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quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Alfaiataria de Palavras




Por toda a noite, alinhavavas palavras, com o tecido bem esticado nos joelhos.
Primeiro os pespontos das sílabas, sob as entretelas. De uma, ou outra recordação.
Só depois o rumo certo no corte. Capaz de desenfrear frases completas, aos ombros, retalhados, das memórias.
Alinhavavas os braços, devagar, pelo tempo que passava...
Pernas ainda esquecidas, dos passos. Mas com o comprimento correcto, de todos os sonhos.
De tempos a tempos paravas. Ias até à única janela da alfaiataria e fumavas um cigarro. Suspenso de uma linha,  muitas vezes ténue é certo, mas riscada firmemente a giz, logo no início da noite.
Era o tempo de fantasiar mais uma casa. Desejar o alinhavo perfeito, a escorregar, em terreno ameno de fazenda...
As horas passavam, assim,  na quietude. As únicas horas em que na alfaiataria de palavras se trabalhava.
O tecido a amarrotar-se  vezes sem conta. À passagem de um cometa, ou na vertigem da cadência de uma estrela.  Era preciso engomá-lo agora e depois. Uma e outra vez...
E o olhar, expectante, da intensidade do último botão...
Antes que a manhã te tocasse à campainha, já o casaco sairia. Vestido de si. Com letras compostas. Pela porta larga da alfaiaria...

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Dedilhavas as minhas emoções



Dedilhavas as minhas emoções. Aí mesmo, sobre o mar da palha.
Palco de gaivotas sem pouso fixo e lonjuras.
Não sei porque é que nunca te disse isso...
O tempo, passei-o quase todo,  a retemperar a minha alma numa ou noutra, das tuas cordas.
Relembro agora os dedos, todos os dedos...
longos e esguios que permanecem.
Assomos na paisagem, em crescendo.
Desse ou de qualquer outro lugar.
Foste. Apesar de tudo, foste
No movimento perpétuo, de quem nunca se acaba.
Ficará  para sempre a  leveza, dos teus sussuros de guitarra.
felizmente!

.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A Literatura Juvenil

Foi uma luta.
Começou tinha eu dez anos, pelas mãos do meu avô.
-Que andas a ler?
Mostrei-lhe envergonhada um qualquer livro juvenil de capa ilustrada e cantos retorcidos de tanta leitura...
-Mas não está já isso lido? Vem cá.
Pela primeira vez, entrei na biblioteca do meu avô, sem que o destino fosse a cadeirinha baixa de costura, delícia suprema de qualquer um dos netos, convidado a entrar no gabinete do avô.
As paredes forradas de livros. De um lado o direito. Do outro a história, a literatura, a filosofia, os ensaios, as revistas que chegavam do estrangeiro...
-Vou-te dar um livro. É pequenino e não é difícil. Serve para aprender a pensar. É para meninas assim, que não se calam e perguntam muito.
O livro era pequenino, servia de facto para pensar e, não me pareceu nada complicado "O Discurso do método" de Descartes.
Acabei aí a literatura juvenil.

Anos mais tarde, deparei-me com uma guerra mais feroz. De uma escolaridade impositiva que arrasta a literatura juvenil até ao absurdo...reagi. Desta feita, com Eça de Queiroz.
Enfrentei uma série de mães acusadoras...a menina, coitadinha, a ler Eça de Queiroz... e por fim, a professora:
- não são idades para se ler Eça. São idades para se ler a Isabel Alçada.
Pois que não. Que a Isabel Alçada (com todos os méritos, que os tem) já estava lida, relida e trelida e que em casa, liam-se os livros da prateleira. Iria ser Eça.
O final do ano lectivo e os que se seguiram deram-me razão.

Como querem que os jovens saibam escrever, interpretar um texto, se não lhos dão?! Será que ainda não perceberam que se lê na medida do tamanho da alma? Não será o mesmo Eça, que a minha filha revisitará daqui a uns anos...como não foi o mesmo Décartes, que  fui reecontrando pela vida.
O Lugar da literatura juvenil existe. Mas tem um tempo. Curto.
Há que dar lugar a mares largos, na aventura das palavra.



quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Um Homem de sabão, desfeito de gente



Experimentou...apesar de todos lhe dizerem que era feito de sabão, sair à rua num dia de chuva. Não derreteu mais do que o necessário para escorregar o silêncio no alcatrão. Foi só isso que aconteceu: escorregou o silêncio no alcatrão.
Mas ao contrário do que se podia prever, não se desfez.

