os polissílabos. Uma passa as mais leves e outra para as mais pesadas.
as tuas sílabas eram, na sua maioria, sílabas muito breves. Com um corpo pequeno e uma existência curta. Não queriam dizer, por si mesmas, quase nada. Limitavam-se por isso a existir, assim desalinhadas, tombadas, de braços abertos no teu colo enquanto tu, meticulosamente as separavas. (...)
Flor foi a sílaba que escolheste para me oferecer na primeira noite que passei encostado ao teu umbral (...)
Amanhã, quando madrugar, abrirás a porta.
Eu serei muito mais eu
E tu, tu serás uma vez mais o templo de palavras.

 Epilogo In "Templo de palavras"  Editorial Minerva Março de 2019

sexta-feira, 29 de março de 2019

Exposição de Pintura de Pedro Charters D´Azevedo


Aceitei o desafio de apresentar a exposição do Pedro Charters D`Azevedo. Os quadros são magníficos.
Estão todos convidados.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Amanhã, será para sempre




Espera. Não me entres de supetão. Não me entres…
A porta, tu sabes, está sempre semicerrada, não vá teres que vir, devagarinho, a fazeres de conta que não é nada… Só um instante, uma hora, um espaço pequenino por entre os ponteiros do teu relógio…
O tempo, tu és o tempo eu sei. És todo o tempo, por inteiro. Trazes contigo uma máquina infernal que me tritura os passos, me absorve a lonjura, me desagrega.
Quero urgência por vezes, eu sei disso, mas apenas de porta fechada.
Não te deixo passar. Não forces… Não implores. Eu não te deixo passar
Aqui não tens lugar.
Livra-te de me atravessares a existência nem em passinhos miudinhos.
Detrás do sofá da sala há um relógio de cuco sem asas, sem voz, sem mecanismo.
Tudo para que não te chegues a mim.
Quero acreditar que amanhã, amanhã, será para sempre…




sexta-feira, 12 de outubro de 2018

II Bienal de artes plásticas e literatura CPLP/ Galiza

Foi com muito gosto que aceitei o convite para estar presente amanhã, dia 13 de Outubro na II Bienal de artes plásticas e Literatura CPLP/ Galiza.

A todos quantos me honram com a sua passagem por este espaço, convido desde já a estarem presentes.
Iremos debater a literatura, a sua diversidade e as possibilidades múltiplas de partilha no espaço lusófono. Dar palavra aos poetas, chamar ao palco o acto criativo, no espaço privilegiado do Mosteiro da Batalha.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Colisão




Acordei a pensar que o mundo era finito, hoje. Tudo acabaria, num passe de mágica , ao nascer, ou ao romper da aurora.
Restaria depois disso, o lugar vazio e mais nenhum tempo.
E espaço outrora ocupado por coisas inertes e mais nenhum sonho.
Estiquei -me para fora da janela a ver passar quem ainda passava e, a pensar que daqui a nada ou daqui a tanto,  é indiferente, seria só o fumo dos corpos  e o espaço dos passos a desabitar este lugar.
Como se a vida se tivesse desnorteado de repente e não soubesse muito bem para onde ir.
Estiquei-me mais para fora da janela, os braços nus pendurados no abismo e os olhos  a dançar ao compasso do vento.
 Daqui a nada ou, daqui a tanto, não seria preciso esticar-me para fora da janela.  Haveria nessa altura  um enorme fora, efectivamente. No entanto, nenhum dentro.
Um a um, contei os transeuntes que restavam na rua a passearem como formigas num carreiro e gritei-lhes e lancei-lhes uma corda…


Fotografia : LHC - the large Hadron Collider