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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Viagem inventada em sons inexistentes





Limitei-me a contar os carris, que são sempre dois e, transportam o olhar para o horizonte, mais ou menos dilatado. Mesmo assim, reconheço, que por vezes me desconcentrei desse cenário sem rumo, para adivinhar nos rectângulos metálicos das janelas, desfeitos do quadrado original por pedaços retorcidos, rostos quedos, que nunca devem te existido. Ou a terem existido, existiram unicamente vislumbrados.
Bocados de olhos, misturados com pestanas ensonadas, ombros descaídos e mãos pousadas em colos, sem história.
Será?
Pus-me a pensar se os colos teriam histórias e, se as mãos as segurariam ou se as deixariam escorregar por entre os carris. Não poderia nunca saber…a não ser se de repente, as carruagens se enchessem de sons, que são os invólucros das histórias. Sons de lágrimas a rolarem, de gargalhadas desabridas, de murmúrios sussurrantes.
Mas não havia sons. Só se os inventasse.
Não era fácil inventar sons, assim…adaptá-los aos rostos, às pestanas, aos colos e alinhá-los entre tantos vagões.
Por isso, deixei-me ficar a olhar os carris, paralelos até à curva, que não se quer por companheira, sem imaginar o destino.E,  muito menos o retorno.
O tempo ficava-se por ali.
E eu deixei-me ficar com ele...

domingo, 29 de janeiro de 2012

"Os descendentes" / Cosmética Clooney


                  

Fui ver este "descendentes" com a expectativa de um filme para "descolar" a imagem, demasiado gasta pela publicidade, de George Clooney. E,  no intuito de o relançar como actor...e foi isso que vi. Exactamente e, só.
Um filme nomeado à partida...não consegui perceber porquê.
Uma história banal, num enredo feito à medida, do omnipresente Clooney.
Mostraram o homem, (Grandes angulares, pequenas angulares, todas as angulares)  que envelhece bem, ao mesmo tempo que segura as rédeas da vida familiar. Desmontaram a imagem de galã, mais que batida, num enredo de fragilidades masculinas, dentro do óbvio. E, acabaram com uma imagem de força à boa maneira americana...não fosse alguém duvidar da masculinidade do homem. Uma vez, que evitaram toda e qualquer exposição da sensualidade do actor. Tal como se previa, de resto. Não há por isso nenhuma história de amor. Nada. Zero absoluto!
Clooney  de cabelos brancos, em estilo vinho do Porto. e, pronto para um grande filme, depois desta cosmética, inevitável,  ao Sr. Nespresso.
Personagens femininas inexistentes ou reduzidas a décor.
Para quem gosta de Clooney  é bom. Fica-se com pena e apetece dar colinho. 
Não gosto especialmente de Clooney . Muito menos na versão colinho...por isso aguardo por dias melhores.



sábado, 28 de janeiro de 2012

Barragem de abraço




Começou a chorar.
As lágrimas a rolarem a espaços. Primeiro na cadência da tristeza, depois na velocidade absurda do abandono.
-Sr. José não vale a  pena. A vida recomenda prudência, nas reservas hídricas...
E as lágrimas que corriam cada vez mais velozes e se juntavam já aos pés da cama, numa poça perdida...
Sem quase se dar conta, o ribeiro, atravessava os corredores, encharcando todos os passos, que passavam aflitos.
Não haveria mais marés baixas. Sabia que não haveria mais marés baixas. Apenas esta última preia mar, tumultuosa,  que lhe afogaria todos os sonhos. Um por um. E, de vez.
- O que posso fazer por si?
- Se me chegar o espelho...
Era a vida agora, disforme, na pressa de chegar a lugar algum. Molhada e silenciosa. Desfocada num olhar translúcido, de água e mais água . De todas as nascentes juntas a correr para uma só foz. A derradeira foz.
Com a força que lhe restava, atirou fora o espelho. E,  com ele, o triciclo encarnado, a bola, presente do avô. A primeira gravata , o beijo, a descoberta, o riso, o desejo, a viagem tão bem preparada...
Foi o tempo de um raio de sol e uma barragem: serena e firme, de um último abraço...

