quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Sol entornado em quarto minguante



Foi o dia todo assim,  num destempero de gargalhadas. A pontilhar de prata o azul. A correr atrás das sombras, até as fazer corar.
Uma dança frenética de cores. Aqui e ali, adoçadas por gelados, desmaiados, nas mãos nuas, como se fosse mesmo verão.
Rimou com calor. 
Rimou com brincadeira. 
Rimou com faces afogueadas.
Ritmos coloridos num areal surpreso. De grãos, acordados à força.

Diz quem a viu, que passou o dia escondida. Acabrunhada, entre o último toldo, ainda por montar e, o paredão. Numa nesga  branca de quase nada. 
Uma pálida e esguia figura. A lembrar uma qualquer fatia de melão esquecida, da última estação... Debruçada sobre a sua própria sombra...numa nesga ínfima de luz. Nas mãos um copo. Um minúsculo copo, sem mais nada.

Passou o dia a passear. Em mangas de água morna. De braço dado, ora ao Suão, ora à à brisa alegre que vinha do mar.
Sorriu com os peixes. Apanhou conchas fechadas e, abriu-as com o olhar rasgado de luz .
Às mãos cheias distribuiu carícias...
Subiu alto. O mais alto que lhe foi possível, para poder acenar. 
Sem nenhuma discrição, fez despir os abafos, Descalçar as meias, que convidavam à transparência.

Jazia ali, num embalo próprio do tempo que não se mede, mas que se sabe que acontece. Os joelhos encostados ao queixo. Uma névoa a trespassar-lhe a alma, feita de restos de luar...

As horas passaram. Quem estava na praia, ainda, viu.
Ela levantou-se, frágil. Encheu o copo com os restos desse sol destemperado, num Inverno, rodopiante de luz. E, sem dizer nada, entornou-o, por cima do mar.
Subiu ligeira. E, lá está a balouçar, em quarto minguante...


terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Viagem inventada em sons inexistentes





Limitei-me a contar os carris, que são sempre dois e, transportam o olhar para o horizonte, mais ou menos dilatado. Mesmo assim, reconheço, que por vezes me desconcentrei desse cenário sem rumo, para adivinhar nos rectângulos metálicos das janelas, desfeitos do quadrado original por pedaços retorcidos, rostos quedos, que nunca devem te existido. Ou a terem existido, existiram unicamente vislumbrados.
Bocados de olhos, misturados com pestanas ensonadas, ombros descaídos e mãos pousadas em colos, sem história.
Será?
Pus-me a pensar se os colos teriam histórias e, se as mãos as segurariam ou se as deixariam escorregar por entre os carris. Não poderia nunca saber…a não ser se de repente, as carruagens se enchessem de sons, que são os invólucros das histórias. Sons de lágrimas a rolarem, de gargalhadas desabridas, de murmúrios sussurrantes.
Mas não havia sons. Só se os inventasse.
Não era fácil inventar sons, assim…adaptá-los aos rostos, às pestanas, aos colos e alinhá-los entre tantos vagões.
Por isso, deixei-me ficar a olhar os carris, paralelos até à curva, que não se quer por companheira, sem imaginar o destino.E,  muito menos o retorno.
O tempo ficava-se por ali.
E eu deixei-me ficar com ele...

domingo, 29 de janeiro de 2012

"Os descendentes" / Cosmética Clooney


                  

Fui ver este "descendentes" com a expectativa de um filme para "descolar" a imagem, demasiado gasta pela publicidade, de George Clooney. E,  no intuito de o relançar como actor...e foi isso que vi. Exactamente e, só.
Um filme nomeado à partida...não consegui perceber porquê.
Uma história banal, num enredo feito à medida, do omnipresente Clooney.
Mostraram o homem, (Grandes angulares, pequenas angulares, todas as angulares)  que envelhece bem, ao mesmo tempo que segura as rédeas da vida familiar. Desmontaram a imagem de galã, mais que batida, num enredo de fragilidades masculinas, dentro do óbvio. E, acabaram com uma imagem de força à boa maneira americana...não fosse alguém duvidar da masculinidade do homem. Uma vez, que evitaram toda e qualquer exposição da sensualidade do actor. Tal como se previa, de resto. Não há por isso nenhuma história de amor. Nada. Zero absoluto!
Clooney  de cabelos brancos, em estilo vinho do Porto. e, pronto para um grande filme, depois desta cosmética, inevitável,  ao Sr. Nespresso.
Personagens femininas inexistentes ou reduzidas a décor.
Para quem gosta de Clooney  é bom. Fica-se com pena e apetece dar colinho. 
Não gosto especialmente de Clooney . Muito menos na versão colinho...por isso aguardo por dias melhores.



