segunda-feira, 11 de junho de 2012

Consciência em silêncio, no tempo, do teu coração


Acontecia deitar-se sem se escutar.
Passar todas as vinte e quatro horas, de silêncio absoluto.
Acontecia muitas vezes, deitar-se sem  se escutar. Não porque fosse uma escolha.
Sabia  perfeitamente, que não era uma escolha.
Deitar-se-ia , assim, numa sepulcral ausência de Si. Sem nenhuma  alternativa.
Nem o velho gira discos, que encostara permanentemente, à sua breve história, lhe serviria de alternativa.

Depois de um ou dois dias, era preciso sentar a consciência, no ramo mais alto e deixá-la livre.
O Eco, tomado a pulso, de dentro do peito como um uivo, cederia então, ao ar.
Se o calor da tarde o permitia, subiriam em espiral , os devaneios. Todos os devaneios. Aqueles que se esperam. e os outros:  os que se inventam.
Nos dias de inverno, cairiam como flocos, pegajosos e frios,  as questões.
-Deixa-me que te pergunte!
-Deixa-me que te pergunte a ti, que és parte intrínseca de mim: o que fizeste da ausência?  Essa, que não te permite, agora, sequer, escutar-te?
Onde perdeste tu a distância precisa, entre o  movimento de quem anda e, o  movimento de quem se contempla?
Não fora a consciência, sentada em cima, e nem um suspiro se ouviria mais. No tempo, todo do teu  coração...



quarta-feira, 6 de junho de 2012

Uma janela, da altura do meu assombro






 A casa era ampla. Divisões serenas que se entre-cruzavam num emaranhado de portas.
Abertas por coisa nenhuma que não fossem os seus próprios passos.
Breves e objectivos, esses passos.
De um lado, o lugar de ficar. Do outro, o de permanecer...
Não havia nenhuma exiguidade. Nem sequer de noite, quando o ritual se fazia deambular pelos corredores imensos.
Foi assim até, exactamente três terços da sua vida.
Os passos registados num contador de passos, que servia ao mesmo tempo de guardador de histórias. Pelo menos, daquelas que se movem.
2300 passos para a direita e o dia seria de ficar. Mais do que isso, e o dia, seria de permanecer.
Nunca gostou de esquinas desgrenhadas. Travavam-lhe o andar e possibilitavam-lhe um quase horizonte. Não muito largo, mas ainda assim, um horizonte...

Nesse dia em que completou três terços da sua existência, sentou-se na beira da cama e não conseguiu andar...os pés imóveis, no chão frio de pedra. O contador de passos: inerte.
Ainda teve tempo de chamar o seu único amigo:
-Corre Jorge. Vem depressa. Rasgar-me uma janela. Do peito, ao infinito.E, com a altura do meu assombro.



(Fotografia gentilmente cedida pelo autor: Rui Andrade)

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Lágrimas de sais aflitos




Aconteceu-lhe ter que partir, num remoinho de vida.
Partir entre esgares de medo. Partir com dolorosa saudade. Partir desfeito de si, em lamentos mais ou menos imprecisos, sem nunca olhar para trás.
Para o lugar largado, para a pessoa perdida, para o cenário apagado.
Partir em passos largos e gestos brandos, de quem não sabe se algum dia chegará...

Aprendeu cedo, a distinguir as lágrimas da partida, feitas de sais aflitos, das da chegada, aninhadas à quase felicidade.
Mas ali,  nunca lhe acontecia chegar.
As partidas prolongavam-se em metros e metros de passadeiras, de escadas, para cima, da vida. Para lá, da vida, Ultrapassando a mera existências. Simplesmente...iam.
E continuavam a ir. De costas voltadas aos tempos dos sorrisos, que conseguia, não obstante, entrever, por entre portas.

até ao dia, em que prometeu a si mesmo que tomaria atrás de si, um café. Por entre essas portas...
Desceu a rampa, sentou-se, do outro lado do aeroporto. Pegou numa rosa. Das tantas que acompanham unicamente, chegadas.
E, foi ficando por ali, entre pétalas e abraços.
Lágrimas de outros sais, inundavam-lhe de espanto, o rosto. Dessas, aninhadas à quase felicidade...
Sabia que a partir desse dia, viveria sempre assim: a partir da porta de desembarque.





segunda-feira, 28 de maio de 2012

A tua vida, numa paleta







Não fora  isso, estaria tudo bem.
Uma paleta de recados, ordenados, por um sistema gradativo e colorido. Perfeitamente inteligível, sem o castanho, o cinza, e as nuances de pálidos luares.