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Morte de olhar

Não se deve morrer assim. Num dia sem destino especial e sobretudo sem razão.Também não sei se num dia feito para a eternidade.
Percebi quando me  levantei e não encontrei os teus olhos. Nenhum dos teus olhos. Muito menos a lonjura a que me habituaras, todas as manhãs.
Parava uns segundos, cedo,  na beira da cama, a adivinhar, até onde te levaria o olhar....se para lá do muro da cidade, se acima das promessas de chuva. Irrelevante. Chegarias a casa no final do dia, vestida de trajectos. Mais ou menos desordenados. Como todas as mulheres.
Tinha sido assim, sempre.
Hoje pela primeira vez, achei-te morta.
Corri a buscar dois pincéis. E rapidamente, desenhei uma borboleta de asas amarelas.
Com a mão direita fiz quase tudo e pela esquerda prometi-lhe alguma sombra. Para te proteger a retina. Se ela tivesse sobrevivido...
Soprei com força. A borboleta partiu.
Tenho muito medo que nem ela, mesmo que o encontre, reconheça, ainda,  o teu olhar.
Se isto não é a morte, quando se morre, afinal?

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Matinas de S. Vicente. Lisboa, 1770

Foi ontem em Lisboa, coincidindo com o dia de S. Vicente, na agora recuperada Igreja de S. Vicente de Fora.
Igreja cheia, para um espectáculo conseguido.
Tocou o organista residente: João Vaz
Cantou a Capella Patriarchal. Com intervalo ao responsório V. (achei que desconcentra um bocadinho mas a  amplitude do programa, explicaram... Foi bem recuperado, depois, o fôlego. Especialmente no VII responsório." Betus Christi Athleta" de De Porcaris.

Não gostei da desarrumação das pessoas e, sobretudo da luz. Uns holofotes a gritar Ikea por todos os lados. E, como se não bastasse, uma espécie de gambiarras a iluminar os nichos.
Percebo que à semelhança do que se vai fazendo por esse mundo, se queira "iluminar". Mas talvez de forma mais discreta...sobretudo, tratando-se do programa que era.
No meu caso, não me fez grande diferença, visto que quando oiço não vejo. A não ser no caso de solistas. Ou, de algum maestro em particular.
Mas este programa exigia alguma moderação na iluminação.
Pode ser que um dia alguém se lembre de cantar as Matinas, com os candelabros antigos....

Uma vez que estamos em D. Joao V, lembrei-me dos carrilhões. Aqueles que não tocam porque se oxidam e oxidam-se porque não tocam...lá em Mafra.
Na falta de carrilhão o inesquecível concerto de 2010. Em que tocaram os seis órgãos em simultâneo.

(o que vale é que neste concertos estão sempre os estes adeptos ferrenhos do You Tube... não faço ideia se ouvem alguma coisa, mas gravam, o que já é uma proeza considerável.)



Dragões e neblinas

Acordei assim. Com parabéns efusivos, vindos do Oriente.
E a notícia de que a China, espera um boom de nascimentos no ano do Dragão.
A partir de hoje, recomendam-me que esteja em contacto com a natureza e, não me preocupe com absolutamente mais nada, uma vez que nasci, sob o signo do dragão.

E, a natureza hoje, apareceu-me assim: com a neblina que sempre me aclarou o olhar...desde os tempos em que me debruçava para perceber que debaixo daquela de dança de nuvens e terra,  a envolver invariavelmente a praia, todas as manhãs, existia sempre areia. Muita areia.

 A dança, passava-se à altura dos ombros e no compasso dos olhos. Das  nuvens, semicerradas. E, da terra, em olhos postos.
Na minha praia, jamais a mesma areia. A de ontem, ou tinha voado em castelos, ou se tinha perdido em marés.
Na pior das hipóteses,  estava acobertada, algures, entre o saco lacrimal e o resto de mim.



sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Leões e girassois

Depois da polémica imagem, com demasiada testosterona, nos corredores de acessos aos balneários do Estádios Alvalade XXI,  uma proposta  de serenidade incontestável....sim, que não imagino nenhum homem que se quer moderno e  tolerante, por mais perplexo que fique,  a contestar isto...

O "lado feminino" está definitivamente na moda meus senhores. Se bem que devidamente condimentado, naquela que talvez fosse a única escolha possível do "mundo floral".
O girassol é uma flor,  é certo...mas com vontade própria. Algum dureza e, sobretudo,  muita energia.

"Feios porcos e maus"  já não combinam com as mais recentes imagens, das figuras de proa, do mundo do futebol.
Leão que é leão, não ruge perante campos floridos.
Homem que é homem não se desarma com meia dúzia de borboletas azuis.
Mesmo que quisesse...:)
Parabéns à nova, desconcertante,  e por isso mesmo, fantástica, imagem dos corredores de acesso aos balneários do Estádio Alvalade XXI...alguém quer ripostar?







quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Ary





"Não parava. Nunca parou. Não há memória de 
o Ary vez alguma ter parado. A não ser agora: por motivo de força maior "

Baptista-Bastos



quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Trans-pareces-me



Escreveste...
Escrevi!
A traços negros, a pousarem-te os olhos nas curvas apressadas do meu corpo.
Vertigem descompassada de um beijo surpreso e, rodado nos lábios. Firmemente rodado,  numa vertigem.
Escreveste mesmo...
Escrevi!
E os teus olhos,  a obrigarem-me a desejar sequer ter escrito.
Uma página a menos, agora invertidamente carimbada, no lençol debaixo, da minha e da tua existência. Faria diferença? Faria assim tanta diferença?
-Quantas sílabas escreveste tu?
Duas, apenas. Uma para te dizer que sim. Outra para te fazer esquecer...

