quarta-feira, 4 de julho de 2012

Longe a levaria, o rasto de si





Nada nem ninguém faria prever.
Uma mala pousada à pressa, no chão,  de urze,  da frontaria da casa.
Quase tudo, misturado no amarelo da Primavera. Quase tudo o que lhe acontecera. Década por década.
Quinzena por quinzena, à exaustão do instante.
Tinha dobrado bem a vida.
Vincado os dias de azul. E,  trespassado,  de ponta a ponta, com linha encarnada,  os outros. Esses que fora  cinzelando.
Vivemos sempre entre o azul e  o sombreado. Inequivocamente!
Por vezes- muito poucas essas vezes- em breves instantes de um  tempo. Surpreso e suspenso, que nos deixa  coexistir a amarelo.
Numa ou noutra travessia, podemos fazê-lo em  passos largos, de braços alados ao verde. Mas só, numa ou noutra, pequena, travessia.
A mala levava-se consigo, para muito longe.
Lá, onde não haveria nem tempo,  nem vagar,  para o recordar da memória.
Soariam breves, os passo da viagem. nesse destino ingrato. Trespassado na lonjura maior: o  lugar, onde o silêncio se faz de agruras mal passadas,  e a paisagem se  redesenhada, numa vaga pintura, de um imenso, rasto de si...

sábado, 23 de junho de 2012

Ponto Cardeal


 Acostou devagar os olhos, à linha do horizonte.
Um cotovelo apoiado num fim de sol, que teimava em escorregar para o outro lado, sempre que as palavras prenunciavam planura.
Não havia assim tanto para contar, de uma vida entre-cruzada de mares. Sempre e só, entre-cruzada de mares.
Numa ocasião, fora o Pacífico, que lhe aplacara por algum tempo, a fúria. Apenas o necessário ao retempero do desejo.
Nem sempre sobrevivera bem às ondas. Tinha disso, consciência plena.O movimento era sempre contrário à entrega. E nada restava no final das marés: nem conchas, nem estrelas, nem búzios, dos que ainda sabem escutar .
Sucediam-se as preias, às baixas de mar. Sempre com origem numa tocata e fuga, em Dó menor,  que sabia de cor. E pelo que acabou por se entender, lhe pertencia quase por inteiro.
Ao  lavar-se de alma,  o recomeçar, num outro oceano. O que equivalia, na prática a reconstruir de novo, com a angústia de poder perder, mais uma vez,  o seu único sextante.
Não sei porquê, deixou-se guiar, ali mesmo por uma bússola desmagnetizada. Só a pensar que  sem estrelas, nem caminhos traçados,  quem sabe, encontraria então,  o seu ponto cardeal.
Oxalá!

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Carta à minha memória V - Desencontros



Escrevi-te ontem, para que pudesses ler antes, o que eu sei , que jamais acontecerá.
Por isso não te enviei saudades. Nem te pedi resposta.
Não vai ser preciso mais nenhum tempo. Não quero que me escrevas para mais nenhum tempo. Pelo menos enquanto lugar de acontecimentos e histórias.
É difícil dar com a caixa de correio, para onde envias as memórias…assim, largadas.
Procuro hoje e não encontro.
Tento amanhã e não alcanço.
E no fim do dia, o ontem já se fez presente e o endereço errado...para onde te remetem a minha vida, assim..sem mais nem menos.
Não gosto disso. Da minha vida, remetida num embrulho já meio desfeito.
Eu sei que mais tarde ou mais cedo os embrulhos se desfazem. Mas que não seja por caminhos.
Fica complicado reencontrar o que quer que me digas e, mais ainda o que quer que me queiras dizer, depois disso. Ou, antes disso.
Deixa, que seja eu a contar-te, de um qualquer  recanto.Sem pressas nem momentos.
Vou-te dizer: busquei a lua, sabes. Busquei-a no lugar exacto em que a lua  surge. Sem imposições de relógios.
depois procurei o sol. Nesse acontecimento único, em que o sol se despe da noite.
Reparei que o pijama do sol não tinha estrelas. Nenhuma estrela. Só uma ou outra fugazmente as vi, a escorregar pela borda do lençol…

Saudades de ti, minha memória,  plantada, nessa lonjura…

Este texto foi escrito originalmente, para o blogue Cartas aos molhos

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Consciência em silêncio, no tempo, do teu coração


Acontecia deitar-se sem se escutar.
Passar todas as vinte e quatro horas, de silêncio absoluto.
Acontecia muitas vezes, deitar-se sem  se escutar. Não porque fosse uma escolha.
Sabia  perfeitamente, que não era uma escolha.
Deitar-se-ia , assim, numa sepulcral ausência de Si. Sem nenhuma  alternativa.
Nem o velho gira discos, que encostara permanentemente, à sua breve história, lhe serviria de alternativa.