Mal chegou a casa, despiu a gabardina, descalçou os sapatos e sem saber porquê,  começou então a chorar.
As lágrimas correram céleres e foram deixando um rasto de bolas de sabão, que pouco a pouco lhe foi desfazendo as ideias…
Uma a uma, rolaram, perdidas,  pelo chão.
A ideia de(vida) a ser assim.
A ideia parecida, com não poder.
A ideia de achar que era capaz.
A ideia sincera do acontecer.

A ideia esquecida,
de um tempo passado.
A ideia feita, destemperada,
A ideia de quase tudo...
no desespero.
Tão perto da ideia,
de quase nada.

Chegou ao fim,  da única forma possível: desfeito de gente.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Palavras Acontecidas





Havia  ainda, quem se deslumbrasse com o passar dos dias. Em termos de deslumbramento efectivo.
António deslumbrava-se.
Fazia-o propositadamente.
De manhã, saía cedo. A deixar escorregar paisagens acontecidas, a conta-minutos, pelo canto dos olhos. Numa viagem, para dentro de si.
Exigia um enorme esforço de olhar...sobrancelhas contraídas, pestanas levantadas e o alvo fixo.Para que no firme instante, pudesse segurar pela ponta, cada imagem. No firme instante e só pela ponta. Fosse a imagem um bocadinho de quase nada ou uma imensidão qualquer.
Absorvia-as assim,  inteiras. Primeiro na pupila. Para só depois as reter com toda  a força da retina, sem efeitos nem floreados.
Só depois, muito para lá do meio da noite, junto a um dos dias, portanto, vinha então o deslumbramento.
Surgia sempre em forma de palavras.
Palavras que o  António não esquecia e que juntava  mais palavras: as do outro, e do outro e do outro dia...
Coladas lado a lado pela ocasião. Arrumadas pelo colorido ou pela imaginação.
Deixava-as pregadas por um alfinete de alma, numa folha de papel.
Tinha uma quantidade ímpar.



domingo, 23 de outubro de 2011

A crise. Desta feita em versão escolar e estrangeira

Este ano a surpresa:
-E os livros filha?
-Os livros estão aí!
-Estão aí como?
-Os livros não são meus mãe. Mas também não é preciso comprar livros nenhuns. Os livros são da escola. São de todos. Eu ponho o meu nome no fim da lista (de muitos nomes diga-se de passagem) e uso. Só não posso escrever nos livros. Mas não faz mal. Eles dão muito papel para tirar apontamentos.
- Bom mas é preciso dicionários...
- Não mãe. Os dicionários estão na sala de aula. São de todos. Também há na biblioteca.
-Sim mas e os consumíveis? Cadernos, dossiers com estrelinhas, com galinhas, com coisinhas...lápis com luzinhas...
-Ai isso? A mãe não se rale. É só uma caneta ou um lápis e já está. Tanto faz. Os dossiers são todos pretos, dos básicos e o papel é reciclado.
-Calculadora???
 Aqui é sempre uma razia: uma coisa xpto, que ainda está dentro da embalagem, já se ouve berrar a plenos pulmões " eu sou o último grito da moda"...
- Pois é mãe...imagine que não deixam a minha calculadora do ano passado...só deixam aquelas muito básicas que se usava no 5º ano...
 Munida de um espírito de mãe galinha em início de ano escolar, repliquei triunfante: sim mas lá para os desenhos geométricos...preciso dos números dos lápis, dos tamanhos das réguas. De vinte? De trinta? De cinquenta,  de 48...dos ângulos dos transferidores, dos enquadramentos dos esquadros e dos dois em um, que não existiam no meu tempo, mas entretanto parece que foram inventados: os arintos. (ao invés de substituírem, somaram! ). Preciso disso tudo para a lista.
-Ó mãe eles querem lá saber dos números e dos comprimentos. Desde que risque e se veja...melhor ainda é se estiver certo. Não há nada para a mãe por na lista.... Além disso, em Inglaterra, estão em crise!
Pois estão...e nós... (se calhar)... também!

