segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Álvaro Lesma


Álvaro Lesma

O Sr. Álvaro Lesma
Morador num rés de chão,
Da rua da Consolação,
Ataviado em desgraça,
De sorriso miudinho,
Atreveu-se dizer a medo
Muito a medo e devagarinho,
Ao vizinho,
Político de profissão:
Olhe que mais… também não!

Não? Mas é dia de eleição!
Rosna o político convicto,
Do alto do patamar:
Marche Lesma, que por hora
Só lhe prometo desventura.
Um dia, quem sabe,
Dou-lhe o troco,
Da minha bica lambida,
E do meu pastel de feijão.

Verga-se o Lesma, choroso
Com o lencinho dobrado,
Os números todos decorados,
O fiscal,
O de pobrezinho,
O da fila dos remédios,
O de senha de contenção
O do dia da eleição…
Olhe que mais…também não!

Não?
Ai Lesma que me desgraça…
Não seja por sua graça,
Como me remedeio eu?
Ande lá com o papelinho,
Prometo-lhe eu, um tachinho,
Uma panela que seja, 
O anel da sua Engrácia,
Quem sabe…
Uma devolução!

E o Lesma todo curvado,
O sorriso miudinho,
Em artes de gingão,
Diz-lhe de lá muito ufano:
Votar eu voto...
Mas só com uma condição:
Trocamos já de morada
Desce o vizinho, subo eu,
Até à próxima eleição!

Filipa Vera Jardim

(Ilustração de Raphael Bordalo Pinheiro)



sábado, 19 de setembro de 2015

Uma metade de infinito




Encostou-se devagarinho ao muro de pedra.
Do lado de lá uma metade de infinito, escorregava devagarinho pelo horizonte.
Do lado de cá, nunca o quisera admitir, mas uma mesmíssima metade de infinito escorregava devagarinho, pelo horizonte.
Encostou-se ao muro, a contar as brisas, que inevitavelmente o transformariam em pó.
Ficaria por pelo menos cinco mil anos…O tempo de se esquecer dos infinitos e dos horizontes.
O tempo de nunca mais se recordar que ali, tinha havido um muro.
O tempo de erguer um outro muro e, ter a certeza absoluta,  que do lado de lá, haveria pelo menos uma metade de infinito a escorregar pelo horizonte…

(na fotografia a escultura KRIPTOS de Jim Sanborn)

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Terra entornada




Que De vez em quando a minha casa era a terra,
De quando em vez a minha terra era a lua.
Umas vezes a minha casa foi minha,
Das outras, era só uma linha,
De chegada por ser tão minha,
De partida, por ser a tua.
O chão que habitámos já não existe,
Só um cenário oblíquo de ar.
Janelas cerradas à paisagem,
Da minha terra,
Que se entornou no mar.


Na imagem, passaporte da United Nations Relief and Rehabilitation Administration UNRRA, de 1909)

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Loucos

(imagem do filme "Voando sobre um ninho de cucos" )


Loucos vimos ao mundo,
E loucos nos deixamos estar.
Mundo que roda sem nexo
E nada o pode parar.
Num eixo vê-se a inconstância,
A avareza e a luxúria,
Penduradas pela anca,
Ao manso corcel de um lampejo,
De quem não tem a certeza,
Nem nunca sabe de cor,
De quem não se passa por si,
Nem pesponta nada, de amor.
De quem numa bandeja se lava,
Em restos de razão maior,
E se vende à beira da estrada,
A quem lhe paga melhor.

Loucos vimos ao mundo,
E loucos, nos deixamos estar.
Sentados sem beira de nada,
Nem eira que nos faça vibrar.
Agarrados às bordas da vida,
Entornados num alguidar,
O que nos cabe afinal…
Dos donos do que resta aqui,
E que por serem reis deste mundo
E de tudo o que mais se avistar,
Só têm uma certeza:
Que nos mandam naufragar!

Loucos vimos ao mundo,
Tão loucos que de sermos tantos,
Fingimos ser sempre ser tão poucos,
Os mesmos…
Sempre os mesmos,
Loucos!

Filipa Vera Jardim


segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Por onde me naufragar




Esperei que o rio me lavasse os sonhos.
O rio lavou-me todos os sonhos.
Lavou-me até o tempo, que eu esperei, para que o rio me lavasse os sonhos.
Lavou-me de cima abaixo o tempo, os sonhos, e o resto o rio deixou muito bem ensaboado.
Não fosse o rio, numa gargalhada a escorrer quase até ao final, tal a lonjura do mar… E eu não saberia sequer, por onde me naufragar.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Zalala 2015



A honra de participar em mais uma publicação do Círculo de escritores Moçambicanos na Diáspora - Zalala 2015.




(Zalala fica na  região da Zambézia, em Moçambique. Conhecida pela sua praia de grande beleza)

sábado, 18 de julho de 2015

Senti-me gota



Nasci em rio e riso. A correr de margem em margem.
Sorviam-se os olhos aquosos,  à passagem célere.
Sabia-me tanto a fresco.
Debrucei-me...e vi-me enroscada no caudal. Aconchegante.
A viagem, espiralou-se, até  onde me parecia que  infinito podia esconder-se todo, num único copo transparente.
Sem querer, escorreguei pela canto de uma boca...e senti-me gota.

sábado, 11 de julho de 2015

Maratona Poética - S. Tomé e Príncipe


Com todo o gosto aceitei o desafio - Maratona poética dedicada a São Tomé e Príncipe, amanhã na Casa Internacional de São Tomé e Príncipe.

São Martinho do Porto. Momentos...



«São Martinho do Porto - Momentos...», de Filipa Vera Jardim e Pedro Soares de Mello
«De vez em quando, o apelo do mar era mais forte. Do mar a sério, de cabelo...s ondulados e voz cheia. Não desta mansidão, embalada em concha. Subíamos as dunas ou corríamos até ao fundo do túnel… e era ali que o horizonte se entrecortava por uma ou outra embarcação, dessas que saíam num bordo mais largo, para logo voltarem ao ventre. Ou das outras, que mais longe rumavam a porto incerto. De cada um dos lados, um altar de pedras. À direita, António, padroeiro, exangue. Peito aberto a todas as marés, sem excepção, que lhe roubavam o já ínfimo espaço. À esquerda, Romeu, o viajante, a atravessar-nos os dias de marés que ora rolavam por cima dos seixos, ora se nos enrolavam nas pernas com limos grossos. Do tamanho de árvores, dizia-se, presas num fundo de jardim sem nome. Do padroeiro, António, com altar definido, sabia-se quase tudo. Primeiro, mais acima, na capelinha caiada; depois, ali, onde outrora houvera um outro areal. Desse Romeu, de Julieta errante, pouco se saberia…»