segunda-feira, 8 de abril de 2019

Templo de Palavras



Encostei-me outra noite ao teu umbral a ver como separavas devagarinho as sílabas e as embalavas no colo. Depois, quando as sentias completamente reconfortadas, arrumava-las em caixinhas coloridas. Uma caixa para as sílabas tónicas, outra caixa para os monossílabos.  Duas caixas, de maior dimensão, para os polissílabos. Uma passa as mais leves e outra para as mais pesadas.
as tuas sílabas eram, na sua maioria, sílabas muito breves. Com um corpo pequeno e uma existência curta. Não queriam dizer, por si mesmas, quase nada. Limitavam-se por isso a existir, assim desalinhadas, tombadas, de braços abertos no teu colo enquanto tu, meticulosamente as separavas. (...)
Flor foi a sílaba que escolheste para me oferecer na primeira noite que passei encostado ao teu umbral (...)
Amanhã, quando madrugar, abrirás a porta.
Eu serei muito mais eu
E tu, tu serás uma vez mais o templo de palavras.

 Epilogo In "Templo de palavras"  Editorial Minerva Março de 2019

sexta-feira, 29 de março de 2019

Exposição de Pintura de Pedro Charters D´Azevedo


Aceitei o desafio de apresentar a exposição do Pedro Charters D`Azevedo. Os quadros são magníficos.
Estão todos convidados.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Amanhã, será para sempre




Espera. Não me entres de supetão. Não me entres…
A porta, tu sabes, está sempre semicerrada, não vá teres que vir, devagarinho, a fazeres de conta que não é nada… Só um instante, uma hora, um espaço pequenino por entre os ponteiros do teu relógio…
O tempo, tu és o tempo eu sei. És todo o tempo, por inteiro. Trazes contigo uma máquina infernal que me tritura os passos, me absorve a lonjura, me desagrega.
Quero urgência por vezes, eu sei disso, mas apenas de porta fechada.
Não te deixo passar. Não forces… Não implores. Eu não te deixo passar
Aqui não tens lugar.
Livra-te de me atravessares a existência nem em passinhos miudinhos.
Detrás do sofá da sala há um relógio de cuco sem asas, sem voz, sem mecanismo.
Tudo para que não te chegues a mim.
Quero acreditar que amanhã, amanhã, será para sempre…




sexta-feira, 12 de outubro de 2018

II Bienal de artes plásticas e literatura CPLP/ Galiza

Foi com muito gosto que aceitei o convite para estar presente amanhã, dia 13 de Outubro na II Bienal de artes plásticas e Literatura CPLP/ Galiza.

A todos quantos me honram com a sua passagem por este espaço, convido desde já a estarem presentes.
Iremos debater a literatura, a sua diversidade e as possibilidades múltiplas de partilha no espaço lusófono. Dar palavra aos poetas, chamar ao palco o acto criativo, no espaço privilegiado do Mosteiro da Batalha.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Colisão




Acordei a pensar que o mundo era finito, hoje. Tudo acabaria, num passe de mágica , ao nascer, ou ao romper da aurora.
Restaria depois disso, o lugar vazio e mais nenhum tempo.
E espaço outrora ocupado por coisas inertes e mais nenhum sonho.
Estiquei -me para fora da janela a ver passar quem ainda passava e, a pensar que daqui a nada ou daqui a tanto,  é indiferente, seria só o fumo dos corpos  e o espaço dos passos a desabitar este lugar.
Como se a vida se tivesse desnorteado de repente e não soubesse muito bem para onde ir.
Estiquei-me mais para fora da janela, os braços nus pendurados no abismo e os olhos  a dançar ao compasso do vento.
 Daqui a nada ou, daqui a tanto, não seria preciso esticar-me para fora da janela.  Haveria nessa altura  um enorme fora, efectivamente. No entanto, nenhum dentro.
Um a um, contei os transeuntes que restavam na rua a passearem como formigas num carreiro e gritei-lhes e lancei-lhes uma corda…


Fotografia : LHC - the large Hadron Collider

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Umbral


Encostei-me ao teu umbral. Mesmo sem saber se a tua existência era agora ampla ou, se a porta da tua vida permanecia como sempre, aberta.
Lembrei-me só, de que havia uma largueza quando se chegava. Uma largueza de escadas, de hall de entrada a cheirar a fruta da época.  Uma largueza da cor da fruta da época, tombada em matizes de maturação nesse teu lugar.
Nunca me imaginei assim, acredita, encostada ao teu umbral.
Ergui os olhos e percebi,  que não havia  chuva nem sangue, nem a cor pálida do teu silêncio. Só um naufrágio amendoado de corpos que ficam, que se deixam ficar e  que não permite tudo.
O travesseiro atravessava-me o pescoço e prendia-me a respiração. Do lado de lá, vi que permanecias.  Permanecias no teu lugar exíguo, com vista inteira para o saguão... (...)

sábado, 12 de maio de 2018

Transparece-me

 

Transparece-me
De urgência e de luar
Do tamanho do meu e do teu infinito,
Na minha imagem tão crua.
Transparece-me de amargura,
De nome,
De um véu que me despe inteira,
A rasar esta planura.
Se um dia eu alvorecer transparece-me da noite,
Vil e escura.
Se um dia eu alvorecer...

A minha transparência será tua.


Imagem: Escultura de Jack Storms

quarta-feira, 28 de março de 2018

Festival Internacional de Poesia "Grito de Mulher"


É com muito gosto que participarei mais uma vez no Festival Internacional de Poesia "Grito de Mulher"
Sintam-se convidados. Terei muito gosto que apareçam e promete ser  uma boa jornada de poesia.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Transparente






Primeiro foram os contornos do rosto a esbaterem-se logo seguidos do inconsciente.
Ainda havia pernas, braços e uma vaga ideia de pestanas e, já nada se vislumbrava do inconsciente…Só uma névoa a lembrar um episódio remoto ou uma ideia que outrora tinha sido fixa.
O medo, a morte, a vida, a criatividade e a urgência teriam que brotar agora dos dedos dos pés, do lugar recôndito das virilhas entrelaçadas aos tendões, das dobras dos cotovelos que se faziam espuma tão mas tão,  depressa…
Fosse como fosse, dentro de muito pouco tempo nada restaria. Pelo menos, nada que se visse.



Fotografia: Mornaria