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Amor aos Pedaços





Acho lindamente. Não podia estar mais de acordo. Casamentos com prazos renováveis. Uma espécie de amor...aos pedaços!
Dois anos no México, sete em Paris...vai haver para todos os gostos.
Na Madeira também!
Nada de reinados esmorecidos. De alianças gastas, de vestidos desbotados.
Acaba-se de uma vez com a modorra, o status quo, o politicamente correcto.
O casamento passa a ser a prazo: exactamente como os iogurtes. Sem admitir congelação e a exigir temperatura adequada.
Uma fruta que se mordisca levemente nos primeiros anos, para depois se exigir madura.
Volta e meia, vai a votos. O que implica campanha afincada, com atenções redobradas. Mais um papelinho, mais uma voltinha, no carroussel da vida. Que se quer para sempre. Mas desta feita, merecido. De cônjuges esforçados e empenhados.
O triste fadinho das mulheres despenteadas, amarrotadas, desmazeladas. Dos maridos esparramados no sofá da vida, vai acabar. O comando vai ter que ser o da imaginação.
O canal desporto tem os dias contados.
Os Cristianos Ronaldos deste mundo, vão te que se esforçar muito mais As novelas da TVI, quando muito, de soslaio, entre um beijo e um queijo
Vivam os chocolates, as flores, os amores!
Agora sim. Agora é que vamos ser todos felizes!



nota: é preciso é verificar sempre os prazo das embalagens.


O desenho é um original gentilmente cedido pelo autor e ilustrador José Abrantes

sábado, 15 de outubro de 2011

Desnorteados



O susto toma conta dos sonhos. Os sonhos destemperaram-se, em quotidianos impossíveis. Insuportáveis.
Para onde então?
Qual o rumo?
A crise, de económica e financeira, a pedir contenção, toma cada vez mais, a proporção do desespero. Imenso e esbugalhado.
Pede-se, pelo menos, indignação...
O suporte vai ruindo. Todos os suportes vão ruindo. Sem que se vislumbrem caminhos. Muito menos certezas.

O pensamento ficou algures, entre a hora do almoço e o pesadelo diário da sobrevivência...
A permanência do quotidiano de ontem, serve-se hoje, fria, em tempos de crise.

Não há psicologia que prepare, para a incerteza total, a cada uma das vinte e quatro horas, que partem à desfilada, por dentro de números e mais números, num galope  incessantemente. E, vindo dos quatro cantos do planeta. O mesmo, que um dia, parece que foi azul...
As necessidades tornaram-se absurdas. Senão todas, pelo menos a maioria. Esgotando-se para lá de todo o entendimento...

Parece que os números se insuflaram de vida. Orientando-se a si próprios e a nós mesmos.
Estamos, enfim,  reféns. Daquilo que já nem sequer  sabemos se queremos. Mas somos, todos, sem excepção, obrigados a consumir.

E a perplexidade a tomar conta dos gestos: autómatos, inexpressivos...

Afinal o que é prioritário? O que é essencial? O que é decisivo?
Há que repensar modelos e reorganizar estruturas.
Levantar as pedras polidas, de cima do desentendimento e recuperar o âmago. Num reencontro...com o SER. Que possa então, reunir as forças necessárias, sejam elas quais forem,  por forma a suportar, o querer e o haver, colectivos.

(a imagem foi tirada da internet e pronto!)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

À Beira de um ESTADO de Nervos...

`"Nós Estamos num Estado Comparável à Grécia Nós estamos num estado comparável, correlativo à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma ladroagem pública, mesma agiotagem, mesma decadência de espírito, mesma administração grotesca de desleixo e de confusão. Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país católico e que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa – citam-se ao par a Grécia e Portugal. Somente nós não temos como a Grécia uma história gloriosa, a honra de ter criado uma religião, uma literatura de modelo universal e o museu humano da beleza da arte."

