segunda-feira, 21 de maio de 2012
sábado, 19 de maio de 2012
Às vezes
Hoje, uma proposta diferente: o texto não é meu, é da minha filha
(tem 17 anos )
Às vezes ele olhava para o relógio: sabia perfeitamente a hora, apenas o fazia por hábito. Outras vezes, esquecia-se. Talvez fosse a recorrência da coisa que ele gostava: ou então, não o sabia bem, conscientemente. Outras vezes, olhava profundamente para o chão. Batia com o pé, o esquerdo, repetidamente. Murmurava palavras soltas, sem muito sentido, Talvez até formasse frases; ou pensamentos, eu nunca soube.
Escrevia lentamente, a letra cuidada, nunca rasgando o papel. Esse, entendia-o. Fora sempre o seu melhor amigo, o seu confidente. Sabia-o de cor.
Cansava-se, pousava a caneta. Essa, nunca dormia. Desejava um dia que ela adormecesse. Que não acordasse, não funcionasse, não tivesse o desejo de mais lhe pegar.
Desejava um dia ficar o papel, com a tinta corrida, a caneta ao lado adormecida. Desejava por fim que o papel acordasse do seu sono quase eterno, que falasse com ele, como se de música se tratasse, até que ele mesmo fechasse os olhos, pousada a cabeça bem junto à caneta e, adormecesse.
Inês V. J. Galamba de Oliveira
segunda-feira, 14 de maio de 2012
Há procura do pretérito em sessenta canetas
Comprara exactamente 60 canetas.
Uma, para registar cada segundo de existência. Ao longo de todas as hora a que encostara os dias.
Canetas de tinta intermitente, veio a perceber depois. Fluídas no desejo, no futuro, no tempo de acontecer. Mas perras, em todos os pretéritos.
Não podia escrever que fora, que estivera, que um dia sonhara, que por causa disso perdera. Não podia dizer que abdicara, ou que se rendera...as vogais, por mais que tentasse, ficariam no fundo do passado. Dentro do tempo que não se escoa.
Uma memória balbuciada era tudo o que conseguiria, de cada uma das sessenta canetas, em cada um dos sessenta minutos de todas as horas da sua vida.Se posse futuro, mesmo que condicional, as frases sairiam fluídas. E a tinta, de intermitente, passaria de imediato a uma tinta presente, permanente.
Experimentou, no dia seguinte, um dia em que havia tudo por acontecer, comprar mais 60 canetas.
Procurou bem os rótulos e optou por um, que dizia:" tinta de secagem rápida e óptima resistência às intempéries".
Começou então, a medo, a descrever todos os projectos, que evolviam quase todos os minutos...as canetas célere no meio do papel.
Só começaram a ceder, mesmo essas, de óptima resistência a todas as intempéries, quando se recordou de repente, do que acontecera essa manhã...a porta abrira-se cedo...e ela partir(a). Já sem vogal. Não sab(ia) bem para onde e muito menos porqu (ê).
Ela partir(a) sem nenhuma vogal . Quase não se lembrar(a) dess (e) fact(o) quando comprar(a) as canet(as)Partir(a) sem raz(ão) algum(a).
Só partir. Como quem vai.
Talvez se ela um dia voltasse, ele conseguisse então escrever. Com uma tinta qualquer...
terça-feira, 8 de maio de 2012
Nas nuvens, de cabeça para baixo
Fiz toda a vida castelos nas nuvens. Fortalezas de imaginação desenhadas de barriga para cima.
Os dedos no ar em futuros improváveis, que se desmanchavam na primeira revoada. E eram refeitos, como se de uma linha de montagem de felicidade.
Fiz sempre assim, até ao primeiro e único dia em que voei.
Descobri uma forma qualquer de voar, mesmo sem asas.
Um voo curto, acho que de inspiração, só até à beira do primeiro nimbo, a que me agarrei com toda a força.
De cima para baixo, foi mais fácil surpreender o destino. Agarrar os flocos de coisa nenhuma e, prendê-los pelos cabelos de ar, ao chão.
Prendi uma curva apertada, uma estrada, um comboio. Um contorno diáfano de gente.
Prendi também o tempo suficiente a todas as viagens.
Não me lembro de ter conseguido segurar a vida que remoinhava sem parar.