Nunca tinha visto esse pássaro que transportava no bico uma borracha. Aproximou-se do parapeito e pouco a pouco, retirou a tinta de todas as penas.
Antes de partir, deixou cair a borracha. Não haveria mais cores, nem mais assombros.
Nenhuma paisagem desalinhada no horizonte da nossa memória.
Levantou voo sem ruído e, levou consigo, toda a tua transparência.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Vendidos!





Quando um maestro, no caso o maestro Rui Massena e  respectiva orquestra se prestam a isto, que outro título se lhes pode dar.
A extraordinária voz, é de um filho de Presidente José Eduardo dos Santos.

A partir de agora há uma coisa de que me vou sempre certificar: que não pagarei  para ver este maestro e esta orquestra em circunstância alguma.

Vendidos!

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Olhó Pastel - Tiro ao Álvaro (dois)




  
Qualquer pessoa normal sabia de antemão que a solução desta crise estava aí...doce como o mel e ao virar da esquina.
É a chamada política de tiro ao Álvaro, desta vez, com carabina de canos cerrados e em carreira de tiro de... "natas"!.
O ministro só se esqueceu do chamado plano B...que neste caso podiam ser as queijadas de Sintra, no caso das natas não pegarem.
 Aqui vai e mãos à obra!

 Pastel de Nata
 1) uma versão  (aqui no livro há pelo menos duas)
Para a massa
farinha 250 g
manteiga 125
banha 75g  as porcarias que nós comemos sem saber...
sal 1 colher de café

Peneira-se a farinha, o sal e amassa-se com água, que se deixa descansar. Nada de pressas...a crise pode esperar e não vale comprar a massa no pingo...pois.
Estende-se a massa com o rolo da massa ( esse companheiro fiel, ora desaparecido e agora recuperado em tempos de penúria. Venha ele!).
Estende-se a massa e faz-se um quadrado que se barra com metade da banha e metade da manteiga...mas não havia manteiga...
Dobra-se ao meio, põe-se em cima de uma tábua e mete-se no frigorífico durante 10 minutos. (nem dá para arrefecer).
Torna-se a estender, barra-se com o resto das gorduras e faz-se um rolo de salame( ? )
Corta-se em 24 pedaços iguais, para dar para o ano inteiro, presumo. E,  mete-se cada um dentro de uma forminha. Volta para o frigorífico a descansar mais 10 minutos. Isto é que é descanso...cada vez que dá um passo, a massa precisa de descansar...

Tira-se a massa (toda, de preferência, que já enjoa) do frigorífico e molda-se com os dedos de forma  ficar fina no fundo e menos fina não sei bem onde, na forminha.


O recheio
nata 1/2 l
Gemas, 8
Açúcar 150
farinha 10g

Desfazem-se as coisas aos pares: a farinha com as natas. As gemas com o açúcar. (se fizer grumos mete-se a varinha mágica da sopa que ninguém nota e, afinal somos portugueses...temos que desenrascar isto...)
Leva-se ao lume até quase levantar fervura  mas sem lá chegar. Uma espécie de chove-que-não-molha da culinária (o que neste ponto já me parece quase impraticável...).
Vaza-se nas forminhas a massa (estou a reproduzir, fielmente, mas acho que a saturação já varreu a cozinha e a paciência e, parece-me que queriam dizer o recheio) até 3/4 das forminhas e, tendo cuidado para não sujar as beiras de massa (desta vez está certo) com o creme (esta parte é importante que a ASAE anda em cima).
Coze-se tudo em forno muito quente.(eu diria tórrido!) e antes de servir, polvilham-se com acúcar em pó e canela.

