sábado, 11 de outubro de 2014

Penas e pássaros




(…)De repente a mulher que todos os dias me vendia o pão, era uma garça. E por todo o lado só se viam penas e pássaros, penas e pássaros, penas e pássaros.Uma infinidade de penas e de pássaros, numa cidade, que amanhecia a voar.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

CaSO4 + 1/2 H2O



Anunciou ao mundo, que iria escrever a eternidade. Imortaliza-la para sempre. Ou pelo menos, por todo o tempo que se lembrasse.
Ficaria ali, em lugar de destaque Absolutamente, repleta de si.
Susteve a respiração e escreveu:
CaSO4 + 1/2 H2O.

domingo, 31 de agosto de 2014

Brevíssima viagem



Ainda há pouco te dizia...não tem preço esse meu horizonte. Traçado assim, longitudinalmente, à tua brevíssima viagem.



(quadro: "Onemt VI" de Barnett Newman )

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

S. Martinho do Porto






 Captamos a alma de um lugar, quando nos refundimos no seu horizonte

 Vai se hoje,  em S. Martinho do Porto, com o Luís Soares de Mello, para uma conversa de alma.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Beatriz e os cabelos de céu.





Vivem assim, na brevidade do tempo. Curto, para nós que temos tempo. Longo, para eles que sabem da existência e do infinito.
Vivem assim, entre  esta terra  tão agreste, e a possibilidade de estenderem os dedos e puxarem devagarinho os cabelos ao céu.
 Assim que estendem as mãos pequeninas, o céu baixa-se, de repente. Depois divertem-se  a puxar-lhe os cabelos.
Julgo que passam muito tempo, a enrolá-los com as pontas dos dedos. Nos dias piores. Sobretudo, nos dias piores.

Ás vezes damos com eles, entretidos a  pregar os olhos brilhantes, ao fundo da nossa alma.
Não estão ali. Ali, estão só de passagem.
Os olhos é que estão ali, pregados momentaneamente, ao fundo das nossas almas.

Quando partem, é como se nos dissessem  tudo aquilo que já adivinhávamos...somos anjos. Sempre o fomos. Nem por um minuto, alguma vez, deixámos  de o ser.
-Viste? Bastava-me estender as mãos para brincar com os cabelos de céu.
Serenamente, continuarão a fazê-lo.
Só não voltam a pregar os olhos, ao fundo da nossa alma.
Mas basta uma única vez...para perceber porque o fizeram.

domingo, 3 de agosto de 2014

Se o mar se voltar...




Dizem-me que o barco está lá fora, no lago, à espera que o mar não se parta. Que o mar não se volte. Que o traçado de luz lhe indique  a estreiteza do caminho por entre as pedras e os baixios, Até ao noutro lado, feito  espelho  de prata.
Se o mar se voltar, só o mar restará. Se o mar se voltar…


Fotografia: Pedro Soares de Mello

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Em fissura de infinito



Desmembrei-me de todas as curvas da minha vida. Menos de uma: aquela que me pareceu revelar, lá bem no fundo, uma pequeníssima fissura de infinito…
Estreita, é certo. “Entre calada” de muito antes e de tanto porém. Mesmo assim, uma curva com uma pequeníssima fissura de infinito. Aconchegada ao canto supremo do olhar.
Sinfonia com a largura do tempo, pensei eu.
De todo o tempo, que um dia passará a correr, por dentro de mim.
De resto, nada mais haveria nessa paisagem. Feita de rectas. Absolutamente semibreves

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Sem lugar de mim



Deixei os soluços, as lágrimas e o vento que me abraçava a garganta, atrás da porta.
Para dentro, trouxe apenas uma brisa ténue, sem nenhum rasto de mim...
Depois, simplesmente, adormeci.



(o quadro é do pintor Eduardo Naranjo)

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Destino comprado







Compra-se um destino, então.
Um destino grande e transparente.
Viscoso, de corpo inteiro.
Um destino pesado,
De contornos indefinidos.
Que se vira e revira
Rebola, reflecte, transpira.
Um destino de encontro ao vento.
Compra-se um destino então...
Desatado do infinito e levado,
Para sempre,
desde aqui...até á lonjura.

sábado, 28 de junho de 2014

Sussurros na ombreira da porta



As palavras não entravam pela ombreira larga da porta. Apenas os sussurros chegavam, aos pares, encostados ao desencanto desse dia.
-Hoje, não há nada para dizer!
O tempo, nasceu sereno. De sol, de arrepio, de brancura pincelada a azul. Ou de azul, matizado com laivos de ausência…pouco importa.
 O rio correu para lugar algum, durante o espaço que lhe foi permitido. Até alguém se lembrar de o rebocar, envolto numa espécie de neblina, desencontrada das margens e agrafada à força.
A noite, essa, far-se-á  apenas na espera, como todas as noites.
E os sussurros que se acotovelam cada vez em maior número na soleira, a lembrar outros tempos. Tempos de fazer redemoinhar palavras de um lado para o outro.
-Hoje não há nada para dizer!
 Esvai-se apenas, o que resta deste aparo de existência, no que outrora podia parecer o leito de um rio…sílaba a sílaba.