sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

No primeiro côncavo, da sua vida


Vivera uma geometria anexa.
Começara num plano mais ou menos oblíquo, para se tornar aos poucos em linhas. Rectas e horizontais. Dias que começavam num momento e acabavam, sem nenhum sobressalto, no fim do raio. Fosse ele, de que tamanho fosse...
Com o tempo, a perpendicularidade.
Um dia, num acaso, de uma janela mal fechada, a verticalidade a assombrar-lhe, uma nesga de existência.
Construiu alguns cubos, a partir daí. Que guardou sigilosamente, dentro de si.. Paralelepípedos  nos dias sem grande historia e muitos sólidos, ao longo de toda a vida.
Sempre que havia necessidade de construção, reinventava tetraedros.
Só não ousou nunca uma curva.
E agora, que a  história lhe pede...o primeiro côncavo, da sua vida?



sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Na ombreira da sua existência

Poderia ficar assim, indefinidamente, encostado à ombreira da sua existência.
Uma porta entreaberta garantia-lhe alguma paisagem, do que fora, sem que os passos se afligissem  em demasia, na borda do degrau.
Lá dentro, os silêncios eram absolutamente  contornáveis.
Respiravam as janelas, ainda. Uma brisa esquecida, de ontem, no quarto dos fundos. De sempre, na sala que tinha ao canto a mesinha baixa,  com todos os retratos. Lembrava-se de cada um e, eram doze e mais oito.
Doze, do tempo que passara à justa, por sobre a felicidade.
Oito, na medida do esquecimento...
Garantiam-lhe todos os verbos, agora, que mais um passo naqueles degraus e haveria de ser diferente...

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

De costas, num instante, de memória


Havia mundo e havia caminho.
Havia tempo. Todo o tempo, menos aquele instante quase absurdo, em que tinha a certeza,  ela o amara.
Não sabia precisar se durante, se ainda, se quase sempre.
Virou-se de costa e esperou.
Os instantes regressam. Têm que regressar.  Mais não seja, pelas ondas ritmadas da memória.
Saberia chorar um oceano, se preciso fosse. Só por essas ondas, ritmadas, da memória.
Mas não prosseguiria, assim.



sábado, 20 de outubro de 2012

A respirar palavras



Era absolutamente indispensável. Não concebia nenhuma manhã, sem inspirar palavras. Todas as palavras que pudesse.
Nem nenhuma tarde, em que o abdómen não se contraísse, a ponto de deixar sair, em catadupa, as frases. Já construídas, numa digestão lenta, de todas as memórias.
Respirava escrita do nascer do dia, ao ocaso, da sua história.
Tinha sido assim, desde o dia em que nascera. Para espanto d

e todos os que viam os seus ditos e, mesmo os seus pensamentos, serem engolidos, ali mesmo, às golfadas.
Não era preciso muito para inspirar as palavras. Por vezes bastava só isso: a proximidade de um pensamento...

Depois, ia devagarinho, pela sombra dos sorrisos, ou pela contracurva das emoções, de boca entreaberta. E, na quietude que se entardecia, expirava, então...

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

De costas, sem lugar de história


Recordava-se em absoluto que se tinha deitado de frente.
Todos os dias se deitava de frente, para um luar.  E todos os dias, acordava de frente, para o que dele restasse. 
Podia ser um sonho, podia ser uma imagem. Podia ser a necessidade de ausência, que só se encontra, plenamente, no ar leve da madrugada.
Acordava de frente para a madrugada.
Havia restos de noite, que se iam deitar, cheios de histórias. E  luzes, que tremeluziam ainda, à espera do que acontecesse..
Iriam acontecer muitas coisas. No tamanho e,  na proporcionalidade das horas que voam, pelo dia fora. Ou que, simplesmente, se deixam escorregar.
Susteve, por breves instantes a respiração e pensou que se tinha deitado de frente. Era absolutamente inequívoco. E, não obstante,  acordara de costas.
Pela primeira e única vez  na sua vida: tudo o que tinha acontecido e mais ainda, o que iria suceder, estavam confinados ao lugar da ausência...
Só  se rodasse, em meia volta.
Mas o tempo...o tempo não tem metades. Não estanca a meio de um bocado de vida, à espera do outro tanto.
Pensou no pião, que tinha guardado na gaveta da memória e,  lançou-o. Com toda a força,  até ao lugar do coração.
Agora rodopia, entre o que jamais aconteceu e o que,  mesmo sucedendo, nunca lhe servirá de história.