E ainda bem, que não a segurei.
Tudo o que desenhei, de cabeça para baixo também se esfumou.
No fim da curva apertada, a sombra pálida de um comboio. Viagem nunca acabada.
Na berma, em lugar nenhum da estrada, o único contorno de gente, a desfazer-de pleno de vento.
quarta-feira, 2 de maio de 2012
Embrulhado de vida
Só elas, navegantes de infinitos, tinham o poder de te embrulhar a vida. E passavam, tantas vezes e, tão rapidamente, ao largo da tua existência.
Felizmente, ao lado, da tua existência. Ou infelizmente, porque sei que quererias assim: viver de vida embrulhada.
Dias inteiros de transparência, arrancavam-te gritos de dor.
A cada decisão vacilavas no azul de todo e qualquer lugar.
Nenhum contorno esfumado, na paisagem dos teus sítios, dos teus anseios, dos teus receios. Dos teus amores...
Foste procurar lá, então, onde o céu se desfaz de algodão.
Debruçaste-te perigosamente, entre o passado, de memórias gargalhadas, as lágrimas.E, o que nunca deveria acontecer. E, foi aí, que decidiste encher os os bolsos de nevoeiro. A alma, de nevoeiro. O espanto de nevoeiro.
Nunca mais apareceste.
Se dizias que sim, podia ser a sombra de uma negação.Se dizias que não, podia acontecer que o ar se compactasse de imediato, por cima do teu olhar. E aí...quem poderia adivinhar?
Passarias a caminhar sem pressa e sem destino. Entre os risos, inaudíveis, das nuvens que te rodeavam, nesse abraço cerrado.
Achaste-ias então assim: sempre e, seguramente, ausente de ti.
sábado, 28 de abril de 2012
quarta-feira, 25 de abril de 2012
Carta à minha memória IV - Proíbo-te que me escrevas
Proíbo-te que me escrevas
Passei um tempo sem notícias. Foi muito
bom.
Um esquecimento de palavras, em que quase
me retemperei: de ti e de mim.
Sempre foi complicada esta nossa dança de
sentidos. O Passado feito presente, empacotado em escritos.
Cartas em que me tentas fazer esvoaçar
acontecimentos, até à frente aberta dos meus passos, de futuro.
Não minha cara, não te deixarei nunca dançar o
tango. Que me impõe o regresso, objectivo, ao ponto de partida.
Mas ontem surpreendeste-me. A tua ousadia foi ao
ponto de me enviares quase todas as vírgulas da minha infância.
Recebias. Ainda pensei que estivessem
adormecidas, mas não. Tinha-las espicaçado, com os poucos pontos de
interrogação e menos ainda, de exclamação, que encontraste.
Como se na infância houvesse alguma certeza. Ou
as perguntas fossem definitivas.
Chegariam, pelo menos atordoadas, embaladas no
tempo, as virgulas, não fosse a tua maldade.
Teria preferido virgulas de infância,
aconchegadas, sob o selo, de ti. Mesmo que sem lacre, que não te sei de desvelos. Mas nem disso foste capaz.
Abri o envelope e soltou-se de imediato, o choro,
do dia em que me perdi.
Um choro agreste, aflito, desfeito de sentido. Tal
e qual como aos cinco anos.
Quase não consegui resgatar do fundo, a
minha timidez. Sei exactamente como acontecia, mas não a consegui resgatar.
O riso, esse, escorregou-me por entre
os dedos das mãos que cresceram, tu sabias, e não mais o encontrei.
Até as noite, com muita tosse, passadas a
ver a panela no fundo do quarto, que bruxeleava
desenhos, te encarregas-te de mandar...
Proíbo-te que me escrevas.
Não quero notícias tuas. Nada de ocasiões mal
embrulhadas, que insiste em enviar.
Talvez mude de direcção ou talvez opte, por
nunca, mas nunca mais mais te ler...
Este texto foi escrito, originalmente para o blogue Cartas aos molhos
Este texto foi escrito, originalmente para o blogue Cartas aos molhos
sábado, 21 de abril de 2012
Dança de azul em plié de sol
Este é um texto especial. A prova de que os meios da conversa, banal, numa rede social, num momento de descontracção, também podem trazer, alguma beleza.
