sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016
Em suspensão
Atravessou toda sua a inconstância, em passos miudinhos, do início até ao fim.
Para trás, tinha deixado o seu próprio disfarce, escrito ainda em passos indecisos e um pequeno raio de sol.
As nuvens baixas, não lhe tocaram sequer os passos. E a música, essa, soletrava-se de memória de cada vez que o vento o empurrava para a frente.
Em baixo, sempre o soubera, não haveria nem distância, nem paisagem, nem sequer um único lugar. Só a velocidade turva das vidas, em permanente desequilíbrio…
Na imagem: "Funambulo" de Fernando de la Jara
quarta-feira, 25 de novembro de 2015
segunda-feira, 9 de novembro de 2015
Passos
Digo-te passos
Enquanto palavras rolam no chão.
Digo-te movimentos
Sopros do impossível.
Passo,
Tu passas
Nos nós silenciosos
(escuro dos olhos)
Há os teus medos inoportunos
A galgarem as manhãs.
Filipa Vera Jardim in "II Antologia de Poesia Contemporânea" coordenada por Luís Filipe Soares, Lisboa, 1985
(fotografia retirada da internet)
segunda-feira, 26 de outubro de 2015
Absoltuto
Quantas vezes posicionarão eles o infinito, para que o meu
luar, seja realmente eterno?
Sentou-se de pernas cruzadas e desenhou um x, no lugar onde o mundo, sendo uno, se vestia agora de lua nova e percebeu que ninguém poderia ser excluído. Absolutamente ninguém. Nem a sua própria identidade, fosse como fosse.
Para isso, bastaria apenas que cada um dos deuses, se e absolutamente se… pronunciasse.
(a fotografia foi tirada da internet)
Sentou-se de pernas cruzadas e desenhou um x, no lugar onde o mundo, sendo uno, se vestia agora de lua nova e percebeu que ninguém poderia ser excluído. Absolutamente ninguém. Nem a sua própria identidade, fosse como fosse.
Para isso, bastaria apenas que cada um dos deuses, se e absolutamente se… pronunciasse.
(a fotografia foi tirada da internet)
terça-feira, 20 de outubro de 2015
segunda-feira, 12 de outubro de 2015
Limite
Viverei no único lugar que não tenha raízes, nem terra, nem braços de árvores sibilantes, nem colinas desvairadas à procura de um caminho.
Viverei no único lugar que não tenha caminho. Somente permanência,… Feita de ondas temperadas, em cadência firme, de vento de abraço e de sopro de mar.
(´Fotografia de André Boto)
quarta-feira, 7 de outubro de 2015
Se um dia me perder
Se um dia me perder,
Remetam-me em viagem,
A mim, que ainda não me sei.
Se um dia me perder,
Porque a seu tempo…...
Eu me acharei.
Remetam-me em viagem,
A mim, que ainda não me sei.
Se um dia me perder,
Porque a seu tempo…...
Eu me acharei.
Filipa Vera Jardim.
(na fotografia, algumas das 5500 crianças austríacas, refugiadas de guerra, acolhidas em Portugal entre 1947 e 1952 ao abrigo do programa da Cáritas)
(na fotografia, algumas das 5500 crianças austríacas, refugiadas de guerra, acolhidas em Portugal entre 1947 e 1952 ao abrigo do programa da Cáritas)
segunda-feira, 28 de setembro de 2015
Álvaro Lesma
Álvaro Lesma
O Sr. Álvaro Lesma
Morador num rés de chão,
Da rua da Consolação,
Ataviado em desgraça,
De sorriso miudinho,
Atreveu-se dizer a medo
Muito a medo e devagarinho,
Ao vizinho,
Político de profissão:
Olhe que mais… também não!
Não? Mas é dia de eleição!
Rosna o político convicto,
Do alto do patamar:
Marche Lesma, que por hora
Só lhe prometo desventura.
Um dia, quem sabe,
Dou-lhe o troco,
Da minha bica lambida,
E do meu pastel de feijão.
Verga-se o Lesma, choroso
Com o lencinho dobrado,
Os números todos decorados,
O fiscal,
O de pobrezinho,
O da fila dos remédios,
O de senha de contenção
O do dia da eleição…
Olhe que mais…também não!
Não?
Ai Lesma que me desgraça…
Não seja por sua graça,
Como me remedeio eu?
Ande lá com o papelinho,
Prometo-lhe eu, um tachinho,
Uma panela que seja,
O anel da sua Engrácia,
Quem sabe…
Uma devolução!
E o Lesma todo curvado,
O sorriso miudinho,
Em artes de gingão,
Diz-lhe de lá muito ufano:
Votar eu voto...
Mas só com uma condição:
Trocamos já de morada
Desce o vizinho, subo eu,
Até à próxima eleição!
Filipa Vera Jardim
(Ilustração de Raphael Bordalo Pinheiro)
sábado, 19 de setembro de 2015
Uma metade de infinito
Encostou-se devagarinho ao muro de pedra.
Do lado de lá uma metade de infinito, escorregava devagarinho pelo horizonte.
Do lado de cá, nunca o quisera admitir, mas uma mesmíssima metade de infinito escorregava devagarinho, pelo horizonte.
Encostou-se ao muro, a contar as brisas, que inevitavelmente o transformariam em pó.
Ficaria por pelo menos cinco mil anos…O tempo de se esquecer dos infinitos e dos horizontes.
O tempo de nunca mais se recordar que ali, tinha havido um muro.
O tempo de erguer um outro muro e, ter a certeza absoluta, que do lado de lá, haveria pelo menos uma metade de infinito a escorregar pelo horizonte…
Do lado de lá uma metade de infinito, escorregava devagarinho pelo horizonte.
Do lado de cá, nunca o quisera admitir, mas uma mesmíssima metade de infinito escorregava devagarinho, pelo horizonte.
Encostou-se ao muro, a contar as brisas, que inevitavelmente o transformariam em pó.
Ficaria por pelo menos cinco mil anos…O tempo de se esquecer dos infinitos e dos horizontes.
O tempo de nunca mais se recordar que ali, tinha havido um muro.
O tempo de erguer um outro muro e, ter a certeza absoluta, que do lado de lá, haveria pelo menos uma metade de infinito a escorregar pelo horizonte…
(na fotografia a escultura KRIPTOS de Jim Sanborn)
terça-feira, 15 de setembro de 2015
Terra entornada
Que De vez em quando a minha casa era a terra,
De quando em vez a minha terra era a lua.
Umas vezes a minha casa foi minha,
Das outras, era só uma linha,
De chegada por ser tão minha,
De partida, por ser a tua.
O chão que habitámos já não existe,
Só um cenário oblíquo de ar.
Janelas cerradas à paisagem,
Da minha terra,
Que se entornou no mar.
De quando em vez a minha terra era a lua.
Umas vezes a minha casa foi minha,
Das outras, era só uma linha,
De chegada por ser tão minha,
De partida, por ser a tua.
O chão que habitámos já não existe,
Só um cenário oblíquo de ar.
Janelas cerradas à paisagem,
Da minha terra,
Que se entornou no mar.
Na imagem, passaporte da United Nations Relief and Rehabilitation Administration UNRRA, de 1909)
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