Eça de Queirós, in "Farpas "(1872)

Relojoeiro de palavras em princípio de noite


Não te vejo escrever. Mas sei que passeias os olhos pelo écran, à procura da sílaba tónica. Irás depois, cuidadosamente inseri-la nos espaços correctos. Assim te assistam  todos os minutos da imaginação. 
Ponteiros feitos de dedos esguios, recortando quotidianos e reinventando paisagens.
Não consentes que as vírgulas fujam, de susto ou de espanto.
Que os pontos finalizem o que ainda há-de ser escrito.
Que as interjeições se acomodem.
Que os travessões se atravessem Sequer na serenidade, onde não é suposto estar mais do que o mostrador deserto. Quando muito, ponteado de uma ou outra estrela. Vírgulas indefinidas. Ainda sem rumo, na  viagem de um texto.
Aos poucos, a escrita tomará forma  de gente. Ou de rodas dentadas de palavras, enrodilhadas em silêncios, a fazer-te correr, de página em página. De capítulo em capítulo. Numa frenética revisão: do espaço e da memória.
Um dia dirão: aqui esteve, um relojoeiro de palavras em princípio de noite...


domingo, 9 de outubro de 2011

Dia triste para a cultura

Um dia triste para a cultura...a passar despercebido no emaranhado político, certamente muito mais absorvente.
A partir de agora os museus, vão deixar de ser gratuitos ao domingo. O que equivale a fechar, também as portas dos museus, a muitos milhares de famílias.
A arte, cada vez mais inacessível. A cultura também.
Fica o caminho das visitas on line, da imaginação, do espaço público e do ar que se respira...que por agora, ainda não está taxado a 23%.
Ma o sufoco está aí, bem patente para quem o quiser ver.
Claro que não comemos cultura.  E sobrevive-se sem arte...será?

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Dançarão as palavras no meio da noite.

É rigorosamente a meio da noite. No espaço fronteira entre a gaveta da memória que fechou mais um "resumo de 24 horas" passadas ao sol. E, o conturbado e difícil amanhecer...que dançarão quase todas as palavras.
Pelo menos aquelas, que poderão valer a pena dançar.
Coisas banais como ficar, perder, não querer, não saber...ignoram os acordes básicos de uma melodia simples.
São palavras postas nas prateleiras dos sonhos. Servem para enfeitar a vida  e construir castelos no ar. Temperam somente as recordações. Com gosto a canela, ou a sumo de limão.E vão colorindo o  passado. Mais, ou menos envergonhado, de um qualquer azul celestial.

As outras, as que sabem rodopiar...esperam sem pressas pelos primeiros acordes...

Uma estranha melodia repartirá as sílabas e desconstruirá as frases. Desalinhando os parágrafos e refazendo as figuras de estilo. Com acordes de aurora...
Ora pensadas, ora repentistas. Mas nunca esmagadas pelo peso do que não se consegue contar.
As palavras dancarão!
Apesar de todos os pontos de interrogação, com que enfeitámos previamente a almofada da nossa imaginação.
E quando vier a madrugada, já vão saber os passos certos, no alinhado certinho da métrica.
Entre um poema,
Cinzelado na  noite.
De breu e raiva,
de amor e céu.




sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Escreve Desalmadamente

Desarruma as palavras. Alinhava desenlaces, nas curvas da imaginação.
Ontem nasceste poeta. Hoje cronista.
Amanhã  serás, certamente, e de novo, contador de histórias. Dessas que só se encontram dobradas em mil, nos cantos da memória.

Nas mãos debruças silêncios e palavras. Escorregam-te sílabas pelo antebraço...que não seguras. A não ser no último instante, entre o polegar da brevidade de uma contracção e o indicador, propositadamente operante.
Ofegante de sílabas e ainda e suspenso de parágrafos. Inacabados, na angústia do peso certo e do lugar certeiro.
Não há lágrimas no teclado. Risos contidos em suporte de caractéres, senão estes,  desalinhados...
Mas é mesmo assim...Anda...escreve
Não tenhas pena do que não encontras, nesses caminhos intrincados das coisas que se querem contar
Não te rendas!
Escreve sempre: eterna e desalmadamente.



quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Chamem os yuppies!...