Depois de um ou dois dias, era preciso sentar a consciência, no ramo mais alto e deixá-la livre.
O Eco, tomado a pulso, de dentro do peito como um uivo, cederia então, ao ar.
Se o calor da tarde o permitia, subiriam em espiral , os devaneios. Todos os devaneios. Aqueles que se esperam. e os outros:  os que se inventam.
Nos dias de inverno, cairiam como flocos, pegajosos e frios,  as questões.
-Deixa-me que te pergunte!
-Deixa-me que te pergunte a ti, que és parte intrínseca de mim: o que fizeste da ausência?  Essa, que não te permite, agora, sequer, escutar-te?
Onde perdeste tu a distância precisa, entre o  movimento de quem anda e, o  movimento de quem se contempla?
Não fora a consciência, sentada em cima, e nem um suspiro se ouviria mais. No tempo, todo do teu  coração...



quarta-feira, 6 de junho de 2012

Uma janela, da altura do meu assombro






 A casa era ampla. Divisões serenas que se entre-cruzavam num emaranhado de portas.
Abertas por coisa nenhuma que não fossem os seus próprios passos.
Breves e objectivos, esses passos.
De um lado, o lugar de ficar. Do outro, o de permanecer...
Não havia nenhuma exiguidade. Nem sequer de noite, quando o ritual se fazia deambular pelos corredores imensos.
Foi assim até, exactamente três terços da sua vida.
Os passos registados num contador de passos, que servia ao mesmo tempo de guardador de histórias. Pelo menos, daquelas que se movem.
2300 passos para a direita e o dia seria de ficar. Mais do que isso, e o dia, seria de permanecer.
Nunca gostou de esquinas desgrenhadas. Travavam-lhe o andar e possibilitavam-lhe um quase horizonte. Não muito largo, mas ainda assim, um horizonte...

Nesse dia em que completou três terços da sua existência, sentou-se na beira da cama e não conseguiu andar...os pés imóveis, no chão frio de pedra. O contador de passos: inerte.
Ainda teve tempo de chamar o seu único amigo:
-Corre Jorge. Vem depressa. Rasgar-me uma janela. Do peito, ao infinito.E, com a altura do meu assombro.



(Fotografia gentilmente cedida pelo autor: Rui Andrade)

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Lágrimas de sais aflitos




Aconteceu-lhe ter que partir, num remoinho de vida.
Partir entre esgares de medo. Partir com dolorosa saudade. Partir desfeito de si, em lamentos mais ou menos imprecisos, sem nunca olhar para trás.
Para o lugar largado, para a pessoa perdida, para o cenário apagado.
Partir em passos largos e gestos brandos, de quem não sabe se algum dia chegará...

Aprendeu cedo, a distinguir as lágrimas da partida, feitas de sais aflitos, das da chegada, aninhadas à quase felicidade.
Mas ali,  nunca lhe acontecia chegar.
As partidas prolongavam-se em metros e metros de passadeiras, de escadas, para cima, da vida. Para lá, da vida, Ultrapassando a mera existências. Simplesmente...iam.
E continuavam a ir. De costas voltadas aos tempos dos sorrisos, que conseguia, não obstante, entrever, por entre portas.

até ao dia, em que prometeu a si mesmo que tomaria atrás de si, um café. Por entre essas portas...
Desceu a rampa, sentou-se, do outro lado do aeroporto. Pegou numa rosa. Das tantas que acompanham unicamente, chegadas.
E, foi ficando por ali, entre pétalas e abraços.
Lágrimas de outros sais, inundavam-lhe de espanto, o rosto. Dessas, aninhadas à quase felicidade...
Sabia que a partir desse dia, viveria sempre assim: a partir da porta de desembarque.





segunda-feira, 28 de maio de 2012

A tua vida, numa paleta







Não fora  isso, estaria tudo bem.
Uma paleta de recados, ordenados, por um sistema gradativo e colorido. Perfeitamente inteligível, sem o castanho, o cinza, e as nuances de pálidos luares.