Propositadamente, publico este texto, feito a duas mãos, com a Joana Santa Marta Granger,do blogue A simplicidade de existir sem "retoques", na exacta espontaneidade com que foi feito. Em termos, de comentário, imediato, no facebook
Propositadamente, publico este texto, feito a duas mãos, com a Joana Santa Marta Granger,do blogue A simplicidade de existir sem "retoques", na exacta espontaneidade com que foi feito. Em termos, de comentário, imediato, no facebook
A imagem e frase propostas foram estas
torradinhas de horizonte embebidas em azul. São servidos?
Era apenas o espectador de uma dança cujos passos nunca quis aprender. Olhou a névoa que se erguia sobre as areias, e desejou ver as suas pegadas, ali, sombra dos pés dela. Dançando as mesmas notas, copiando as palavras repletas de razão e sentido, onde o adeus jamais teria lugar...
Pegou no pincel e ficou, eternamente, a desenhar pássaros. Todos da mesma cor.
Pássaros presos num papel desbotado, de sempre azul e, sem nenhuma margem para voar.
Só o vento lhe traria novas, de uma dança longínqua, em pontas...
Tentou imaginar a linha do horizonte carregando nos tons de um só azul, mas este esbatia-se e fundia-se de novo. Queria marcar aquele troço que separa o sonho da realidade, queria agarrar as mãos dela, e na valsa da intempérie, empurrado pelo vento, deslizar para fora do seu mundo, que agora percebia ser tão pequenino, tão insignificante. Apenas mais um grão de areia como os que escorriam por entre os dedos...
De uma dança de azul, em pliê de sol...
Nada é mais inspirador que sentar em cima de uns trocos de árvore trazidos pelas marés, com histórias de mil viagens cravados nos seus rasgos, olhando o silêncio comovente do bater da ondulação do mar, azul, nas areias desprovidas de pegadas...
Ao que sei ele sentou-se na sombra, de azul e mais azul. Sem nunca largar o azul.
Pincelaria com ela, uma única dança, de curvas de marés, a redesenhar, então, a paisagem.
Longe ficaria a vontade de partir...
Tão parca lhe parecia agora a cor azul, quando espelhada nas cores da nostalgia de quem se deixa preencher, pela melodia da saudade, mesmo antes de a sentir. A brisa que contornava as rochas que o mar teimava em definhar, clamando a si, o calor das suas areias douradas, parecia-lhe sussurrar de volta as palavras que tantas vezes aqui partilhou, com estes mesmos paus, onde agora se sentava.
Percorreu com os dedos a marcas de um mar também para eles, impiedoso. Mas eles aqui continuavam, fortes, sustentando o peso do seu corpo, parado, tão distante da leveza da sua alma revoltada...
Ela dançava. Alheia, já, a todas as pinceladas.
Tinha-se embriagado de mar.
os braços espaçados na ventania e o olhar mergulhado numa qualquer paleta.
Um abraço sereno do sol, seria, agora, o bastante para a fazer rodar.
Levá-la-ia longe a dança...
Para muito longe desse lugar.
E ele, pregado, à sua fúria de azul...
Ao que sei ele sentou-se na sombra, de azul e mais azul. Sem nunca largar o azul.
Pincelaria com ela, uma única dança, de curvas de marés, a redesenhar, então, a paisagem.
Longe ficaria a vontade de partir...
Tão parca lhe parecia agora a cor azul, quando espelhada nas cores da nostalgia de quem se deixa preencher, pela melodia da saudade, mesmo antes de a sentir. A brisa que contornava as rochas que o mar teimava em definhar, clamando a si, o calor das suas areias douradas, parecia-lhe sussurrar de volta as palavras que tantas vezes aqui partilhou, com estes mesmos paus, onde agora se sentava.
Percorreu com os dedos a marcas de um mar também para eles, impiedoso. Mas eles aqui continuavam, fortes, sustentando o peso do seu corpo, parado, tão distante da leveza da sua alma revoltada...
Ela dançava. Alheia, já, a todas as pinceladas.
Tinha-se embriagado de mar.
os braços espaçados na ventania e o olhar mergulhado numa qualquer paleta.
Um abraço sereno do sol, seria, agora, o bastante para a fazer rodar.