Onde estão eles? Os yuppies?
A geração que recuperou o casaquinho assertoado azul escuro e, lhe fez "mix" ao colete do avô, para dar um ar mais "maduro".
A geração que conseguiu acabar com a peúga em Portugal e "reabilitá-la" a pontos de a tornar compatível com um sapatinho church. Com ou sem berloque. De camurça, até,  no último piso, pasme-se!
A geração que do balcão cinzento do banco do Sr. Ferreira da minha rua,  plantou cogumelos coloridos, capazes de transportar qualquer mulher a dias para as Caraíbas,  num lapso de segundo.
Uma pensão de província tranformava-se por artes mágicas e, dois ou três contra placados, num "quase" Hilton .
A receita era simples...um turn down. Un turn off. Um turn qualquer. Et, voilá! Estava tudo fresco outra vez!
Nunca uma simples apresentação a um cliente teve foros de "análise psicotécnica"...até terem chegado. Gestos estudados, passos medidos, mãos posicionadas. A linguagem das cores, dos gráficos em power points a roçar a "guerra das estrelas" nos "efeitos especiais".
Se alguma coisa corria mesmo mal, o que era quase impossível, alavancava-se e pronto.
Os modestíssimos Alfa Romeu dos sonhos dos nossos pais, transformaram-se pelas artes do leasing em BMW's para toda a gente. Até não caberem mais. E em lado nenhum
Dedicavam-se todos a cosas giríssimas: agências de rating, Sociedades de Avaliação. Eram consultores, mediadores."Transaccionavam", "operavam". "Gerencionavam".Trouxeram até a Zara para deleite das senhoras e, a neve para entreter os petizes, longe da maçadora e anti higiénica  areia.
Foi todo um mundo novo. Eles eram os Conquistadores...ou será que eram os piratas?
E agora...que eram tão precisos...desapareceram todos!

domingo, 18 de setembro de 2011

Mudam-se os Tempos

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
(Luís Vaz de Camões)

Foi a pensar, já certamente na minha avó e em toda uma geração de senhoras cultas, interessantes, distinguidas  pela Universidade de Coimbra. Nessa altura,  reduto quase  absoluto, de doutores de calça riscada e chapéu, que o Luís de Camões, escreveu este soneto. Mais tarde, materializado, no cenário do Chiado, às quintas feiras.
Falo das quintas feiras, porque era às quinta feiras, longe já do início de semana sempre atribulado no que à organização doméstica dizia respeito. E,  não ainda, demasiado perto, do descanso merecido de crianças e maridos, mais as folgas do "pessoal", que se descia calmamente a "Avenida".
Ia-se a ver os "figurinos". Fazer os avios respectivos, maçar-se na modista, para enfim, descansar à hora do chá na Benard.
Não sem antes, se ter passado por este  "Au bonheur das Dames", onde se perfilavam as luvas, as capelines, as meias de seda e traço fino, a manter alinhado ao longo da perna. Trazidas sempre, sem excepção alguma, de Paris. Só isso justificava o deslumbramento do preço.
Mas os tempos mudam...as exigências são outras e, há que acompanhar.
Pelo que o Paraíso prometido, se rendeu à quase indescutível presença do "Senhor Cafézinho".
Tarde no Chiado, passou então a ser tarde de cafézinho. Devidamente encapsulado e normalizado, perante o sorriso cúmplice do omnipresente,  (a raiar a exaustão!)  "amigo" Clooney. Ele há gostos para tudo...
Pela minha parte e como cá em casa o café contínua a ser de aroma e lote, cafeteira ou balão, para as visitas. Eu não gosto, a não ser mesmo em aroma, sinto-me felicíssima, por na porta ao lado...sem perder quase nada do bonheur, me poder deliciar com noz e nata. Nata e nata. Nata e avelã. Nata e Caramelo.
Fica só um pequeno reparo, de quem não gosta de gelado de chocolate, nem de morango, nem de frutas de espécie nenhuma...que abundam, em detrimento dos ditos "sabores quentes".
Já agora Eduardo Santini  não havia pistachio. Nunca há. É aquele gelado verde, com um sabor entre os velhinhos "Rexina" e "Lux", que não faz as delícias de quase ninguém...mas faz as minhas.
Também não havia um "must"...e este, já  sem a desculpa dos sabonetes e, ausência de reparo em gelataria de renome e fama Mundial:  Rum. Ou,  na ausência do mesmo, Zuppa Inglese.
Mas Santini é sempre Santini e Bonheur é sempre Bonheur !