sábado, 28 de janeiro de 2012

Barragem de abraço




Começou a chorar.
As lágrimas a rolarem a espaços. Primeiro na cadência da tristeza, depois na velocidade absurda do abandono.
-Sr. José não vale a  pena. A vida recomenda prudência, nas reservas hídricas...
E as lágrimas que corriam cada vez mais velozes e se juntavam já aos pés da cama, numa poça perdida...
Sem quase se dar conta, o ribeiro, atravessava os corredores, encharcando todos os passos, que passavam aflitos.
Não haveria mais marés baixas. Sabia que não haveria mais marés baixas. Apenas esta última preia mar, tumultuosa,  que lhe afogaria todos os sonhos. Um por um. E, de vez.
- O que posso fazer por si?
- Se me chegar o espelho...
Era a vida agora, disforme, na pressa de chegar a lugar algum. Molhada e silenciosa. Desfocada num olhar translúcido, de água e mais água . De todas as nascentes juntas a correr para uma só foz. A derradeira foz.
Com a força que lhe restava, atirou fora o espelho. E,  com ele, o triciclo encarnado, a bola, presente do avô. A primeira gravata , o beijo, a descoberta, o riso, o desejo, a viagem tão bem preparada...
Foi o tempo de um raio de sol e uma barragem: serena e firme, de um último abraço...

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Morte de olhar

Não se deve morrer assim. Num dia sem destino especial e sobretudo sem razão.Também não sei se num dia feito para a eternidade.
Percebi quando me  levantei e não encontrei os teus olhos. Nenhum dos teus olhos. Muito menos a lonjura a que me habituaras, todas as manhãs.
Parava uns segundos, cedo,  na beira da cama, a adivinhar, até onde te levaria o olhar....se para lá do muro da cidade, se acima das promessas de chuva. Irrelevante. Chegarias a casa no final do dia, vestida de trajectos. Mais ou menos desordenados. Como todas as mulheres.
Tinha sido assim, sempre.
Hoje pela primeira vez, achei-te morta.
Corri a buscar dois pincéis. E rapidamente, desenhei uma borboleta de asas amarelas.
Com a mão direita fiz quase tudo e pela esquerda prometi-lhe alguma sombra. Para te proteger a retina. Se ela tivesse sobrevivido...
Soprei com força. A borboleta partiu.
Tenho muito medo que nem ela, mesmo que o encontre, reconheça, ainda,  o teu olhar.
Se isto não é a morte, quando se morre, afinal?

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Matinas de S. Vicente. Lisboa, 1770

Foi ontem em Lisboa, coincidindo com o dia de S. Vicente, na agora recuperada Igreja de S. Vicente de Fora.
Igreja cheia, para um espectáculo conseguido.
Tocou o organista residente: João Vaz
Cantou a Capella Patriarchal. Com intervalo ao responsório V. (achei que desconcentra um bocadinho mas a  amplitude do programa, explicaram... Foi bem recuperado, depois, o fôlego. Especialmente no VII responsório." Betus Christi Athleta" de De Porcaris.

Não gostei da desarrumação das pessoas e, sobretudo da luz. Uns holofotes a gritar Ikea por todos os lados. E, como se não bastasse, uma espécie de gambiarras a iluminar os nichos.
Percebo que à semelhança do que se vai fazendo por esse mundo, se queira "iluminar". Mas talvez de forma mais discreta...sobretudo, tratando-se do programa que era.
No meu caso, não me fez grande diferença, visto que quando oiço não vejo. A não ser no caso de solistas. Ou, de algum maestro em particular.
Mas este programa exigia alguma moderação na iluminação.
Pode ser que um dia alguém se lembre de cantar as Matinas, com os candelabros antigos....