Nada mais haveria a acrescentar, a essa tua paisagem de sempre azul.  Além do céu e do mar.
Nunca tinha assistido a um pincelar de raivas, de claridades, e de expectativas...sempre azuis.

Sempre soube  que nunca desenharias nada. O traço mais ou menos irregular, fazia-te cócegas nas ombreiras da vida.
Melhor espalhar desordenadamente os  pigmentos, na paleta imprecisa, de mais uma viagem.
Pois claro que entornaste tinta!
Pois claro que nunca mais soubeste onde deixaste os matizes de lilás!
Agora não precisas de mais matizes de lilás...
Basta que preenchas tudo,  nas ausências, de negro e branco. Ou nas raras presenças,  escorridas ainda, pelos pincéis.
Experimenta as presenças escorridas pelos pincéis, hoje que a vida se te faz de novo e ainda,  paleta.
E nunca te esqueças: a luz num ego brilhante, que se quer lunar.
Amanhã, alguém te cobrirá a tela de invisível silêncio
Quero ver o que pintarás depois...

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A tempo, de falar silêncios




Quase nunca há muito tempo para falar silêncios...ou pela demora em perceber isso, ou pela elaboração contínua do pensamento, a trabalhar desde quase sempre,  numa imensa fábrica de palavras.
Senta-te e esquece depressa todas essas palavras .
Fecha a porta do armazém das frases. As que tinhas feitas e as que tinhas por construir.

A noite ecerra-se num imenso fecho éclair de estrelas,  por cima do mar.
As ondas vestem-se a pouco e pouco de negro.
No que resta da areia morna podes enterrar uma a uma todas as coisas ditas. E, as que ficaram , felizmente,  por dizer.
Deixa-te estar assim. Não me apetece nada (re)conhecer-te em lonjuras de pensamento, nem em esquinas mais ou menos elaboradas.  Só na imensa brevidade do instante.

Há instantes no fundo dos teus olhos. Agarrados à tua alma e,  que se  espalham agora pela toalha.
Lá fora o mar respira e surpreende-se.
Ouve-se a respiração das ondas, a tentar  segurar búzios,  entre os intervalos ritmados das rebentações, para conseguir ouvir todos e cada um  dos teus instantes.
Por magia misturaste sem querer,  uma brevidade, no pão com manteiga...
Lá fora o vento embala-te quase tudo o que vais repetindo incessantemente, de sorriso brando.
A janela, vou deixá-la aberta, para se falar melhor...


sábado, 19 de maio de 2012

Às vezes



Hoje, uma proposta diferente: o texto não é meu, é da minha filha
(tem 17 anos )


Às vezes ele olhava para o relógio: sabia perfeitamente a hora, apenas o fazia por hábito. Outras vezes, esquecia-se. Talvez fosse a recorrência da coisa que ele gostava: ou então, não o sabia bem, conscientemente. Outras vezes, olhava profundamente para o chão. Batia com o pé, o esquerdo, repetidamente. Murmurava palavras soltas, sem muito sentido, Talvez até formasse frases; ou pensamentos, eu nunca soube.
Escrevia lentamente, a letra cuidada, nunca rasgando o papel. Esse, entendia-o. Fora sempre o seu melhor amigo, o seu confidente. Sabia-o de cor.
Cansava-se, pousava a caneta. Essa, nunca dormia. Desejava um dia que ela adormecesse. Que não acordasse, não funcionasse, não tivesse o desejo de mais lhe pegar.
Desejava um dia ficar o papel, com a tinta corrida, a caneta ao lado adormecida. Desejava por fim que o papel acordasse do seu sono quase eterno, que falasse com ele, como se de música se tratasse, até que ele mesmo fechasse os olhos,  pousada a cabeça bem junto à caneta e,  adormecesse.

Inês V.  J. Galamba de Oliveira