( a imagem é da estátua de Drummond de Andrade, no Rio de Janeiro)


terça-feira, 25 de setembro de 2012

No sétimo degrau a contar do último acontecimento, da sua vida


Desviou-se apenas um milímetro, da curva da porta . Completamente aberta para a existência. E,  sentou-se,  precisamente, no sétimo degrau, a contar do último acontecimento, da sua vida.
Matutou longamente....
O sexto acontecimento estava logo acima, acocorado num degrau,  pleno de água,  que lhe escorria agora,  pelas costas.
Tinha havido pelo menos dois luares e um sol. A somar a quase toda a brisa do mundo. Fora breve? Nem sequer sabia...
Breve era a existência, escancarada, assim, para lugar nenhum.

Do quinto acontecimento, não tinha, sequer memória.
E no quarto, não havia, nenhuma história. Tempos e lugares esparsos. Apenas e só.
Limitou-se a matutar longamente.
O vento, do fim do dia, empurraria com força, a porta. E, faria então, ranger-lhe, os olhos.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Mundo, em trapos de volta redonda


 
Gostaria muito de perceber, onde estaria a bola, redonda de trapos.
Rodara meia vida e mais um tempo, por todos os cantos do quintal.
Um dia, sem nenhum desespero, foi-se...
Ninguém procurou. Nem sequer ninguém teria que procurar.
Ontem, era azul, cosida e recosida, em trapos de volta perfeita.
Hoje, seria certamente, qualquer outra.
O tempo deixara que todas as  perdas se fizessem. Que todas as angústias acontecessem.
No fundo da escada estava uma espécie de mundo redondo. Feito de bocadinhos de acontecimentos. Também eles, cosidos e recosidos.
Tão diferente, da velha bola de trapos...e apesar disso: a mesma.
Parecia-lhe agora que desaguava oceanos, de cada vez que a chutava, com muita mas muita força, para o fundo do quintal...

sábado, 14 de julho de 2012

Existência, num murmúrio, do fundo do coração





  Desenhou uma espiral na entrada da casa.A afunilar, directamente,  à estrada do pensamento.
Não se percebia muito bem da porta, quantos passos se teriam que dar, para ultrapassar toda a realidade, rodar a maçaneta aos sonhos e, desembocar numa passadeira, sem vivalma.
Mandava então parar o tempo, aquietar o espaço e seguia.
A viagem era sempre a da existência. Sem destino preciso e sem direcção definida.
Guiava-o uma bússola, que herdara do seu avô. E um marca-passos, amarelado, de vitrina partida e ponteiros seguros por um elástico, que lhes permitia contar a vida, segundo, a segundo, por uma boa parte da eternidade.
Todos os dias percorria sozinho, uma boa parte da eternidade.
Não havia esperança nem contemplação, na viagem.
As bermas permaneciam inertes e a paisagem, permanentemente  indefinida.
Depois de horas de repensar o que o levava. Passava  outras tantas horas, a ensimesmar-se, sobre o  que o traria.
ainda hesitou, por um dia, desviar-se. A causa, foi um  pequeno murmúrio,  que  pareceu ouvir, do fundo do coração...

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Longe a levaria, o rasto de si





Nada nem ninguém faria prever.
Uma mala pousada à pressa, no chão,  de urze,  da frontaria da casa.
Quase tudo, misturado no amarelo da Primavera. Quase tudo o que lhe acontecera. Década por década.
Quinzena por quinzena, à exaustão do instante.
Tinha dobrado bem a vida.
Vincado os dias de azul. E,  trespassado,  de ponta a ponta, com linha encarnada,  os outros. Esses que fora  cinzelando.
Vivemos sempre entre o azul e  o sombreado. Inequivocamente!
Por vezes- muito poucas essas vezes- em breves instantes de um  tempo. Surpreso e suspenso, que nos deixa  coexistir a amarelo.
Numa ou noutra travessia, podemos fazê-lo em  passos largos, de braços alados ao verde. Mas só, numa ou noutra, pequena, travessia.
A mala levava-se consigo, para muito longe.
Lá, onde não haveria nem tempo,  nem vagar,  para o recordar da memória.
Soariam breves, os passo da viagem. nesse destino ingrato. Trespassado na lonjura maior: o  lugar, onde o silêncio se faz de agruras mal passadas,  e a paisagem se  redesenhada, numa vaga pintura, de um imenso, rasto de si...