Nada mais haveria a acrescentar, a essa tua paisagem de sempre azul.  Além do céu e do mar.
Nunca tinha assistido a um pincelar de raivas, de claridades, e de expectativas...sempre azuis.

Sempre soube  que nunca desenharias nada. O traço mais ou menos irregular, fazia-te cócegas nas ombreiras da vida.
Melhor espalhar desordenadamente os  pigmentos, na paleta imprecisa, de mais uma viagem.
Pois claro que entornaste tinta!
Pois claro que nunca mais soubeste onde deixaste os matizes de lilás!
Agora não precisas de mais matizes de lilás...
Basta que preenchas tudo,  nas ausências, de negro e branco. Ou nas raras presenças,  escorridas ainda, pelos pincéis.
Experimenta as presenças escorridas pelos pincéis, hoje que a vida se te faz de novo e ainda,  paleta.
E nunca te esqueças: a luz num ego brilhante, que se quer lunar.
Amanhã, alguém te cobrirá a tela de invisível silêncio
Quero ver o que pintarás depois...

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A tempo, de falar silêncios




Quase nunca há muito tempo para falar silêncios...ou pela demora em perceber isso, ou pela elaboração contínua do pensamento, a trabalhar desde quase sempre,  numa imensa fábrica de palavras.
Senta-te e esquece depressa todas essas palavras .
Fecha a porta do armazém das frases. As que tinhas feitas e as que tinhas por construir.

A noite ecerra-se num imenso fecho éclair de estrelas,  por cima do mar.
As ondas vestem-se a pouco e pouco de negro.
No que resta da areia morna podes enterrar uma a uma todas as coisas ditas. E, as que ficaram , felizmente,  por dizer.
Deixa-te estar assim. Não me apetece nada (re)conhecer-te em lonjuras de pensamento, nem em esquinas mais ou menos elaboradas.  Só na imensa brevidade do instante.

Há instantes no fundo dos teus olhos. Agarrados à tua alma e,  que se  espalham agora pela toalha.
Lá fora o mar respira e surpreende-se.
Ouve-se a respiração das ondas, a tentar  segurar búzios,  entre os intervalos ritmados das rebentações, para conseguir ouvir todos e cada um  dos teus instantes.
Por magia misturaste sem querer,  uma brevidade, no pão com manteiga...
Lá fora o vento embala-te quase tudo o que vais repetindo incessantemente, de sorriso brando.
A janela, vou deixá-la aberta, para se falar melhor...


sábado, 19 de maio de 2012

Às vezes



Hoje, uma proposta diferente: o texto não é meu, é da minha filha
(tem 17 anos )


Às vezes ele olhava para o relógio: sabia perfeitamente a hora, apenas o fazia por hábito. Outras vezes, esquecia-se. Talvez fosse a recorrência da coisa que ele gostava: ou então, não o sabia bem, conscientemente. Outras vezes, olhava profundamente para o chão. Batia com o pé, o esquerdo, repetidamente. Murmurava palavras soltas, sem muito sentido, Talvez até formasse frases; ou pensamentos, eu nunca soube.
Escrevia lentamente, a letra cuidada, nunca rasgando o papel. Esse, entendia-o. Fora sempre o seu melhor amigo, o seu confidente. Sabia-o de cor.
Cansava-se, pousava a caneta. Essa, nunca dormia. Desejava um dia que ela adormecesse. Que não acordasse, não funcionasse, não tivesse o desejo de mais lhe pegar.
Desejava um dia ficar o papel, com a tinta corrida, a caneta ao lado adormecida. Desejava por fim que o papel acordasse do seu sono quase eterno, que falasse com ele, como se de música se tratasse, até que ele mesmo fechasse os olhos,  pousada a cabeça bem junto à caneta e,  adormecesse.

