A casa era ampla. Divisões serenas que se entre-cruzavam num emaranhado de portas.
Abertas por coisa nenhuma que não fossem os seus próprios passos.
Breves e objectivos, esses passos.
De um lado, o lugar de ficar. Do outro, o de permanecer...
Não havia nenhuma exiguidade. Nem sequer de noite, quando o ritual se fazia deambular pelos corredores imensos.
Foi assim até, exactamente três terços da sua vida.
Os passos registados num contador de passos, que servia ao mesmo tempo de guardador de histórias. Pelo menos, daquelas que se movem.
2300 passos para a direita e o dia seria de ficar. Mais do que isso, e o dia, seria de permanecer.
Nunca gostou de esquinas desgrenhadas. Travavam-lhe o andar e possibilitavam-lhe um quase horizonte. Não muito largo, mas ainda assim, um horizonte...
Nesse dia em que completou três terços da sua existência, sentou-se na beira da cama e não conseguiu andar...os pés imóveis, no chão frio de pedra. O contador de passos: inerte.
Ainda teve tempo de chamar o seu único amigo:
-Corre Jorge. Vem depressa. Rasgar-me uma janela. Do peito, ao infinito.E, com a altura do meu assombro.
(Fotografia gentilmente cedida pelo autor: Rui Andrade)