Levá-la-ia longe a dança...
Para muito longe desse lugar.
E ele, pregado, à sua fúria de azul...
Era apenas o espectador de uma dança cujos passos nunca quis aprender. Olhou a névoa que se erguia sobre as areias, e desejou ver as suas pegadas, ali, sombra dos pés dela. Dançando as mesmas notas, copiando as palavras repletas de razão e sentido, onde o adeus jamais teria lugar...
Pegou no pincel e ficou, eternamente, a desenhar pássaros. Todos da mesma cor.
Pássaros presos num papel desbotado, de sempre azul e, sem nenhuma margem para voar.
Só o vento lhe traria novas, de uma dança longínqua, em pontas...
Tentou imaginar a linha do horizonte carregando nos tons de um só azul, mas este esbatia-se e fundia-se de novo. Queria marcar aquele troço que separa o sonho da realidade, queria agarrar as mãos dela, e na valsa da intempérie, empurrado pelo vento, deslizar para fora do seu mundo, que agora percebia ser tão pequenino, tão insignificante. Apenas mais um grão de areia como os que escorriam por entre os dedos...
De uma dança de azul, em pliê de sol...
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Mar em amor de pele
Começou por segurar devagarinho um resto de espuma entre o polegar e o indicador.
Água de um oceano inteiro, para cobrir de afagos...
Os dedos esticados sobre todo esse movimento, embrulhavam agora, cuidadosamente , cada onda, na palma da mão.
Não seria preciso muito, para cobrir de pele um oceano.
Só o tempo necessário da ternura, a embeber toda as lágrimas, mal contidas desse mar.
Nascera assim, desvalido de água. Sem outro contacto que o da areia rude, das falésias agrestes, a arranharem-lhe as vagas.
Por isso se incendiava tantas e tantas vezes, num desespero de vento. Dias inteiros de destemperos, e raivas, galopando em tempestades ruidosas, a assustar quem se atrevesse a chegar-lhe à orla das emoções.
Jazia agora quieto e manso. Num marulhar leve, oscilando entre os dedos de uma só mão.
A linha do horizonte parada, serena, de olhos postos, no sol
A boca entreaberta, a pedir beijos, salgados.
E uma gargalhada, de um mar, em amor de pele.
terça-feira, 10 de abril de 2012
Rostos etiquetados
Acordara pasmado!
O rosto ansioso de ontem, enrolado na camisa, já levemente desbotado, olhava-o ainda, da "senhorinha", aos pés da cama.
Seria assim, hoje, entre espantos e exclamações, que encararia o mundo.
Nunca escolhia os rostos. Limitavam-se a aparecer-lhe, largados, sem presas, pelo luar, que nasce quase sempre semi oculto.
Eram rostos de angústia, de medo, de assombrosa felicidade. Ou tão só retratos, debruçados, da própria vida.
Nada fazia prever face alguma. Nem sequer os olhares embaciados pelo sono, do dia que passara.
Vestia-se de rostos como quem se veste de si.
Despia-se de rostos como quem se despe de alguém.
Fora sempre assim. E, de segunda a sexta feira.
Rostos de medo e de ausência - que demoravam mais tempo a desnudar, é certo- intercalados com faces absurdamente efusivas, a darem lugar, num outro dia qualquer, a um semblante carregado.
Desde que o tempo, se moldara, perfeito, à sua existência...
Raramente arrumava os rostos durante a semana. Não havia porquê, demorar-se em faces usadas, que exigiam catalogação exaustiva e eficiente.
Melhor a espera, de noites inteiras, sem nenhuma expressão.
Ao sábado, levantava-se numa total ausência de personalidade. Nem um breve olhar, a denunciar a alma.
Seguia directo para o escritório-mais-que-mudo, no fundo do corredor. Portas meias com um pequeno quarto de costura, onde ainda tentara, em vão, alinhavar silêncios no canto dos olhos. E, pespontar sorrisos, sempre que os não havia.
Pegava primeiro na segunda feira e reconstruía então, criteriosamente, toda a sua paisagem.
No fim do dia, um arquivo de sombras, preencher-lhe-ia o tão almejado final da semana em ausência. Com todos os rostos, devidamente, etiquetados.
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