Registo também a  minha estranheza perante esse "fusionamento" dos gelados Santini com o "Melhor Bolo de Chocolate do Mundo"  Muito arrumadinho, é certo. E,  em lugar próprio, para turista ver. Mas a fazer lembrar uma sugestão de gnocchis com lasagna...para mim, gelado é com barquilho e copo de água s.f.f.

domingo, 11 de setembro de 2011

Amigos

Não exigem
Não cobram
Não agridem                                                                          Não abandonam
                                                                                              Não ajuízam
                               
Não intrigam
                                Não falseiam
                                 
                                                               Não injuriam      


São capazes de
ouvir
dar
amar
compreender
perdoar
simplificar
ajudar


ou simplesmente...estar

                                             São tão raros...Caso não sejam cães!




(as fotografia são do fotógrafo Mário Castello. O cão também: chama-se guizo)
                                                                                     

                                                       

sábado, 10 de setembro de 2011

Vincent - especialista de danças em amarelo



São amarelos. Profundamente e profusamente amarelos. Com uma luz tão própria que em nenhum caso os vemos à procura de outra. Como seria natural, em se tratando de girassóis.
E não são só os girassóis.
A casa é amarela. Os prados, as flores, os pigmentos, a luz..sempre amarelo.
O Amarelo de Vincent...com origens prováveis numa xantopsia. Directa ou indirectamente, ligada à tujona, presente no absinto consumido sem moderação...juntamente com a complexidade mental, do que hoje se poderia certamente enquadrar numa qualquer patologia do foro da personalidade, mais do que no esquizóide, como a época fez crer...fizeram-no assim: especialista de danças, em amarelo.
Do pontilhado, à pincelada solta, corrida,  em espiral...
Ignorado pela crítica, foi a enterrar, da forma como sempre sobreviveu: num compasso de girassóis.



sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Tempo

São frases batidas, as de que não temos tempo.
As de que o tempo passa depressa demais e não deixa fôlego para...mais tempo.
As de que não se fez o que se devia ter feito, no tempo preciso.
As que o tempo se escoou...por um funil de minutos e segundos que somados a horas, se  fizeram dias... Passos apressados. demasiado apressados em direcção a lugar nenhum
O tempo: na sua inexistência suprema, entre o passado que é memória e o futuro em projecção.
E nenhuma frase sobre o presente...
Para onde correm eles, afinal ?

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Pérolas

Não há duas pérolas iguais.
Mesmo  se semelhantes e, escolhidas pela cor e formato, para assentar no fio que as fará colar, nunca serão rigorosamente iguais.
Haverá sempre uma mais baça e outra, que irradia felicidade.
Uma que rola serena, na palma da mão. E outra, que mal se deixa manusear.
Uma vez  a uso, poucos ou nenhuns notarão a diferença.
Serão pérolas, ladeadas de outras pérolas e, de mais pérolas.
A isto: chama-se cultura.
Foram feitas assim, para serem parecidas , mesmo que diferentes. Para poderem, parecer, parecidas.
Uns anos antes, alguém encheu os cercados de ostras, exactamente do mesmo calibre para depois, uns anos mais tarde, se fazerem colares.
Há  no entanto, aquelas, que ao  nascerem  espontâneas, apanhadas a pulso, aqui e ali, se fizeram raras. Espera-lhes  por isso, uma liberdade diferente: nunca serão iguais.
Quando muito conseguiremos juntá-las num mesmo rosto, paralelas ao mesmo olhar e, mais nada.
Livres de fios e soltas de fechos. Deslumbrantes. Serão sempre estas, as autênticas, que nos farão sonhar.

Numa Máquina de Algodão


Um dia vou ter uma vida assim.
A rodopiar ligeira numa máquina de algodão.
Afinal, é suposto ter, e eu não sabia.
Uma vida que não se repita
Que não altere
Que não canse
Que não desgaste
Que não chore.

Uma vida cor de rosa,
numa máquina de algodão.
Sempre doce.
Constantemente doce.
Absolutamente doce.
Mesmo quando o açúcar se desfizer,
à velocidade que todos os açúcares se desfazem.

Há uma coisa que nunca vou esquecer: de lavar a máquina e recomeçar
Sempre
Todos os dias,
De um cor qualquer.