Uma vez que estamos em D. Joao V, lembrei-me dos carrilhões. Aqueles que não tocam porque se oxidam e oxidam-se porque não tocam...lá em Mafra.
Na falta de carrilhão o inesquecível concerto de 2010. Em que tocaram os seis órgãos em simultâneo.

(o que vale é que neste concertos estão sempre os estes adeptos ferrenhos do You Tube... não faço ideia se ouvem alguma coisa, mas gravam, o que já é uma proeza considerável.)



Dragões e neblinas

Acordei assim. Com parabéns efusivos, vindos do Oriente.
E a notícia de que a China, espera um boom de nascimentos no ano do Dragão.
A partir de hoje, recomendam-me que esteja em contacto com a natureza e, não me preocupe com absolutamente mais nada, uma vez que nasci, sob o signo do dragão.

E, a natureza hoje, apareceu-me assim: com a neblina que sempre me aclarou o olhar...desde os tempos em que me debruçava para perceber que debaixo daquela de dança de nuvens e terra,  a envolver invariavelmente a praia, todas as manhãs, existia sempre areia. Muita areia.

 A dança, passava-se à altura dos ombros e no compasso dos olhos. Das  nuvens, semicerradas. E, da terra, em olhos postos.
Na minha praia, jamais a mesma areia. A de ontem, ou tinha voado em castelos, ou se tinha perdido em marés.
Na pior das hipóteses,  estava acobertada, algures, entre o saco lacrimal e o resto de mim.



sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Leões e girassois

Depois da polémica imagem, com demasiada testosterona, nos corredores de acessos aos balneários do Estádios Alvalade XXI,  uma proposta  de serenidade incontestável....sim, que não imagino nenhum homem que se quer moderno e  tolerante, por mais perplexo que fique,  a contestar isto...

O "lado feminino" está definitivamente na moda meus senhores. Se bem que devidamente condimentado, naquela que talvez fosse a única escolha possível do "mundo floral".
O girassol é uma flor,  é certo...mas com vontade própria. Algum dureza e, sobretudo,  muita energia.

"Feios porcos e maus"  já não combinam com as mais recentes imagens, das figuras de proa, do mundo do futebol.
Leão que é leão, não ruge perante campos floridos.
Homem que é homem não se desarma com meia dúzia de borboletas azuis.
Mesmo que quisesse...:)
Parabéns à nova, desconcertante,  e por isso mesmo, fantástica, imagem dos corredores de acesso aos balneários do Estádio Alvalade XXI...alguém quer ripostar?







quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Ary





"Não parava. Nunca parou. Não há memória de 
o Ary vez alguma ter parado. A não ser agora: por motivo de força maior "

Baptista-Bastos



quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Trans-pareces-me



Escreveste...
Escrevi!
A traços negros, a pousarem-te os olhos nas curvas apressadas do meu corpo.
Vertigem descompassada de um beijo surpreso e, rodado nos lábios. Firmemente rodado,  numa vertigem.
Escreveste mesmo...
Escrevi!
E os teus olhos,  a obrigarem-me a desejar sequer ter escrito.
Uma página a menos, agora invertidamente carimbada, no lençol debaixo, da minha e da tua existência. Faria diferença? Faria assim tanta diferença?
-Quantas sílabas escreveste tu?
Duas, apenas. Uma para te dizer que sim. Outra para te fazer esquecer...

Nunca tinha visto esse pássaro que transportava no bico uma borracha. Aproximou-se do parapeito e pouco a pouco, retirou a tinta de todas as penas.
Antes de partir, deixou cair a borracha. Não haveria mais cores, nem mais assombros.
Nenhuma paisagem desalinhada no horizonte da nossa memória.
Levantou voo sem ruído e, levou consigo, toda a tua transparência.