terça-feira, 20 de março de 2012

I Pode


Foi com um simples gesto que abri duas ou três janelas de alma, no meu I Pod. As emoções, essas,  há muito, que circulavam  no teu I Touch.
Não me esquecerei de reescrever todos os dias, um sms, ao fundo do tempo, para continuar a respirar a tua paisagem. Letras desalinhadas de vida. Desencontradas dos momentos correctos. Sempre à espera que a nova versão, te embrulhe outra vez de  espanto, te envolva o riso e, te recupere na dança.

Longe ficará o tempo parado. Esquecido de si. Sem força para recomeçar. Um baraço de vento, quase inaudível...não, eu não posso... E a vida a impor-se a cada  ocasião precisa. Longe. Cada vez mais longe, da  tecnologia de ponta, num carregador antiquado, sem nenhuma conexão,  mas  pleno de abraço.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Paisagens descoloridas, sem tempo de recordação

 
Todos os dias desapareciam paisagens e lugares.
O tempo das recordações esmorecia, com a falta de pouso.
No jardim, mesmo em frente, restava um único banco para acomodar o resto do  horizonte.
O vazio, crescia  e com ele o silêncio. Descolorido e generoso. Na quietude mansa, das coisas que não se renovam. Do tempo que nem acontece.

Podiam abrir-se as janelas que davam para o mar e não encontrar sequer  vestígios de água. Nem os areais, os muros brancos (seriam brancos? ) junto ao cais. Ou um voo de pássaros, adornado, à rota do esquecimento.

Destemperado, rodava agora o mundo. Sem espaço para se perder na curva abraçada de nenhures.
Entre o lado de cá e o lado de lá, um abismo, requisito de  sombras, que paulatinamente substituíam sem dó os lugares,  e os esvaziavam do acontecido.

Nunca mais se pintaria nada,  com as mesmas dores...
Seriam nuances de paletas, quase impossíveis, a sugerir agora, as poucas recordações. E o luar, manchado de ausência.. E as estrelas, despidas de luz...

(a fotografia é do fotógrafo Mário Castello)



sábado, 10 de março de 2012

Rostos de fachadas, por limpar

Não lhe era fácil, passar o dia a lavar fachadas.
O extremo cuidado na limpeza  dos rostos, de toda a vizinhança, sem nenhuma excepção.
Trabalho meticuloso que envolvia perícia. Sobretudo na ombreira das existências.
Eram quatro ou cinco quarteirões. Como poderiam ser seis ou sete. Ou doze... ou toda uma freguesia.
Tinha como única referência o sol.  Relojoeiro seguro, no compasso da remoção das manchas, tantas vezes  imperceptíveis ao comum dos mortais. Por opção de mortalidade, seguramente.
O final do dia apanhava-o absorto, a contemplar  os passos, adivinhados, dos habitantes desses lugares, imaculados.
Em silêncio, despejava lentamente o balde cheio, de água suja.
Subia os quatro degraus, meios esboroados de tempo,. Um de ontem. Um de hoje. Um de sempre e um de quase nunca... que o conduziam às seis ou  sete paredes, albergue dos próprios silêncios e, dos sons, que vinham vindo... e esperava, de olhos postos no tecto, da única casa sem janela e, nenhuma fachada, desse lugar.

Por volta da meia noite, voltaria a sair.
O balde de água suja, substituído por um  de tinta negra.
Nas mãos o  compasso. A delinear , com toda a precisão, por meio de choros abafados, de palavras intercaladas e, de emoções... o quase sempre,  infinito de mundo, que haveria, amanhã mesmo, para limpar...


( a fotografia é do Rui Andrade- Viseu à noite )

quinta-feira, 8 de março de 2012

Nada, a não ser sombras


Dia Internacional da Mulher



Por mãos de mestre.
Talvez o melhor vídeo, em marketing pessoal, de um cantor romântico, que eu conheço.
Aqui não  se deixam  créditos por mãos alheias. Nem créditos, nem olhares, nem gestos, nem posturas. Nada!
Júlio, por ele próprio, no dia internacional da mulher e nos outros todos!
Pois, chamem-lhe piroso...

sábado, 3 de março de 2012

Sonhos numa mala de couro, em Si menor


Queria  tanto guardar os sonhos numa mala de couro. Forte e robusta.
Queria tanto guardar os sonhos, numa mala de couro. Forte e  robusta, com uma pega sólida.
Queria tanto guardar os sonhos, numa mala de couro. Forte e robusta, com uma pega sólida e uma fechadura.
Queria tanto guardar os sonhos numa mala de couro. Forte e robusta. com uma pega sólida e uma fechadura. E se calhar,  numa outra mala, ainda.  Mais pequena, dentro da mala grande...os sonhos arrecadados aos pares, por forma a nunca mais, sequer, ousarem respirar.
Seguiria assim...em passos mudos e breves. Numa sinfonia de Si menor. Pela vida fora. 
O caminho: plano e pesado. Por força das malas de couro, das pegas, das fechaduras.
Um dia , por aí, podia guardar-se também a Si.
Esqueceria depois as malas num qualquer lugar...que nunca debaixo do sol. Que nunca, ao alcance do mar.
O sol, desbotaria as fechaduras. O mar, salgaria,  seguramente, o olhar.
Ninguém, absolutamente ninguém,  iria reparar...

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Nunca iria ser poeta





Não iria ser poeta. Jamais iria ser poeta.
O tempo das palavras delirantes, angustiadas, desarvoradas,  arrumadas por linhas e linhas de angústia e sofrimento, não faria sentido...faria com  que não fizesse sentido.
Uma boa noite de sono. E as palavras surgiriam tão serenas como os dias. Ou muito mais serenas, ainda, do que os dias. Numa constância de parágrafos desassombrados, ao encontro de enredos mais ou menos expectáveis.
Não, não iria nunca ser poeta. Passar o tempo a semear palavras que depois exigiriam monda e regadio. 
Dias e dias de emoções,  a gear em cima de estrofes. De chuvas de medos,  torrenciais, a derrubar rimas. De seca...de seca...de seca...num movimento ritmado do pó do tempo, que abafa a memória e deixa a história  quase toda por contar...
Não não iria ser poeta. Os dias  sofridos em substantivo. As noites passadas em verbo...

Respirou suavemente, todas as sílabas de que se lembrou. Que transportavam um ar puro, levezinho.
Encostou-as à janela e deixou-se escorregar para um sono sem memória
De manhã, não se lembraria de nada...