(há mais uma versão. Quando acabarem esta digam)

A receita foi tirada de um livro velhinho uma vez que eu ainda não aderi à nova culinária. De qualquer das formas vou imediatamente patentear a ideia, para um título a sugerir brevemente: "A crise enfim... debelada!" (que é como quem diz, desnatada).
Sugere-se que se acompanhe com a música acima

Guten appetit


Nota: Nada deste processo salvífico, contempla, a bimba da Bimby. E, muito menos, por todos os motivos e mais alguns, os congelado do pingo doce.
Este é possivelmente o primeiro, último e único post de cozinha deste blogue, pelo que é para saborear bem.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Carta à minha memória (II)

Ao Futuro

Minha memória,
Escrevo-te depressa, com medo que o tempo acabe.
Escrevo-te a perguntar do futuro, a ti, que só tens passado.
Dono de idos e acontecidos,
De tantas recordações e de História.
A ti  te rogo me digas,
Na ausência...
Do que vai  acontecer.
Do tempo que não traz recado,
No espaço, que não tem memória.
Procura, manda dizer...
Se amanhã o dia vai clarear consoante o meu querer. 
Ou, se ao contrário, irá chover.
Depois sem vontade, nenhuma  vontade, eu sei. 
trata então de adivinhar. 
De contar tu, esta história....
Passar os olhos pelas imagens que do ponto de partida, 
espreitam na curva da vida.
Olha, se puderes, compra com antecedência o selo 
Não te esqueças, porém...
De jamais, o  remeter.


(a fotografia foi tirada da internet )

Este texto foi originalmente escrito para o Blogue Cartas aos Molhos (palavras aos folhos)



sábado, 7 de janeiro de 2012

Água na Boca



 Numa altura em que a crise aperta, e se faz sentir, cada vez mais nos bolsos dos portugueses, os escritores e escrevinhadores da praça, deitam mãos à culinária...
Talvez por falta de inspiração ou por "apetites reprimidos"...
A escolha é variada. Vai desde um Miguel Sousa Tavares & rapaziada, na descontracção soalheira do condomínio, com direito a "apresentação com pastelzinho" no Brasil, a uma Clara de Sousa em ânsias de patriotismo, a recordar cheirinhos da avó (espero que não com duas dúzias de ovos a berrar calorias).
A escolha é farta e  profusamente ilustrada.
Temo que a maioria dos leitores, se fique pelas ilustrações e...com água na boca. Mais não seja, literária...ou na expectativa que o "mania de você" funcione e, traga outros frutos...quem sabe, se por "telepatia".


sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Aparos desavindos

 ...Modo maxima rerum,
    Tot generis natis que potens...
    Nunc trahor exul, inops.
                            (Ovídio, Metamorfoses )






Escrevia sempre assim. Na velocidade vertiginosa de um aparo molhado regularmente no tinteiro.
Como se não houvesse  nem espaço entre silêncios, nem tempo sobre palavras.
-Não foi bem isso que eu disse...
-Foi sim, verifique.
Foi preciso. Exacto. Dentro da perfeita medida, da respiração galopante,  do meu aparo...e ele respira,  em pleno.
Sei que preferiria um piaffer indefinido, mas a tinta, sempre a tinta...a sugar-lhe  as citações e a absorve-lhe os pensamentos. Todos os pensamentos.
Não há papel mata borrão que lhe acomode desconcertos, hesitações, lampejos de consciência ou equívocos.
Quando muito, a segurança de uma desfilada mais ou menos ilegível...para a sua memória. Não para a minha percepção.

- E lê-se? desta vez, lê-se?
- E de que lhe valeria, ler assim, lentamente, se  lhe adivinha, já, a vertigem...

São razões inexpressivas,  que lhe atormentam o destino, eu sei.
Parta da perplexidade. Parta depressa. Sem dar margem a que muitas preposições se lhe atravessem nos movimentos.
Sabe bem...o palco de todas as disputas estará sempre próximo *...

Por mim, bastar-me -à deixar escorregar o tinteiro...não haverá mais reconhecimentos.Qualquer semblante de desejos reprimidos. Nenhum dogmatismo. Nem um, no mar de tinta que se levanta.
Não se represente. Quando muito, ausente-se.
A minha tinta desenhará palavras novas, em todos os conflitos de ideias.
Ora veja...o aparo perdeu já forma...não consente nem a simples experiência de um abraço de escrita. Como se a matéria adormecida, se refizesse,  em coisa alguma...
Restam os dedos. Todos os desejos e, o tropel despojado da imaginação...



*  O palco de todas as disputas, segundo Kant: a metafísica.
   

   


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

E se mais tempo houver





E se mais tempo houver mais saberei de mim.
De ti.
Do tempo que nos espera, além de todo este movimento...ao dobrar da eternidade.
Num passeio longo, pelo paredão, da tua existência, deparei-me com a angústia, que não se programa..
Haja o que houver...mesmo que seja num voo picado a roçar os limites da incoerência.
Que brando parece o céu. Que triste se avizinha o mar.
Revolto de todas as amarguras. Porém, encostadas à sombra do meu abraço.
Haja lá, o que tiver que haver...