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segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Pietra


(Escultura de José Castro López)

 Escutou-me primeiro o silêncio como se a adivinhar as extremidades.
Depois, num voo suave, com os dedos alados presos por um fio de lágrima à palma, levantou o escopro.
Decidira que me partiria durante o tempo necessário. Nem mais um instante, nem menos numa nuvem de pó e quase nada. Apenas o bastante para me descompassar, me insistir, me fazer resvalar por todas as extremidade de encontro ao cerne.
A pedra cederia por fim o âmago. Sabia disso. Sabíamos disso.
Mais tarde ou mais cedo, as pedras cedem…Podem demorar o tempo dos pássaros que voam em círculos, dos objectos latentes que se movem por um único instante, dos membros que se desenham e redesenham incessantemente balouçados.
E se tocam e se balançam.
E se enchem de veias insuspeitas.
E se misturam de carmim, de verde, de cinza…
Um rio de mármore escorrido por mim abaixo e, o escopro a lamber-me as extremidades ainda toscas.
A força do martelo que se levantava à distância precisa de todos os meus receios.
Não havia ali nenhuma urgência de me partir.
Mesmo assim, sucumbiria a cada instante...

domingo, 4 de setembro de 2016

O último poema



( Gravura de M.C. Escher)
 
 
O último poema


Haveria apenas palavras bastantes para um último poema curto em forma de beco sem nenhuma outra saída além de meia dúzia de palavras que restavam aterrorizadas todas as outras tinham sido levadas ou pelo medo ou pela inoperância ficaram apenas essas que agora se amontoavam quase sem respiração e seguramente sem nenhuma pontuação o tempo de pontuar tinha passado o destas parcas palavras só tinha presente uma vez que nem sequer se atreviam a inventar um futuro tal o medo de igual destino a estrofe curta e atarracada logo no início do papel parecia-lhes o único porto seguro abraçaram-se as últimas palavras havia um porém e um sempre uma verdade e dois falsos um cume e um absoluto nenhuma interjeição
fosse como fosse era melhor ser-se rápido pensou o poeta não fosse a estrofe não aguentar
Porém falso absoluto
Sempre verdade
No falso cume.

O cume resvalava não obstante o falso que lhe estendia a mão perigosamente pela estrofe abaixo ameaçando perder-se foi preciso mudá-lo rapidamente

Porém Falso absoluto
Sempre no falso cume
Verdade

Mas o certo é que a verdade não se aguentou sem nexo assim no final de tudo dependurada com um V á beirinha da estrofe O que haveria de verdade Perguntar-se-ia antes que a palavra se perguntasse e com isso se fosse o poeta tratou de a recolher

Porém absoluto 
Falso cume
Verdade ? Falso!