Inês V.  J. Galamba de Oliveira

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Há procura do pretérito em sessenta canetas


 


 Comprara  exactamente 60 canetas.
Uma, para registar cada segundo de existência. Ao longo de todas as hora a que encostara os dias.
Canetas de tinta intermitente, veio a perceber depois. Fluídas no desejo, no futuro, no tempo de acontecer. Mas perras, em todos os pretéritos.
Não podia escrever que fora, que estivera, que um dia sonhara, que por causa disso perdera. Não podia dizer que abdicara, ou que se rendera...as vogais, por mais que tentasse, ficariam no fundo do passado. Dentro do tempo que não se escoa.
Uma memória balbuciada era tudo o que conseguiria, de cada uma das sessenta  canetas, em cada um dos sessenta minutos de todas as horas da sua vida.

Se posse futuro, mesmo que condicional, as frases sairiam fluídas. E a tinta, de intermitente, passaria de imediato a uma tinta presente, permanente.

Experimentou, no dia seguinte, um dia em que havia tudo por acontecer, comprar mais 60 canetas.
Procurou bem os rótulos e optou por um, que dizia:" tinta de secagem rápida e óptima resistência às intempéries".
Começou então, a medo, a descrever  todos os projectos, que evolviam quase todos os minutos...as canetas célere no meio do papel.

Só começaram a ceder,  mesmo essas, de óptima resistência a todas as intempéries, quando se recordou de repente, do que acontecera essa manhã...a porta abrira-se cedo...e ela partir(a).  Já sem vogal. Não sab(ia) bem para onde e muito menos porqu (ê).
Ela partir(a)  sem nenhuma vogal . Quase não se lembrar(a) dess (e) fact(o) quando comprar(a) as canet(as)Partir(a) sem raz(ão) algum(a).
Só partir. Como quem vai.

Talvez se ela um dia  voltasse, ele conseguisse então escrever. Com uma tinta qualquer...

terça-feira, 8 de maio de 2012

Nas nuvens, de cabeça para baixo





Fiz toda a vida castelos nas nuvens. Fortalezas de imaginação desenhadas de barriga para cima.
Os dedos no ar em  futuros improváveis,  que se desmanchavam na primeira revoada. E eram refeitos, como se de uma linha de montagem de felicidade.
Fiz sempre assim, até ao primeiro e único dia em que voei.
Descobri uma forma qualquer de voar, mesmo sem asas.
Um voo curto, acho que de inspiração,  só até à beira do primeiro nimbo, a que me agarrei com toda a  força.
De cima para baixo, foi mais fácil surpreender o destino. Agarrar os flocos de coisa nenhuma e, prendê-los pelos cabelos de ar, ao chão.
Prendi  uma curva apertada, uma estrada, um comboio. Um contorno diáfano de gente.
Prendi também o tempo suficiente a todas as viagens.
Não me lembro de ter conseguido segurar a vida que remoinhava sem parar.
E ainda bem, que não a segurei.
Tudo o que desenhei, de cabeça para baixo também se esfumou.
No fim da curva apertada, a sombra pálida de um comboio. Viagem nunca acabada.
Na berma, em lugar nenhum da estrada,  o único contorno de gente, a desfazer-de pleno de vento.


quarta-feira, 2 de maio de 2012

Embrulhado de vida


Só elas, navegantes de infinitos, tinham o poder de te embrulhar a vida. E passavam, tantas vezes e, tão rapidamente, ao largo da tua existência.
Felizmente, ao lado, da tua existência. Ou infelizmente, porque sei que quererias assim:  viver de vida embrulhada.
Dias inteiros de transparência, arrancavam-te gritos de dor.
A cada decisão vacilavas no azul de todo e qualquer lugar.
Nenhum contorno esfumado, na paisagem dos teus sítios, dos teus anseios, dos teus receios. Dos teus amores...
Foste procurar lá, então, onde o céu se desfaz de algodão.
Debruçaste-te perigosamente, entre o passado, de memórias gargalhadas, as  lágrimas.E,  o que nunca  deveria acontecer. E,  foi aí,  que decidiste encher os os bolsos de nevoeiro. A alma, de nevoeiro.  O espanto de nevoeiro.
Nunca mais apareceste.
Se dizias que sim, podia ser a sombra de uma negação.Se dizias que não, podia acontecer que o ar se compactasse  de imediato, por cima do teu olhar. E aí...quem poderia adivinhar?
Passarias a caminhar sem pressa e sem destino. Entre os  risos, inaudíveis, das nuvens que te rodeavam,  nesse abraço cerrado.
Achaste-ias então assim: sempre e, seguramente,  ausente de ti.